Fiasco total

#494

Fiasco total

Dr. Craig,

Devo dizer que me sinto completamente derrotado e ficaria agradecido por sua ajuda e ideias. Tive uma discussão sobre a existência de Deus hoje à noite e estraguei tudo! Acho que prestei um desserviço à razoabilidade da cosmovisão cristã.

Estudo apologética já faz um tempo. Achei que conhecia muito bem o material. Agora não tenho tanta certeza. Dr. Craig, sei que o senhor é um dos grandes debatedores cristãos. Quando mais jovem, o senhor alguma vez pensou ter estragado completamente um debate e se sentiu fracassado? É assim que me sinto agora!

Minha esposa e eu jantamos com alguns amigos, e uma das moças trouxe seu novo namorado. Puxei conversa, e ele me disse ser analista criminal. Começamos a discutir sobre leis e comportamento aberrante, o que me fez pensar em moralidade. Perguntei se ele achava que havia moralidade objetiva a partir do criador ou se toda moralidade é simplesmente uma invenção social. Ele, então, disse que é ateu, e passamos a discutir o que é fé, se a crença em Deus é razoável, e assim por diante. Infelizmente, não consegui apresentar minha melhor defesa do cristianismo. Olhando para trás, ele sempre estava conduzindo a conversa, e eu ficava sempre na defensiva. Ele apelava muito para a retórica e tentava achar furos nos meus argumentos, mas nunca defendia suas afirmações. Era ele quem me perguntava “por quê?”, quando eu é que deveria ter perguntado. Deveria ter lançado sobre ele o ônus da prova de demonstrar suas afirmações. Ele teimava em dizer coisas do tipo: não há como saber se a verdade absoluta existe; ou por que eu sequer me preocupo em provar que ela existe. Ele disse que não saber não é nenhum problema e que deveríamos estar dispostos a aceitar a incerteza. Ele perguntou por que eu tenho a necessidade até de crer na existência do criador. (Eu queria ter dito que não tenho a “necessidade” de um criador em si, mas quero saber a verdade, e é isso que me move. Queria ter dito: “sem o criador, sem a moralidade e a bondade objetivas, em última instância não há sentido ou propósito verdadeiro em nossas vidas! Infelizmente, fiquei com a língua travada e paralisado.)

Ele respondia às minhas perguntas com analogias ou com outras questões, mas nunca detalhadamente. Meu outro amigo me disse depois que eles acharam que ele foi superior e passou por cima de mim. Ele conseguiu me fazer parecer estúpido em relação a sua esperteza, mas não deu um argumento sequer a favor de sua cosmovisão. Só continuava a dizer que não há nenhum indício verdadeiro para a existência de Deus. Comecei a mostrar argumentos cosmológicos, teleológicos e morais. Tentei explicar em profundidade o argumento da contingência, mas ele simplesmente ignorava e perguntava por que eu tinha a necessidade de um criador. Até chegou a dizer que eu devo viver carregado de culpa, e é por isso que provavelmente eu tenha a necessidade de Deus e da igreja, e assim por diante. Ele conseguiu muito bem voltar minhas palavras contra mim.

Isso me faz lembrar de seu debate com Christopher Hitchens. Ele era famoso por sua retórica e inteligência, mas jamais respondeu a suas objeções ou propôs alternativas a seus argumentos. No meu caso, porém, aos que viam de fora pareceu que ele foi superior. Eu me sinto perdido, dr. Criag. Até me questiono se tudo isso faz algum sentido. Por que gastei tanto tempo estudando apologética, se fico paralisado num debate? Para começo de conversa, por que sequer debater ateus? Ele obviamente já tinha suas ideias formadas. Afirmou que, se visse prova da existência de Deus, mudaria de posição, mas já existem tantos indícios! Fiquei muito incomodado com minhas respostas hoje à noite. A única coisa que posso dizer é que foi uma lição de humildade. O que devo fazer? Como ficar mais bem preparado para debates na vida real? O que deveria ter feito diferente? Peço ajuda, por favor!

Marshall

Estados Unidos

United States

Não fique desanimado, Marshall! Um fiasco total dói e constrange, mas, no caso, talvez seja o empurrão de que você precisava para aperfeiçoar suas habilidades. Acho que foi Douglas Hyde, ativista marxista que virou cristão, quem relatou que a primeira coisa que faziam a um novo recruta era mandá-lo para as ruas para discutir com as pessoas as virtudes do comunismo, sabendo muito bem que ele levaria uma surra intelectual. Perceberam que essa lição de humildade era justamente o que o novo recruta precisava como estímulo para realmente dominar os argumentos e debater com os outros.

Todos nos identificamos com sua experiência. Lembro que uma vez, depois de me formar na Faculdade Wheaton, tentei compartilhar minha fé com um professor da Universidade do Norte de Illinois e saí dali me sentindo frustrado e totalmente derrotado com meu desempenho (ou falta dele). Até mesmo tentei encontrá-lo novamente para uma segunda rodada, determinado a me sair melhor, mas ele não teve nenhum interesse! O importante é aprender com essas experiências. Analise o que fez de errado e dê passos concretos para estar mais bem preparado da próxima vez.

O interessante na sua experiência é que seu interlocutor aparentemente não apresentou nenhum argumento ou objeção que você não saiba responder. Não é como se você tivesse ficado encurralado e agora precisasse encontrar respostas. Você tem as respostas, mas só precisa de métodos melhores. Sugiro que dê uma olhada num livro como Tactics [Tática], de Greg Koukl (Zondervan, 2009) para aprender técnicas eficazes para conversar sobre a fé cristã com um descrente. Você agiu corretamente ao deixar que o outro sujeito falasse mais, mas, como você bem reconheceu, você errou ao permitir que ele o empurrasse para a defensiva. As duas perguntas simples de Koukl — (1) “O que você quer dizer com isso?” e (2) “Por que você pensa assim?” — podem ajudar a ficar na ofensiva na conversa e levar seu interlocutor a tomar para si o ônus da prova que lhe é devido.

Logo no começo da conversa, quando ele diz ser ateu, seria importante entender o que exatamente ele quer dizer com isso. Ele é apenas agnóstico ou será que ele afirma saber que Deus não existe? Se for a segunda opção, qual justificação ele dá para uma posição tão radical dessas? Você pode comentar como é difícil provar que Deus não existe e, então, expressar seu interesse em ouvir os argumentos contra a existência de Deus. Se ele simplesmente disse: “Não há indícios de verdade da existência de Deus”, está aí a abertura perfeita para que você diga: “Espere aí! Você é analista criminal, não é? Como criminologista, você deve saber que ausência de provas não é prova de ausência. Quero ouvir quais são suas provas contra Deus”.

Mais uma vez, quando ele disser algo como “não há como saber se a verdade absoluta existe”, você deve estar pronto para lidar com essa afirmação. Pegue uma caneta e escreva esta afirmação: “Não há como saber se a verdade absoluta existe”. Mostre o papel para ele e pergunte: “Isto é verdade absoluta?” Se não for, é apenas sua opinião? Se é absolutamente verdade, como é que ele sabe? A posição dele não se refuta sozinha? Mas vá com calma. Diga: “Estou realmente tentando entender como sua posição não é incoerente por si só”.

Quando ele disser: “não saber não é nenhum problema, e deveríamos estar dispostos a aceitar a incerteza”, você deve responder: “Alguma vez eu afirmei com certeza que Deus existe? Tudo que estou dizendo é que, no fim das contas, a existência de Deus é mais provável do que o contrário”. Pergunte se ele concorda com isso. Se não concordar, por que não?

Se ele exigir provas da existência de Deus, você deve estar pronto e preparado. Minha impressão, Marshall, é que você não memorizou nenhum argumento, nem suas respectivas premissas. Se os tiver de memória, será o melhor antídoto para não ficar com a língua travada. Você precisa ter de memória: “Posso pensar em pelo menos cinco argumentos para a existência de Deus!”. Quando ele disser: “Por exemplo?”, você pode, então, recitar a lista de argumentos que memorizou:

1. Deus é a melhor explicação do porquê algo sequer existe, em vez de nada.

2. Deus é a melhor explicação da origem do universo.

3. Deus é a melhor explicação do ajuste fino do universo para a vida inteligente.

4. Deus é a melhor explicação de valores e deveres morais objetivos.

5. A própria possibilidade da existência de Deus implica que ele existe.

Para o descrente comum, só ouvir uma lista dessas já é avassalador. Se ele, então, quiser discutir os argumentos, recite de memória suas premissas. Por exemplo:

1. Se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos não existem.

2. Valores e deveres morais objetivos existem.

3. Logo, Deus existe.

Você talvez até queira escrever as premissas num papel para que ele as visualize.

Se alguém reagir a seus argumentos o atacando ou culpando pessoalmente, dizendo, por exemplo, que “você deve viver carregado de culpa, e é por isso que provavelmente tenha a necessidade de Deus”, sorria e diga: “Vai me dizer que você não conhece a falácia lógica do argumento ad hominem?” (É evidente a essa altura que você está lidando com uma pessoa chata e, por isso, pode confrontá-la mais diretamente.) “Mesmo que o que você disse fosse verdade — e não é —, é irrelevante para que meu argumento esteja correto. Se você quer negar a conclusão do meu argumento, você deve achar que uma das premissas é falsa. Agora é sua vez de me dizer qual premissa você acha errada e por quê”. Se você tiver memorizado essas frases, não sentirá que ficou com a língua travada quando ele fizer suas acusações.

Pois bem, quando eu incentivo que você memorize suas respostas, não me leve a mal pensando que eu quero dizer que você não deve se interessar em ter uma conversa genuína com o descrente. Muito pelo contrário, essa tática serve para conduzir a conversa a fim de que ela seja proveitosa e interessante. Você pode ter amor e preocupação genuínas por seu interlocutor, à medida que ajuda a conduzir a conversa de maneira proveitosa.

Então, o sentido disso tudo é, nas palavras de Paulo, “tornei-me tudo para com todos, para de todos os meios vir a salvar alguns” (1 Coríntios 9.22). Dê uma olhada nos depoimentos desta página para ver as formas emocionantes como Deus vem usando esses argumentos para atrair pessoas para Si. Obviamente, pode acontecer que o descrente continue a não acreditar, apesar de seus argumentos, mas você está plantando e regando na esperança de que, com o tempo, a semente germinará e dará fruto.

Quero compartilhar com você parte de outra pergunta que recebi esta semana que parece quase idêntica à sua. Scott escreveu:

Não consigo parar de agradecer por tudo o que o senhor faz! Sou um mero motorista de caminhão que ama a Deus e às vezes tinha minhas dificuldades para compartilhar com descrentes, isso até ler seu livro Em guarda! Agora tenho tanta confiança quando converso com as pessoas no trabalho ou no meu bairro que não esquivo de perguntas difíceis. Continuo sendo um simples motorista de caminhão que se empenha em dominar o conteúdo do seu livro. Certa vez alguém na minha igreja me perguntou: “por que você está tentando aprender apologética?” Na hora, percebi que essa pessoa não compartilha sua fé com os outros.

Marshall, se você der os passos preparatórios que acabei de sugerir, creio que a experiência de Scott se tornará cada vez mais a sua experiência.

William Lane Craig