A entrada triunfal

A entrada triunfal

William Lane Craig

Originalmente publicado como: “The Triumphal Entry”. Texto disponível na íntegra em: http://www.reasonablefaith.org/the-triumphal-entry.

Traduzido por Marcos Vasconcelos. Revisado por Djair Dias Filho.

Celebramos hoje o dia denominado de “Domingo de Ramos”, dia da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, uma semana antes de sua crucificação e morte. Caso alguns de vocês estejam se perguntando por que é chamado de “Domingos de Ramos”, é porque, segundo o Evangelho de João, as multidões em Jerusalém saíram para aclamar Jesus levando ramos de palmeiras que usavam para acenar ou para espalhar no seu caminho.

Temos dois relatos independentes da entrada triunfal de Jesus, um no Evangelho de Marcos e outro no Evangelho de João. Falando historicamente, isso é muito importante, uma vez que uma das provas mais importantes da historicidade de um evento é a existência de relatos independentes do mesmo acontecimento. Conforme explica Marcus Borg, destacado especialista no NT: “A lógica é direta: se uma tradição aparece numa fonte antiga e em outra fonte independente, então, ela não somente é antiga, mas é também improvável ter sido forjada”.

Agora, é evidente que, como cristãos, cremos na inspiração do Novo Testamento por Deus e, por isso, sabemos, totalmente à parte das evidências históricas, que esses relatos não foram inventados. Ainda assim, é bom saber que, mesmo que os evangelhos sejam considerados como apenas documentos históricos comuns, eles passam nos testes de fidedignidade que os historiadores seculares usam. Isso pode fortalecer nossa confiança na sua verdade e nos fornecer uma maneira de transmitir a sua verdade aos nossos amigos não cristãos que ainda não creem na inspiração da Bíblia.

Ora, no caso da entrada triunfal de Jesus, esse evento é relatado em uma das nossas fontes mais antigas, o Evangelho de Marcos, e de modo independente no Evangelho de João. Além disso, embora os relatos desse acontecimento encontrados nos Evangelhos de Mateus e Lucas sejam em grande medida dependentes de Marcos, muitos eruditos entendem que Mateus e Lucas tiveram também outras fontes independentes além de Marcos. Portanto, a defesa histórica a favor da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém é bastante sólida.

Embora os relatos de Marcos e João difiram em vários detalhes circunstanciais, eles concordam plenamente com o núcleo da história: no começo da semana final da sua vida, Jesus de Nazaré entrou em Jerusalém montado num jumentinho e foi aclamado pelas multidões que tinham vindo a Jerusalém para celebrar a festa anual da Páscoa com gritos de “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!”, pois esperavam a vinda do reino de Deus.

Hoje, portanto, queremos concentrar nossa atenção no relato mais antigo desse evento, conforme se encontra no Evangelho de Marcos 11.1-11. Leiamos juntos essa passagem:

Quando se aproximavam de Jerusalém, Betfagé e Betânia, junto ao monte das Oliveiras, Jesus enviou dois de seus discípulos e disse-lhes: Ide ao povoado que está adiante de vós, e logo que ali entrardes encontrareis um jumentinho amarrado, em que ninguém ainda montou. Soltai-o e trazei-o. E se alguém vos perguntar: Por que fazeis isso? Respondei: O Senhor precisa dele, e logo o mandará de volta para cá. Eles foram e acharam o jumentinho amarrado a um portão, do lado de fora na rua, e o desamarraram. E alguns dos que ali estavam lhes perguntaram: Que fazeis, soltando o jumentinho? Eles responderam como Jesus lhes havia mandado; e deixaram que o levassem. Então levaram o jumentinho a Jesus, lançaram sobre ele seus mantos, e Jesus o montou. Muitos também estenderam seus mantos pelo caminho, e outros, ramos que haviam cortado nos campos. E tanto os que iam à frente dele como os que o seguiam, exclamavam:

Hosana!

Bendito o que vem em nome do Senhor!

Bendito o reino que vem, o reino de nosso pai Davi!

Hosana nas alturas!

Jesus entrou em Jerusalém e foi ao templo. Tendo observado tudo em redor, como já era tarde, foi para Betânia com os Doze.

Antes de examinarmos essa passagem de modo detalhado, vamos montar o cenário geográfica e cronologicamente. É a primavera do ano, período da grande festa da Páscoa em Jerusalém, durante o mês judaico de nisã, que corresponde ao princípio de abril em nosso calendário. A Páscoa sempre começa no 14º dia de nisã, que naquele ano caiu numa sexta-feira. Assim, os estudiosos, usando dados astronômicos, determinaram que a data da festa da Páscoa durante a qual Jesus foi crucificado ou foi 3 de abril de 30 d.C. ou 7 de abril de 33 d.C.

Jesus e seus discípulos estão a caminho de Jerusalém para a festa da Páscoa, assim como vão também milhares de outros peregrinos. Eles acabaram de passar pela antiga cidade de Jericó, onde, segundo Marcos 10, Jesus curou o cego Bartimeu no caminho de saída da cidade. Jericó fica 2,7 quilômetros ao ocidente de Jerusalém. A estrada romana sobe de Jericó para o monte das Oliveiras, o qual, com a elevação aproximada de 790 metros, fica diretamente defronte do templo de Jerusalém, do outro lado do ribeiro de Cedrom (Fig. 1).

A procissão triunfal de Jesus, de Betfagé e Betânia até Jerusalém.

Fig. 1

Peregrinos vindos da Galileia ao norte, de onde era Jesus, seguiam tipicamente essa estrada para Jerusalém e passavam pelos povoados de Betânia e Betfagé, mencionados por Marcos no versículo 1. Betânia fica na encosta sul do monte das Oliveiras, um tanto fora da estrada romana, ao passo que Betfagé se localizava provavelmente na encosta ocidental do monte das Oliveiras, logo do outro lado do ribeiro de Cedrom em Jerusalém; era praticamente uma extensão da própria Jerusalém.

Ao ler o relato de Marcos, é possível perguntar-se por que esse evangelho menciona Betânia, já que Jesus não passaria realmente por ela no caminho para Jerusalém. Pode-se especular que seja o povoado inominado referido no versículo 2, onde os discípulos deverão encontrar o jumentinho. Mas isso faria a procissão triunfal de Jesus ter aproximadamente 3,2 quilômetros, o que é aparentemente uma distância longa demais para o povo espalhar ramos e vestes, do jeito que fizeram. Portanto, pareceria estranho Marcos mencionar Betânia.

Mas, ao ler o Evangelho de João, descobre-se um fato interessante: na verdade, Jesus e seus discípulos, no caminho para Jerusalém, passaram a noite em Betânia, onde residiam Maria e Marta, cujo irmão, Lázaro, Jesus tinha ressuscitado dos mortos. João relata: “Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi para Betânia, onde estava Lázaro, a quem ressuscitara dos mortos. Ofereceram-lhe ali um jantar” (Jo 12.1-2a). Tendo partido de Jericó naquela manhã, Jesus deve ter chegado a Betânia bem depois do meio-dia e desfrutou de um jantar com seus amigos. Foi durante esse jantar que Maria ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os cabelos. Curiosamente, Marcos também conhece esse incidente em Betânia, mas conta-o noutro contexto no capítulo 14. É interessante que, no capítulo 11, versículos 12 e 19, Marcos relata que Jesus não passou as noites em Jerusalém na sua última semana de vida, mas voltou para Betânia à noitinha todos os dias. Assim, a entrada triunfal não aconteceu no mesmo dia em que Jesus saiu de Jericó. João diz que Jesus passou um ou talvez dois dias em Betânia, e as multidões, ao saberem da sua chegada, já estavam saindo de Betânia para vê-lo.

Portanto, quando ocorreu de fato a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém? João informa que Jesus chegou a Betânia seis dias antes da Páscoa. De acordo com ele, a Páscoa foi comida na noite da sexta-feira. João afirma repetidamente que os líderes judeus queriam eliminar Jesus antes que começasse a refeição pascal (Jo 18.28; 19.14). De acordo com as normas judaicas, a imolação dos cordeiros da Páscoa no templo começava às três horas da tarde no 14º dia de nisã, e eles deveriam ser comidos depois que anoitecesse. Agora, prestem atenção a isto: na cronologia de João, Jesus morreu na cruz no momento exato em que os principais sacerdotes começaram a sacrificar os cordeiros da Páscoa no templo. Eles não entenderam que ao instigarem a crucificação de Jesus pelas mãos dos romanos estavam realmente oferecendo um sacrifício a Deus que, de uma vez por todas, acabaria com os sacrifícios de animais que eles estavam oferecendo no mesmo momento. Como escreveu Paulo em 1Coríntios 5.7: “Porque Cristo, nosso cordeiro da Páscoa, já foi sacrificado”.

Então, segundo o relato de João, Jesus morreu na hora dos sacrifícios da Páscoa, antes da refeição pascal. O problema aqui é que, de acordo com Marcos e os outros evangelhos, Jesus comeu a Páscoa com seus discípulos na noite anterior à sua crucificação. Em Marcos 14.12, lemos: “No primeiro dia da festa dos Pães sem Fermento, quando sacrificavam o cordeiro pascal, seus discípulos lhe disseram: Onde queres que façamos os preparativos para comeres a refeição da Páscoa?”. E Jesus lhes deu instruções para prepararem a Páscoa na sala do andar superior da casa. Bem, João está de acordo que Cristo participou da Última Ceia com seus discípulos na quinta-feira à noite antes de ser traído e preso. Mas como poderia ser uma refeição pascal se os cordeiros só seriam imolados no templo a partir da três horas da tarde do próximo dia, como relata João?

Já foram apresentadas várias soluções para esse enigma. Uma das mais plausíveis é que, em razão dos calendários concorrentes usados na Palestina do primeiro século, os sacrifícios podiam ser feitos em mais de um dia. Note-se que os fariseus e os habitantes da Galileia entendiam que os dias começavam no nascer do sol e terminavam no próximo nascer do sol. Mas os saduceus e os habitantes da Judeia entendiam que os dias começavam no pôr do sol e terminavam no próximo pôr do sol. Na era moderna, adotamos o que penso ser a convenção mais esquisita de que o dia começa no meio da noite à meia-noite e se estende até a próxima meia-noite. Bem, essa diferença na maneira de entender os dias destroça completamente a datação de certos eventos, como se pode ver na tabela abaixo (Fig. 2).

Segundo a contagem galileia, 14 de nisã começa às 6h, no dia que denominamos quinta-feira. Para o calendário judaico, 14 de nisã só começa 12h mais tarde, aproximadamente às 18h, na nossa quinta-feira. Portanto, quando um morador da Galileia, seguindo as normas judaicas, imola o cordeiro pascal na tardinha de 14 de nisã, em que dia ele faz isso? Na quinta-feira. Mas quando um habitante da Judeia oferece o seu cordeiro em sacrifício na tarde de 14 de nisã, que dia é esse? Sexta-feira! Quando a noite cai, ele então come o cordeiro, segundo entendia a estrutura dos dias, em 15 de nisã. Assim, para atender as demandas das sensibilidades tanto dos fariseus da Galileia como dos saduceus da Judeia, o sacerdócio do templo fazia dois sacrifícios pascais, um na quinta-feira e outro na sexta-feira. Jesus, como galileu, e sabedor da sua prisão iminente, preferiu celebrar a Páscoa na quinta-feira à noite, ao passo que os principais sacerdotes e os escribas responsáveis pela prisão de Jesus seguiam o calendário judaico, conforme diz João. Embora não tenhamos evidências de que os sacrifícios pascais eram feitos nesses dois dias, essa solução é bem plausível. Durante o festival da Páscoa, a população de Jerusalém chegava a 125.000 pessoas. Seria logisticamente impossível para o sacerdócio do templo sacrificar cordeiros suficientes para tanta gente entre 15h e 18h de uma tarde. Tinham de ser sacrificados em mais de um dia, o que torna totalmente possível para Jesus e seus discípulos celebrarem a Páscoa na quinta-feira à noite, antes da sua prisão.

Assim, se contarmos retroativamente seis dias da data da Páscoa de João, teremos Jesus chegando a Betânia no sábado à noite, em 9 de nisã. Dependendo de seu tempo de permanência nesse povoado, ele entrou em Jerusalém ou no dia seguinte, no domingo, ou então na segunda-feira. I. H. Marshall, destacado especialista em Novo Testamento, apresenta esta reconstrução da última semana de Jesus (Fig. 3):

Dia

Evento

Escritura

Sábado

Chegada em Betânia

Jo 12.1

Domingo

A multidão veio ver Jesus

Jo 12.9-11

Segunda-feira

Entrada triunfal

Mt 21.1-9; Mc 1.1-10; Lc 19.28-44

Terça-feira

Figueira amaldiçoada

Mt 21.18-19; Mc 12.13-14

 

Purificação do templo

Mt 21.12-13; Mc 11.15-17; Lc 19.45-46

Quarta-feira

Figueira murcha

Mt 21.20-22; Mc 11.20-26

 

Controvérsia no templo e

Mt 21.23–33.39; Mc 11.27–12.44; Lc 20.1–21.4

 

Sermão do monte das Oliveiras

Mt 24.1–25.46; Mc 13.1-37; Lc 21.5-36

Quinta-feira

Última Ceia

Mt 26.20-30; Mc 14.17-26; Lc 22.14-30

 

Traído e preso

Mt 26.47-56; Mc 14.43-52; Lc 22.47-53

 

Julgado por Anás e Caifás

Mt 26.57-75; Mc 14.53-72; Lc 22.54-65; Jo 18.13-27

Sexta-feira

Julgado pelo Sinédrio

Mt 27.1; Mc 15.1; Lc 22.26

 

Julgado por Pilatos e Herodes

Mt 27.2-30; Mc 15.2-19; Lc 23.1-25

 

Crucificado e sepultado

Mt 27.31-60; Mc 15.20-46; Lc 23.26-54; Jo 19.16-42

Sábado

Morto no túmulo

 

Domingo

Ressurreto

Mt 28.1-15; Mc 16.1-8; Lc 24.1-35

Fig. 3

Depois de montar o cenário, examinemos mais de perto a narrativa de Marcos. A primeira parte da história refere-se a Jesus conseguindo um asno em cima do qual entra na cidade. Uma vez que Jesus e seus discípulos estariam retornando à estrada romana vindos de Betânia, o vilarejo onde o asno está amarrado é provavelmente Betfagé. Jesus envia na frente dois de seus discípulos para trazer-lhe o jumentinho a fim de que ele pudesse descer montado o declive do monte das Oliveiras, atravessar o ribeiro de Cedrom e passar pela chamada Porta Dourada, no lado oriental do muro, para dentro do pátio do templo. Marcos não nos informa que tipo de asno era, mas sabemos que havia três tipos de animais equinos usados na Palestina: cavalos, burros e jumentos, que são animais híbridos, cruzamento de égua com burro. Os outros evangelhos nos dizem que Jesus escolheu um jumentinho. O jumento era robusto animal de carga usado amplamente para transportar fardos. Conforme veremos, a escolha de um jumentinho por Jesus é deliberada e significativa.

Na história de Marcos, Jesus demonstra uma presciência inquietante de eventos altamente particulares que os discípulos passariam ao buscar o jumentinho. E a explicação simplória que eles devem dar — “O Senhor precisa dele” — mostra a percepção de soberania e de autoridade que Jesus tinha. Talvez se pense que Jesus tinha simplesmente acertado previamente com os proprietários do jumentinho sem tê-lo dito aos discípulos. Mas isso parecer perder de vista a lição que Marcos está tentando ensinar aqui, ou seja, a presciência e o controle de Jesus sobre os eventos que culminariam em seus sofrimentos e morte. Marcos quer que vejamos que Jesus não é a vítima impotente de eventos que estão ficando fora de controle. Antes, ele continua a ser o soberano senhor de seu próprio destino quando escolheu sofrer a cruz.

Essa ênfase é ainda mais evidente em Marcos 14.12-16, em que, em resposta à pergunta dos discípulos sobre a Páscoa, Jesus diz a dois deles:

Ide à cidade, e vos sairá ao encontro um homem levando um jarro de água. Segui-o. Onde ele entrar, dizei ao dono da casa: O Mestre manda perguntar: Onde está o meu aposento em que irei comer a refeição da Páscoa com os meus discípulos? E ele vos mostrará uma grande sala mobiliada e pronta na parte de cima da casa; fazei ali os preparativos para nós. Os discípulos partiram e foram à cidade, onde acharam tudo como ele lhes dissera; e prepararam a Páscoa. (Mc 14.13-16)

Parece ainda mais improvável que o encontro com um homem levando um jarro de água fosse arranjado previamente; antes, Marcos está mais uma vez ilustrando o conhecimento e a autoridade sobrenaturais de Jesus. Jesus está apresentando as credenciais de um verdadeiro profeta. Por exemplo, em 1Samuel 10, ao ungir Saul como rei, Samuel lhe diz:

Hoje, quando partires, encontrarás dois homens junto ao túmulo de Raquel [...] Eles te dirão: Acharam as jumentas que procuravas [...] Então passarás dali adiante e chegarás ao carvalho de Tabor, onde três homens [...] te encontrarão, um deles levando três cabritos, outro, três pães, e o outro, um recipiente de couro cheio de vinho. Eles te cumprimentarão e te darão dois pães [...] Depois chegarás [...] onde há um posto militar dos filisteus; ao entrares ali na cidade, encontrarás um grupo de profetas descendo do monte, e na frente deles haverá alguns tocando saltérios, tambores, flautas e harpas. [...] O Espírito do SENHOR se apoderará de ti, e terás manifestações proféticas [...] (1Sm 10.2-6)

Em 1Samuel 10.7 se diz que o cumprimento dessas predições feitas por Samuel para Samuel eram sinais de que Deus estava com ele. De maneira semelhante, as predições de Jesus são instruções e sinais para seus discípulos e para nós da soberania e do controle de Jesus sobre o seu próprio destino. Tratar essas predições como meras combinações naturais previamente acertadas, como o planejamento de alguém para viajar, é perder de vista as lições que Marcos quer nos ensinar.

Os eventos da sua paixão ou sofrimentos não apanharam Jesus de surpresa. Na jornada da Galileia para Jerusalém, ele chamou os discípulos à parte e lhes disse:

Estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos gentios; irão zombar dele e cuspir nele, açoitá-lo e matá-lo. Depois de três dias, ele ressuscitará. (Mc 10.33-34).

De fato, dizer que esses eventos não pegaram Jesus de surpresa é eufemismo. Pelo contrário, ele os provocou, como vemos na segunda parte da história de Marcos. Com a sua entrada triunfal em Jerusalém, Jesus pôs em andamento o processo que ao final da semana o esmagaria sob seu peso.

Para avaliar melhor o que acontece em seguida, é necessário entender algo sobre os sentimentos judaicos com relação a Roma. Em 63 a.C., as legiões romanas sob as ordens de Pompeu puseram termo ao estado judaico independente, ao conquistarem Jerusalém e derrubarem o rei. Embora Israel tivesse retornado do seu exílio na Babilônia centenas de anos antes, a era de ouro predita pelos profetas ainda não se materializara. Em vez disso, Israel labutava sob a ditadura militar opressiva de uma nação pagã. Os judeus se desgastavam debaixo do jugo da lei romana. Após 35 anos da morte de Jesus, os judeus estariam em rebelião total contra Roma, resultando finalmente na destruição de Jerusalém, em 70 d.C. Nesse meio tempo, Israel era caldeirão de desassossego. Os judeus ansiavam por um libertador messiânico que restauraria a Israel de uma vez para sempre o trono de Davi e estabeleceria o Reino de Deus na terra.

Os profetas do Antigo Testamento falaram da vinda desse rei davídico, e os judeus ansiavam pelo cumprimento das suas profecias. Durante seu ministério, Jesus evitou o pronunciamento público de que era o Messias prometido. Os estudiosos de Novo Testamento discutem longamente acerca do dito tema do “segredo messiânico” que perpassa o Evangelho de Marcos. Em Marcos, Jesus nunca diz publicamente que é o Messias, e, quando as pessoas o reconhecem como tal, como na grande confissão de Pedro em Marcos 8.29 — “Tu és o Cristo” ou “Tu és o Messias” —, Jesus lhes ordena estritamente que não digam a ninguém sobre ele.

Agora, em Marcos 11, com essa entrada triunfal em Jerusalém, tudo muda.

Jesus estava impregnado do Antigo Testamento, conforme sabemos pela sua discussão com os escribas judeus. Ele conhecia e entendia das profecias do rei vindouro de Israel que restauraria o trono de Davi. Ele tinha de modo particular absorvido as profecias do livro de Zacarias. Zacarias falara de um pastor designado por Deus sobre o seu povo e, no capítulo 13, o profeta diz que o pastor será ferido e as ovelhas, dispersadas. Em Marcos 14.27, Jesus aplica essa profecia a si mesmo, quando diz aos discípulos que todos eles o abandonarão. Ele diz: “Todos vós desertareis, porque está escrito [citando Zacarias 13]: Ferirei o pastor, e as ovelhas se dispersarão”: Jesus está aplicando a si mesmo as profecias de Zacarias.

Portanto, o que Jesus está fazendo quando monta no filhote da jumenta e desce o monte das Oliveiras sobre ele até entrar em Jerusalém? Observem que esse é o único caso registrado nos evangelhos no qual Jesus andou montado em vez de caminhar (mesmo sendo apenas cerca de 3 quilômetros), e os peregrinos que vinham para a festa da Páscoa vinham normalmente a pé. Jesus, então, faz aqui algo singular. Mas o que isso significa? De que trata tudo isso? A resposta é que Jesus está cumprindo deliberadamente a profecia de Zacarias no capítulo 9, versículos 9-10. Ouçam-na:

Alegra-te muito, ó filha de Sião;

exulta, ó filha de Jerusalém;

o teu rei vem a ti; ele é justo e traz a salvação;

ele é humilde e vem montado num jumento, num jumentinho, filho de jumenta.

Eu darei fim aos carros de Efraim, aos cavalos de Jerusalém,

e o arco de guerra será destruído. Ele anunciará paz às nações

e o seu domínio se estenderá de mar a mar, e desde o Rio até as extremidades da terra.

Jesus está deliberada e provocativamente afirmando que é o rei prometido de Israel, aquele que reestabelecerá o trono de Davi. Seu modo de agir é como uma parábola viva, representada para revelar a sua verdadeira identidade. O segredo messiânico é agora notícia escancarada. A entrada triunfal mostra-nos a autoconsciência messiânica e quem ele considerava ser. Ele se identificou com o Pastor-Rei predito por Zacarias.

O ponto não passou despercebido pela multidão. As pessoas começaram a espalhar suas capas na estrada como um tapete vermelho para Jesus passar sobre elas montado no jumentinho, ação reminiscente da maneira como o povo espalhou suas capas no chão, em 2Reis 9.13, quando Jeú foi ungido rei de Israel. Elas cortavam ramos de palmeiras e de outras árvores folhosas, como os judeus faziam em outros festivais e celebrações, e os espalharam no caminho de Jesus. Então, as pessoas, talvez se lembrando de como o cego Bartimeu em Jericó tinha clamado repetidamente por Jesus como “Filho de Davi”, passam agora a entoar as palavras de Salmos 118.25-26: “Hosana! [ou Salva-nos, SENHOR!] Bendito seja o que vem em nome do SENHOR!”, e as outras respondiam: “Bendito é o reino vindouro do nosso pai Davi! Hosana nas alturas!”.

Pensem num anticlímax! Jesus não purifica o templo, não lidera a turba contra a fortaleza romana, nem mesmo faz um discurso inflamado. Ele apenas olha ao redor e vai embora! O que talvez explique por que ele não foi preso de imediato. A sua entrada triunfal na cidade não era algo que os romanos estavam esperando ou nem mesmo entendiam, e a procissão de Jesus provavelmente apenas se misturou com a multidão da Páscoa logo que eles alcançaram Jerusalém.

Mas que decepção para aqueles que tinham aclamado a sua entrada! Que tipo de Messias era esse? Que espécie de libertador é esse? Nos dias seguintes, Jesus purificou realmente o templo, mas não levantou um dedo contra os romanos. Em vez disso ele disse: “Dai a César o que é de César” (Mc 12.17). Quem precisa de um rei desses?

Pela sexta-feira, as multidões estavam tão desencantadas com Jesus que o sacerdócio do templo, que tramara sua prisão e entrega aos romanos sob a pérfida acusação de se dizer “Rei dos judeus”, pôde fazê-las se voltarem contra ele. E agora elas bradavam não gritos de “Hosana!”, mas “Crucifica-o! Crucifica-o!”. E, por isso, Jesus foi levado à cruz para morrer, como ele sabia que teria de ser.

Que lição podemos tirar da narrativa da entrada triunfal de Jesus? Deixem-me mencionar duas. Primeira, constatamos o senhorio de Jesus. A crucificação de Jesus não foi acidente que caiu sobre ele inadvertidamente quando visitava Jerusalém. Antes, Jesus entendeu e abraçou o seu chamado para submeter-se a morte tão excruciante. De fato, ele provocou deliberadamente os eventos que levariam à sua execução. Ele entendeu que era o Pastor-Rei profetizado em Zacarias e assumiu abertamente esse papel na sua entrada triunfal em Jerusalém. Durante todo o processo, demonstrou a presciência dos eventos da sua paixão: o fato de encontrar o jumentinho, as providências para sua última refeição de Páscoa no salão superior da casa, a traição de Judas, a tripla negação de Pedro, a deserção dos discípulos, sua entrega aos gentios, seus açoites, humilhações e execução. Ele anunciou todas essas coisas antecipadamente, mostrando-se dessa maneira como o Senhor da história.

Há hoje uma teologia que está fazendo incursões na igreja cristã, chamada de “Teísmo Aberto”. Essa teologia sustenta que Deus não tem presciência nem é capaz de conhecer com antecipação os livres atos dos seres humanos e, portanto, só consegue adivinhar o futuro. Dizem que ele é um Deus que se arrisca, que joga com a sorte, e que às vezes perde. As predições da paixão, como as que analisamos hoje, mostram que o Teísmo Aberto está errado. Jesus sabia, e sabia com tantos detalhes que não poderia ter sido adivinhação, exatamente o que lhe aconteceria naquela semana em Jerusalém. O Teísmo Aberto, portanto, deprecia inevitavelmente a pessoa de Cristo. Vemos no relato da entrada triunfal a revelação do senso de senhorio de Jesus, à medida que ele dirige os eventos para os fins antecipadamente conhecidos.

A segunda lição está relacionada com a primeira: Jesus nem sempre atende às nossas expectativas. Os judeus esperavam o rei que seria um grande líder militar como Davi, que lançaria fora o jugo de Roma e estabeleceria pela força o reino de Deus. Ao lermos algumas profecias do Antigo Testamento, podemos entender por que os judeus alimentavam essas expectativas; eles não deixavam de ter razão em hipótese alguma. Mas Jesus era radicalmente diferente das suas expectativas. Quando ele entrou montado em Jerusalém, ele não fez isso num cavalo, símbolo da batalha e o preferido dos conquistadores, como Pompeu havia feito. Ele não usou nem mesmo uma mula, o corcel dos reis judaicos, como o próprio Davi. Ao contrário, ele escolheu um jumentinho, um animal inferior, um animal de carga, como sua montaria real. Como Zacarias tinha profetizado, ele veio humildemente trazendo a paz. O Reino de Deus que ele pregou e inaugurou não era reino terreno, político, mas a lei de Deus no coração daqueles que o conhecem e o servem. Mas esse não era o reino que as pessoas esperavam nem queriam, e assim elas rejeitaram Jesus como seu Senhor.

À medida que crescemos na nossa vida cristã, todos enfrentamos situações nas quais Deus não cumpre as nossas expectativas. Talvez ele não conceda à sua vida um parceiro com quem casar. Ou pode ser que você descubra que seu casamento não atendeu às suas expectativas. Ou talvez tenha sido preterido numa promoção ou posição realmente merecida. Ou talvez a doença ou a tragédia se abateu sobre a sua vida de maneira inesperada.

E a tentação em todas essas situações é lançar fora aquilo que a fé cristã ensina e fazer as coisas ao seu modo. Casa-se com a pessoa incrédula que está apaixonada por você. Entra com uma ação de divórcio. Fica ressentido e amargo por causa das oportunidades perdidas. Desiste de confiar no amor de Deus por você e deixa de confiar nele. À medida que amadureço na fé cristã, vejo esse tipo de coisas acontecerem repetidamente na vida de amigos cristãos. Quando Deus não está à altura das nossas expectativas, então nos livramos dele e fazemos as coisas da maneira que nós entendemos que elas deveriam ser ou ficamos ressentidos com ele por não nos dar aquilo que queremos.

O que quero dizer aqui é aquilo que a primeira lição nos ensina: Jesus é Senhor. Ele não tem nenhuma obrigação de viver à altura das nossas expectativas. Se a escolha dele é dar a você uma vida de sofrimento e dificuldades, de decepções e fracassos, ele é Senhor. Por isso, há muitos de nós que parecem pensar que, se Jesus não atende às nossas expectativas, então o rejeitaremos da mesma maneira como as multidões o rejeitaram. Mas Cristo é Senhor e não está obrigado a atender às nossas expectativas a respeito dele. Cristo jamais prometeu uma vida feliz aos seus seguidores. O discípulo não está acima do seu mestre, e o Mestre escolheu o caminho do Gólgota. Se vocês são chamados para trilhar a mesma vereda, essa é uma prerrogativa do Mestre.

O que estou dizendo é que devemos adequar as nossas expectativas àquilo que Deus decreta, não adequar Deus às nossas expectativas. Cristo é Senhor e ele sabe o que é melhor. Se tentarmos adequá-lo às nossas expectativas, àquilo que é aceitável para nós, ou se o rejeitarmos, então, essa é a vereda para a autodestruição. Não devemos ser como as pessoas de Jerusalém, que aclamaram Cristo como seu rei só até o ponto em que ele se ajustava à imagem que tinham de como deveria ser um rei. Antes, ao contrário, devemos reconhecê-lo verdadeiramente como nosso Rei, nosso Senhor, nosso Soberano, e receber de suas mãos tudo quanto ele decretar.