Estagnação intelectual

Estagnação intelectual

William Lane Craig

Originalmente publicado como: "In Intellectual Neutral". Texto disponível na íntegra em: http://www.reasonablefaith.org/in-intellectual-neutral.

A tradução foi extraída da obra Apologética para questões difíceis da vida, publicada em 2010 por Edições Vida Nova, e utilizada com autorização.

Há alguns anos, dois livros causaram um enorme espanto na comunidade acadêmica norte-americana. O primeiro deles, Cultural Literacy: What Every American Needs to Know [Alfa­betização Cultural: o que todo americano precisa saber], escrito por E. D. Hirsch, documentou o fato de que boa parte dos estudantes universitários norte-americanos não tem o conhecimento básico necessário para compreender sequer a primeira página de um jornal, ou para agir responsavelmente como cidadãos. Por exemplo, em uma recente pesquisa, um quarto dos estudantes pensava que Franklin D. Roosevelt era presidente dos Estados Unidos durante a guerra do Vietnã. Dois terços não sabiam quando havia ocorrido a guerra civil. Um terço pensava que Colombo descobrira o Novo Mundo algum tempo depois de 1750. Numa recente pesquisa da Universidade Estadual da Califórnia, em Fullerton, mais da metade dos estudantes não foi capaz de identificar Chaucer ou Dante. Noventa por cento não sabiam quem era Alexander Hamilton, a despeito do fato de sua foto estar em toda nota de dez dólares.

Essas estatísticas seriam piadas divertidas se não fossem tão alarmantes. O que tem acontecido com nossas escolas que têm formado pessoas tão assustadoramente ignorantes? Allan Bloom, que foi um eminente educador na Universidade de Chicago, e autor do segundo livro ao qual me referi acima, argumentou em The Closing of the American Mind [O declínio da cultura ocidental: da crise da universidade à crise da sociedade] que por detrás desse mal-estar educacional subjaz a convicção universal dos estudantes de que toda verdade é relativa e que, portanto, a verdade não é digna de ser buscada. Bloom escreve:

Há uma coisa de que um professor pode estar absolutamente certo: quase todos os estudantes que entram na universidade acreditam, ou dizem acreditar, que a verdade é relativa. Se essa crença for questionada, pode-se esperar a seguinte reação dos estudantes: eles não entenderão. Qualquer pessoa que considere que uma proposição não é autoevidente provoca-lhes admiração, é como se fosse admirável colocar em questão o fato de que 2+4=4. Estas são coisas sobre as quais você não pensa (...) O fato de os estudantes verem tal questão como algo de ordem moral é claramente visto no caráter da resposta deles quando desafiados — uma combinação de descrença e de indignação: “Você é um absolutista?”, a única alterna­tiva que eles conhecem, emitida no mesmo tom como... “Você realmente acredita em bruxas?”. Essa pergunta produz indignação, pois alguém que acredita em bruxas pode muito bem ser um caçador de bruxas ou um juiz de Salém. O perigo do absolutismo, que eles foram ensinados a temer, não é o erro, mas a intolerância. O relativismo é necessário para a abertura; e essa é a virtude, a única virtude, que toda educação fundamental, por mais de cinquenta anos, tem se dedicado a inculcar. “Abertura” — e o relati­vismo que a transforma em única posição possível diante das várias reivindicações de verdade e dos vários estilos de vida e dos vários tipos de seres humanos — é a palavra de ordem que expressa o grande insight de nossos tempos. (...) O estudo da história e da cultura nos ensina que todo o mundo foi insensato no passado; os homens sempre pensaram que estavam certos, e isso os conduziu a guerras, perseguições, escravidão, xenofobia, racismo e machismo. A questão não é corrigir os erros e realmente estar certo; mas, sim, não pensar que você, afinal de contas, está certo. 1

Uma vez que não há nenhuma verdade absoluta, uma vez que tudo é relativo, o propósito da educação não é ensinar a verdade ou conhecer os fatos — pelo contrário, trata-se apenas de adquirir a habi­lidade necessária para enriquecer, conseguir poder e fama. A verdade se tornou irrelevante.

Ora, é natural que esse tipo de atitude relativista quanto à ver­dade seja antitética à cosmovisão cristã. Afinal, como cristãos, cremos que toda verdade é verdade de Deus, que Deus nos revelou a verdade, tanto na Palavra como naquele que disse: “Eu sou a Verdade”. O cristão, portanto, jamais pode olhar para a verdade com apatia ou desdém. Pelo contrário, ele preza e valoriza a verdade como reflexo do próprio Deus. Por outro lado, como concluíram erroneamente os estu­dantes de Bloom, o compromisso com a verdade torna o cristão um intolerante; no entanto, o real conceito de tolerância requer que uma pessoa não concorde com aquilo que ela tolera. O cristão está comprometido tanto com a verdade como com a tolerância, porque acredita naquele que não somente disse “Eu sou a verdade”, como também declarou “amai os vossos inimigos”.

Na época em que esses referidos livros foram publicados, eu lecio­nava no departamento de estudos religiosos em uma faculdade cristã. Então, comecei a pensar: “Quantos cristãos teriam sido influenciados pela atitude que Bloom descreve? Como seria a performance dos meus próprios alunos nos testes de E. D. Hirsch?” Pensava com meus botões: “Como será que eles se sairiam? E por que não fazer um teste desses com eles?” Bom, foi isso que fiz.

Baseei-me num pequeno teste de conhecimentos gerais a respeito de pessoas, lugares e coisas famosas e o apliquei a duas classes de apro­xi­­madamente cinquenta alunos de segundo ano. Verifiquei que, apesar de eles apresentarem um resultado melhor do que a maioria da população de estudantes em geral, havia uma grande parte do grupo que não era capaz de identificar — mesmo com uma frase — alguns nomes e eventos importantes. Por exemplo, 49% não foram capazes de identificar Leon Tolstoi, o autor, talvez, do maior romance do mundo, Guerra e paz. Para minha surpresa, 16% não sabiam quem era Winston Churchill. Um estudante pensava que ele era um dos pais fundadores dos Estados Unidos! Outro estudante o identificou como um grande pregador reavivalista de poucos séculos atrás! 20% não sabiam o que é o Afeganistão, e 22% não foram capazes de identificar a Nicará­gua. 20% não sabiam onde está localizado o rio Amazonas. Imaginem!

Os resultados foram ainda piores quanto a coisas e eventos. Fiquei abismado ao descobrir que 67% não foram capazes de identi­ficar a Batalha de Bulge. Vários a identificaram com um problema que afeta pessoas em dieta. 2 20% não sabiam o que era a “teoria da relatividade” (observe que era apenas para identificá-la como “uma teoria de Einstein” — não era necessário explicá-la). 40% não foram capazes de identificar a Última Batalha de Custer, que foi classificada como uma batalha na guerra revolucionária ou como uma batalha na guerra civil. Diante de tudo isso, não fiquei surpreso de que 73% não soubessem a que se refere a expressão “destino manifesto”.

Assim, ficou claro para mim que os estudantes cristãos não eram capazes de estar acima da catástrofe de nosso sistema educacional, tanto nos níveis primários como nos secundários. Esse nível de igno­rância apresenta uma verdadeira crise para as faculdades e seminá­rios cristãos.

No entanto, um temor ainda mais terrível começou a me assombrar enquanto contemplava essas estatísticas. E pensei: “Se estu­dantes cristãos são tão ignorantes a respeito dos fatos gerais concernentes à história e à geografia, então, devem ser muito fortes as chances de que eles, e cristãos em geral, sejam igualmente ou ainda mais ignorantes a respeito dos fatos de nossa própria herança e doutrina cristãs”. É indu­bitável que a nossa cultura mergulhou fundo no analfabetismo bíblico e teológico. Muitas pessoas não sabem sequer dizer quais são os quatro Evangelhos — numa recente pesquisa uma pessoa os identificou como Mateus, Marcos e Lutero! Numa outra pesquisa, Joana D’Arc foi identificada por algumas pessoas como a esposa de Noé! Comecei a sus­peitar que, provavelmente, a igreja evangélica também esteja enredada em algum nível mais elevado dessa mesma espiral declinante.

Mas, se nós não preservamos a verdade de nossa própria he­rança e doutrina cristãs, quem irá fazê-lo por nós? Os que não são cristãos? Dificilmente! Se a igreja não dá valor à própria verdade cristã, então, ela se perderá para sempre. Por isso, pensei sobre como os cristãos se sai­riam em um teste sobre os fatos gerais da história e dou­trina cristãs.

Como foi? Bom, se a sua condição é a mesma que a dos ouvintes a quem eu tinha aplicado esse teste, provavelmente você não se saiu bem. Se esse é o caso, você poderia ser tentado a assumir uma postura defensiva em relação a esse teste: “Quem realmente precisa saber essas coisas? Eu não estou no programa de tv “Quem quer ser um milio­ná­rio?”! Essas coisas não são realmente tão importantes. O que realmente importa é andar com Cristo e falar dele para outras pessoas. Quem se importa com essas questões triviais?”

Realmente, espero que essa não seja a sua reação, porque isso impe­­­dirá o seu progresso, e mais, esse pequeno exercício não terá sido, de modo algum, proveitoso. Você não terá aprendido nada com ele.

No entanto, há uma segunda reação, mais positiva. Você poderá perceber, talvez pela primeira vez na vida, que você tem uma real necessi­dade de se tornar intelectualmente engajado como um cristão, e então poderá decidir fazer algo a esse respeito. Essa é uma decisão importante. Você dará um passo que milhões de cristãos no mundo precisam dar. Ninguém fez um desafio tão impactante para os cristãos se tornarem intelectualmente engajados como Charles Malik, ex-embaixador libanês nos Estados Unidos, em seu discurso de dedicação do Billy Graham Center, em Wheaton, Illinois. Malik enfatizou que, como cristãos, estamos diante de duas tarefas na evangelização: salvar a alma e salvar a mente, ou seja, não somente converter as pessoas espiritualmente, mas também convertê-las intelectualmente. E a igreja está perigosamente atrasada com relação a essa segunda tarefa. Nossas igrejas estão cheias de pessoas que são espiritualmente nascidas de novo, mas que ainda pensam como não cristãs. Preste bastante atenção nas palavras de Malik:

Devo ser franco com vocês: o maior perigo que ameaça o cristianismo evangélico norte-americano é o perigo do anti-intelectualismo. A mente, em suas dimensões mais amplas e profundas, não está sendo levada suficientemente a sério. A nutrição intelectual não pode acontecer separadamente de uma profunda imersão, por vários anos, na história do pensamento e do espírito. As pessoas que estão com pressa de sair da universidade e de começar a ganhar dinheiro, ou de servir a igreja, ou de pregar o evangelho, não fazem a menor ideia do imensurável valor de gastar anos de prazer conversando com as maiores mentes e espíritos do passado, amadurecendo, aperfei­çoando e ampliando os seus poderes de pensamento. O resultado é que a arena do pensamento criativo está vazia e plenamente entregue ao inimigo. 3

Malik continuou:

É necessária outra mentalidade, totalmente diferente, para vencer o grande perigo do anti-intelectualismo. Por exemplo, essa nova mentalidade, no que diz respeito apenas à filosofia — o mais importante campo do pensamento e do intelecto — deve reconhecer o tremendo valor de gastar um ano inteiro não fazendo nada, a não ser, se debruçando intensamente sobre A República ou O Sofista, de Platão; ou dois anos sobre Metafísica ou Ética, de Aristóteles; ou três anos sobre Cidade de Deus, de Agostinho. Mas, se começarmos um programa de recuperação nesse e em outros campos, precisaremos de um século, pelo menos, para ficarmos atualizados como as universidades de Harvard, Tübinga e Sorbonne — e até lá, você pode imaginar onde essas universidades estarão? 4

O que Malik claramente viu é a posição estratégica ocupada pela universidade na construção do pensamento e da cultura ocidentais. De fato, a instituição mais importante na construção da sociedade ocidental é a universidade. É na universidade que os nossos futuros líderes políticos, jornalistas, advogados, professores, cientistas, executivos e artistas serão formados. É na universidade que eles formularão ou, mais provavelmente, absorverão a cosmovisão que moldará suas vidas. Uma vez que são os formadores de opinião e os líderes que moldam a nossa cultura, a cosmovisão que eles absorverem na universidade será aquela que moldará a nossa cultura.

Por que isso é importante? Simplesmente porque o evangelho nunca é ouvido no isolamento. Ele será sempre ouvido a partir do pano de fundo do ambiente cultural em que nós vivemos. Uma pessoa criada num ambiente cultural em que o cristianismo é ainda visto como uma opção intelectual viável terá uma abertura para o evangelho que não encontraremos em uma pessoa criada em um ambiente secularizado. Por exemplo, no contexto de uma pessoa criada em um ambiente secularizado, você poderá falar sobre crer em duendes ou em bruxas, ou mesmo em Jesus Cristo. Ela não verá diferença alguma! Ou, oferecendo um exemplo mais realista, acontecerá o mesmo que acontece quando um adepto do Hare Krishna se aproxima de você na rua e o convida a crer em Krishna. Esse convite soará estranho, como algo bizarro, até divertido. Mas para uma pessoa nas ruas de Bombaim, tal convite iria, penso eu, parecer bastante razoável e motivaria a sua reflexão. Temo que os evangélicos se pareçam quase tão estranhos a pessoas nas ruas de Bonn, Estocolmo, ou Toronto, como os devotos de Krishna.

É parte da tarefa mais ampla dos estudiosos cristãos ajudar a criar e manter um ambiente cultural no qual o evangelho possa ser ouvido como uma opção intelectual plausível para homens e mulheres pensantes. Portanto, a igreja tem um papel vital em formar estudiosos cristãos que ajudarão a criar um lugar para ideias cristãs na universidade. O cristão em geral não percebe que há uma guerra intelectual acontecendo nas universidades, nas revistas especializadas e nas sociedades acadêmicas. O cristianismo tem sido taxado de irracional ou obsoleto, e milhões de estudantes — nossa futura geração de líderes — têm absorvido esse ponto de vista.

Essa é uma guerra que não podemos permitir que seja perdida. Às vésperas da controvérsia fundamentalista, o grande teólogo de Princeton, J. Gresham Machen, advertiu que, se a igreja perder a batalha intelectual em uma geração, a evangelização se tornará infinitamente mais difícil na geração seguinte:

Falsas ideias são o maior obstáculo à recepção do evangelho. Podemos pregar com todo o fervor de um reformador e, mesmo assim, sermos bem-sucedidos apenas em ganhar algumas poucas pessoas perdidas por aqui e por ali; e isso só tem acontecido porque permitimos que o pensamento coletivo da nação, ou do mundo, seja controlado por ideias que, pela força irresistível da lógica, impedem o cristianismo de ser reconhecido como algo mais do que uma mera ilusão inofensiva. Sob tais circunstâncias, o que Deus deseja de nós é que destruamos o obstáculo em sua raiz. 5

A raiz do obstáculo deve ser encontrada na universidade e é lá que deve ser atacada. Infelizmente, a advertência de Machen não foi ouvida, e o cristianismo bíblico entrincheirou-se no gueto intelectual do fundamentalismo, do qual ele tem apenas recentemente começado a reemergir. A guerra ainda não está perdida, e é uma guerra que não devemos perder: almas de homens e mulheres estão por um fio.

Assim, o que os evangélicos têm feito para vencer essa guerra? De fato, até bem recentemente, Malik foi direto ao ponto, quando perguntou:

Quem, entre os evangélicos, pode se equiparar aos grandes estudio­sos naturalistas ou ateus em termos de erudição? Quem, entre os estudiosos evangélicos, é citado como uma fonte normativa pelas grandes auto­ri­da­des seculares na história, filosofia, psicologia, sociologia, ou política? O modo evangélico de pensar tem alguma chance de se tornar dominante nas grandes universidades da Europa e da América, de modo a marcar toda a nossa civilização com seu espírito e ideias?
[...] Com vistas à maior efetividade no testemunho de Jesus Cristo, e também para benefício próprio, os evangélicos não podem se dar ao luxo de viver na periferia da existência intelectual responsável. 6

Essas palavras doem como uma martelada. Os evangélicos realmen­te têm vivido na periferia de uma vivência intelectual responsável. Os estu­diosos evangélicos mais proeminentes — pelo menos na sua grande maioria — são como grandes peixes em pequenas lagoas. Nossa influência se estende muito pouco além da subcultura evangélica. Tendemos a publicar exclusivamente em editoras evangélicas, e, por consequência, nossos livros provavelmente continuam não sendo lidos por estudiosos não evangélicos. Em vez de participarmos mais das sociedades profissionais em geral, temos participado mais efeti­vamente das sociedades profissionais evangélicas. Isso mostra o quanto temos colocado nossa luz debaixo de um caixote, e, por isso, temos tido pouco efeito fermentador do evangelho nos diversos campos profissionais não evangélicos. Em contrapartida, para a nossa infelici­dade, a tendência intelectual da cultura, como um todo, permanece sem ser desafiada, caminhando cada vez mais fundo no secularismo.

Precisamos desesperadamente de estudiosos cristãos que possam, como Malik disse, fazer frente a pensadores não cristãos nos termos próprios de sua erudição. Isso pode e deve ser feito! Há, por exemplo, uma revolução acontecendo, neste mesmo instante, no campo da filosofia que, como Malik notou, é o domínio mais importante do pensamento e do intelecto, visto que é fundamental para todas as demais disciplinas da universidade. Filósofos cristãos têm saído de seus guetos e defendido a verdade da cosmovisão cristã com argumentos filosoficamente sofisticados, nas melhores revistas seculares e sociedades profissionais. Como resultado disso, a face da filosofia americana tem mudado.

Há cinquenta anos, os filósofos em geral consideravam qualquer discurso a respeito de Deus como literalmente sem sentido, como mero palavreado, mas, hoje em dia, nenhum filósofo bem informado pode assumir tal ponto de vista. De fato, muitos dos melhores filósofos americanos, na atualidade, são cristãos declarados. Para que você possa experimentar um pequeno aperitivo do impacto dessa revo­lução, desejo citar uma larga porção de um artigo que foi publicado no outono de 2001, na revista Philo, lamentando o que o autor chama­va de “a dessecularização da academia que se desenvolveu nos departamentos de filosofia desde os anos sessenta”. O autor, um proeminente filósofo ateu, escreve:

Na segunda metade do século vinte, as universidades [...] têm se tor­nado predominantemente secularizadas. A posição [...] padrão em cada campo [...] assumia ou envolvia argumentos de uma cosmovisão naturalista. [...] Filósofos analíticos [...] tratavam o teísmo como uma cosmo­visão antirrealista ou não cognitivista, requerendo a realidade, não de uma divindade, mas meramente de expressões emotivas ou certas de “formas de vida”  [...].

Isso não quer dizer que nenhum dos estudiosos, nos vários campos acadêmicos, fosse teísta realista em suas “vidas privadas”; mas teístas realistas, na maioria, excluíam seu teísmo de suas publicações e ensino, em grande medida porque o teísmo [...] era considerado como possuindo pouco valor epistêmico, incapaz de atender aos requisitos de uma posição “academicamente responsável”. A secularização da academia começou a se diluir rapidamente após a publicação do influente livro de Plantinga, God and Other Minds [Deus e outras mentes], em 1967. [...] Esse livro, seguido sete anos depois pelo livro ainda mais impressionante de Plantinga, The Nature of Necessity [A natureza da necessidade], tornou claro que um teísta realista havia escrito no nível mais alto de qualidade da filosofia analítica, no mesmo campo de jogo de pessoas como Carnap, Russell, Moore, Grünbaum e outros naturalistas [...].

Os naturalistas observaram passivamente como versões realistas de teísmo, influenciadas principalmente pelos escritos de Plantinga, começaram a se espalhar pela comunidade filosófica, de modo que, hoje em dia, quase um quarto ou um terço dos professores de filosofia é teísta, a maioria ainda composta de cristãos ortodoxos.

[...] em filosofia, argumentar a favor do teísmo tornou-se, quase que na calada da noite, “academicamente respeitável”, tornando a filosofia um lugar favorável para a entrada, no mundo acadêmico, dos mais inteligentes e talentosos teístas da atualidade [...].

Deus não está “morto” na academia; ele voltou à vida no final dos anos 60 e continua vivo e bem em sua última fortaleza acadêmica: os departamentos de filosofia. 7

Esse é o testemunho de um proeminente filósofo ateu sobre a mudança que ocorreu, diante de seus olhos, na filosofia americana. Penso que ele está, provavelmente, exagerando quando estima que de um quarto a um terço dos filósofos americanos seja teísta, mas o que suas estimativas revelam é o impacto percebido do surgimento de filóso­fos cristãos nesse campo. Como o exército de Gideão, uma minoria com­pro­­­metida de ativistas pode provocar um impacto proporcionalmente muito superior aos seus números. O erro principal que esse filósofo comete é o de chamar os departamentos de filosofia de “última fortaleza” de Deus na universidade. Pelo contrário, os departamentos de filosofia são apenas uma espécie de ponta de lança, a partir da qual operações podem ser executadas para impactar outras disciplinas na universidade, para a glória de Cristo.

O ponto é que a tarefa de dessecularização não é algo irremediável ou impossível, nem necessita, como se poderia imaginar, de mudan­ças significativas para ser realizada. É esse tipo de erudição cristã que representa a melhor esperança de transformação da cultura, que Malik e Machen tinham em mente. Seu verdadeiro impacto a favor da causa de Cristo somente será sentido na próxima geração, à medida que se infiltrar na cultura popular.

Assim, ela pode ser realizada! O que é triste, porém, é quão pouco apoio a igreja evangélica provê a seus pensadores, de quem ela desesperadamente tem necessidade. É irônico o fato de um estudante evangélico só ter alguma atenção da comunidade cristã após ter alcançado seu doutorado. Depois que ele obtém o seu Ph.D., recebe todo tipo de convites para palestras, e pessoas pedem que autografe seus livros — mas, quando lutava para alcançar seu título, era praticamente igno­rado pela comunidade evangélica, ou até mesmo ridicularizado como um “eterno estudante”. Muitos dos homens e mulheres jovens que serão relevantes — se de fato a comunidade evangélica quiser recuperar a respeitabilidade intelectual — vivem com orçamentos apertados, ou até mesmo ficam endividados durante os anos de seu treinamento acadêmico, abandonados e esquecidos, trabalhando sob forte estresse e ansiedade, vislumbrando um futuro ainda incerto.

Considero um tremendo privilégio dedicar uma parcela das doações de nossa família para o trabalho do Senhor, a favor de alguns desses jovens estudiosos a quem conhecemos pessoalmente e que serão nossos líderes cristãos do futuro. Recomendo fortemente às igrejas que aloquem uma quantia em seus orçamentos para o sustento de estudantes de sua congregação, especialmente os que estão em seminá­rios ou em programas de doutorado. Candidatos a tal sustento deveriam ser entrevistados de forma semelhante à de candidatos a missionários e avaliados em termos de suas vidas espirituais pessoais, habilidades acadêmicas, e seu potencial para o futuro — pois o trabalho que assumirão é parte integrante da ação evangelística da igreja, tanto quanto o trabalho de missionários. A igreja não pode, em sã consciência, continuar ignorando tais pessoas.

Como é chocante saber que o anti-intelectualismo de que Malik falou se solidificou  também em nossas instituições evangélicas de ensino superior. A erudição séria frequentemente é depreciada e obstruída, uma vez que professores são sobrecarregados com cargas elevadas de ensino, participação em comitês e outras funções administrativas que consomem tempo em demasia.

A erudição parece estar quase em último lugar na lista de prioridades. Minha própria experiência, como professor de tempo integral em um seminário, deixou claro para mim que, embora houvesse um forte compromisso da administração com a formação de pastores, havia pouca ênfase na produção de eruditos de primeira linha. As formas evangélicas de pensamento e de produção teológica jamais assumirão uma posição de liderança no mundo enquanto reinar a mentalidade de escola bíblica.

Minhas impressões pessoais foram confirmadas por um sóbrio rela­tório intitulado “The State of Scholarship at Evangelical Institutions” [A situação da erudição nas instituições evangélicas], um estudo realizado pelo professor Nathan Hatch, da Universidade de Notre Dame, com o apoio financeiro da Pew Charitable Trusts.8 Hatch descobriu que, embora seminários e faculdades evangélicas afirmem o valor da erudição, o que elas estão falando de verdade é de um conceito genérico que identifica “erudição” com qualquer tipo de publicação, mesmo em nível popular. Todavia, erudição, em seu sentido estrito, como “estudo e escrita intensivos, a médio e longo prazo, sobre assuntos direcionados a parceiros no campo acadêmico”, está seriamente em falta.

Essas duas noções de “erudição” levam a dados conflitantes: enquanto o deão de uma escola relata que noventa por cento do corpo docente está “ativamente engajado” em trabalho acadêmico, um membro do corpo docente, na mesma instituição, estima que somente dez a quinze por cento dos docentes estão, de fato, engajados academi­camente, ressaltando que os outros “setenta e cinco a oitenta por cento pensam que estão escrevendo para audiências acadêmicas. [...] Mas, na verdade, eles não sabem de fato o que é isso”.

A pesquisa feita por Hatch em cinquenta e oito seminários e faculdades evangélicas o levou a concluir que: “apesar de todo o dinamismo e sucesso na comunicação popular, os evangélicos, como um grupo, têm fracassado em manter uma vida intelectual séria, entregando a pesquisa e o discurso intelectuais às pessoas com pressupo­sições seculares”.

Por si só, essa conclusão seria ruim; mas a pesquisa de Hatch revelou mais dois fatos profundamente preocupantes: primeiro, administradores de faculdades e seminários evangélicos geralmente não apre­ciam a erudição séria e, em alguns casos, a impedem. “A pesquisa mostra que a liderança de faculdades e seminários, em geral, não faz da erudição uma prioridade”, escreve Hatch. Erudição séria é “mais provavelmente, vista como supérflua ou, até mesmo, como algo oposto ao alvo primário da instituição”, que é o ensino (faculdades) ou o treinamento pastoral (seminários). Com respeito aos seminários evangélicos, a erudição somente é valorizada “na medida em que contribui com o alvo central de treinar pastores, mas não quando ocupa tempo dos docentes fora de sala de aula”. Segundo, erudição séria é vista como irrelevante para a vida espiritual da pessoa e da igreja. Hatch afirma: “administradores de instituições evangélicas podem valorizar a erudição, porque ela qualifica o ensino ou porque ela aumenta a reputação de suas escolas, mas, em geral, a erudição não é considerada como importante para a missão da igreja ou para o crescimento espiritual do indivíduo”.

Ele conclui: “Apesar da ênfase retórica na integração da fé e da aprendizagem — o que é absolutamente trivial em instituições evangélicas —, as respostas a essa pesquisa demonstraram que o mundo acadêmico evangélico como um todo não conectou a erudição com a espiritualidade cristã e a vitalidade a longo prazo da igreja”.

Como são trágicas essas atitudes tão mesquinhas! Machen observou que, em sua época, “muitos preferiam que os seminários combatessem o erro, atacando-o conforme ensinado por seus expoentes populares”, em vez de confundir os estudantes “com um monte de nomes alemães desconhecidos fora dos muros da universidade”. Em contrapartida, Machen insistia que é essencial que acadêmicos cristãos estejam alertas ao poder de uma ideia entes de ela alcançar formulação popularizada. O procedimento erudito, disse ele,

é baseado simplesmente numa profunda crença na capacidade de influên­cia das ideias. O que hoje é uma questão de especulação acadêmica, amanhã moverá exércitos e derrubará impérios. Nesse segundo estágio, já foi longe demais para ser combatida; o tempo de impedi-la era o tempo quando ainda era uma questão apaixonadamente debatida. Dessa forma, como cristãos, devemos tentar moldar o pensamento do mundo de tal maneira que a aceitação do cristianismo seja vista como algo mais do que um absurdo lógico. 9

Como Malik, Machen também acreditava que “o principal obstá­culo para a religião cristã na atualidade se colocava na esfera do intelecto” 10 e que, portanto, as objeções ao cristianismo deveriam ser atacadas na esfera da intelectualidade. “Hoje em dia, a igreja está sofrendo por causa da falta de pensamento, não pelo excesso dele”. 11

A ironia quanto à mentalidade de que nossos seminários devem produzir pastores, e não eruditos, está no fato de que são preci­­­­sa­men­te nossos futuros pastores, e não nossos futuros eruditos, que precisam ser intelectualmente engajados e receber sólido treinamento acadêmico. O artigo de Machen foi, originalmente, apresentado como uma preleção intitulada “The Scientific Preparation of the Minister” [A formação científica do ministro]. Um modelo para nós, nesse ponto, deveria ser o de John Wesley, um avivalista cheio do Espírito e, ao mesmo tempo, um erudito educado em Oxford.

Em 1756, Wesley apresentou [An Adress to the Clergy” [Discurso ao clero], texto que os futuros pastores de nosso tempo de­­ve­riam ler como parte de seu treinamento. Ao discutir o tipo de habi­­lidades que um pastor deveria ter, Wesley distinguiu entre “dons naturais” e “habilidades adquiridas”. É extremamente instrutivo ponde­rar as habilidades que Wesley considerava que um ministro deveria adquirir:

(1) Como alguém que se esforça para explicar a Escritura a outras pes­soas, tenho o conhecimento necessário para que ela possa ser luz nos caminhos dessas pessoas? [...] Estou familiarizado com as várias partes da Escritura; com todas as partes do Antigo Testamento e do Novo Testamento? Ao ouvir qualquer texto, conheço o seu contexto e os seus paralelos? [...] Conheço a construção gramatical dos quatro evangelhos, de Atos, das epístolas; tenho domínio sobre o sentido espiritual (bem como o literal) do que eu leio? [...]Conheço as objeções que judeus, deístas, papistas, socinia­nos e todos os outros sectários fazem às passagens da Escritura, ou a partir delas [...]? Estou preparado para oferecer respostas satisfatórias a cada uma dessas objeções?

(2) Conheço grego e hebraico? De outra forma, como poderei (como faz todo ministro) não somente explicar os livros que estão escritos nessas línguas, mas também defendê-los contra todos os oponentes? Estou à mercê de cada pessoa que conhece, ou pelo menos pretende conhecer, o original? [...] Entendo a linguagem do Novo Testamento? Tenho domínio sobre ela? Se não, quantos anos gastei na escola? Quantos na universidade? E o que fiz durante esses anos todos? Não deveria ficar coberto de vergonha?

(3) Conheço meu próprio ofício? Tenho considerado profundamente diante de Deus o meu próprio caráter? O que significa ser um embaixador de Cristo, um enviado do Rei dos céus?

(4) Conheço o suficiente da história profana de modo a confirmar e ilustrar a sagrada? Estou familiarizado com os costumes antigos dos judeus e de outras nações mencionadas na Escritura? [...] Sou sufi­cientemente (se não mais) versado em geografia, de modo a conhecer a situa­ção e dar alguma explicação de todos os lugares consideráveis mencionados nela?

(5) Conheço suficientemente as ciências? Fui capaz de penetrar em sua lógica? Se não, provavelmente não irei muito longe, a não ser tropeçar em seu umbral [...]. Ou, ao contrário, minha estúpida indolência e pre­guiça me fizeram crer naquilo que tolos e cavalheiros simplórios afirmam: “que a lógica não serve para nada?” Ela é boa pelo menos [...] para fazer as pessoas falarem menos — ao lhes mostrar qual é, e qual não é, o ponto de uma discussão; e quão extremamente difícil é provar qualquer coisa. Conheço metafísica; se não conheço a profundidade dos eruditos — as sutilezas de Duns Scotus ou de Tomás de Aquino — pelo menos sei os primeiros rudimentos, os princípios gerais dessa útil ciência? Fui capaz de conhecer o suficiente dela, de modo que isso clareie minha própria apreensão e classifique minhas ideias em categorias apropriadas; de modo que isso me capacite a ler, com fluência e prazer, além de proveito, as obras do Dr. Henry Moore, a “Search After Truth” [A busca da verdade] de Malebranche, e a “Demonstration of the Being and Attributes of God” [Demonstração do ser e dos atributos de Deus] de Dr. Clark? Compreendo a filosofia natural? Compreendo Gravesande, Keill, os Principia de Isaac Newton, com sua “teoria da luz e das cores”?  Além disso, tenho alguma bagagem de conhecimento matemático? [...] Se não avancei assim, se ainda sou um noviço, que é que eu tenho feito desde os tempos em que saí da escola?

(6) Estou familiarizado com os Pais; pelo menos com aqueles veneráveis homens que viveram nos primeiros tempos da igreja? Li e reli os restos dourados de Clemente Romano, de Inácio e Policarpo, e dei uma lida, pelo menos, nos trabalhos de Justino Mártir, Tertuliano, Orígenes, Clemente de Alexandria e de Cipriano?

(7) Tenho conhecimento adequado do mundo? Tenho estudado as pessoas (bem como os livros), e observado seus temperamentos, máximas e costumes? [...] Esforço-me para não ser rude ou mal-educado: [...] sou [...] afável e cortês para com todas as pessoas?

Se sou deficiente mesmo nas capacidades mais básicas, não deveria me arrepender frequentemente dessa falta? Quão frequentemente [...] tenho sido menos útil do que eu poderia ter sido!12

É notável essa perspectiva de Wesley de como deve ser o pastor: um cavalheiro, hábil nas Escrituras e conhecedor da história, da filosofia e da ciência de seu tempo. Quantos pastores graduados em nossos seminários se enquadrariam nesse modelo? O historiador eclesiástico e teólogo David Wells chamou nossa geração atual de pastores de “os novos obstáculos”, porque abandonaram o papel tradicional do pastor como um proclamador da verdade para a sua congregação, e substituí­ram-no por um novo modelo gerencial que enfatiza as habilidades de liderança, marketing e administração. Como resultado, a igreja tem produzido uma geração de cristãos para os quais a teologia é irrelevante e cujas vidas fora da igreja praticamente não difere em nada da dos ateus. Esses novos pastores gerentes, queixa-se Wells, “têm maltratado e despreparado a igreja; eles têm deixado a igreja cada vez mais vulnerável a todas as seduções da modernidade, exatamente porque não ofereceram a alternativa, que é uma vida centrada em Deus e sua verdade”. 13 Precisamos recuperar o modelo tradicional de homens como Wesley.

Mas, finalmente, não são apenas pastores e eruditos cristãos que devem ser intelectualmente engajados, se é que a igreja cristã deseja impactar nossa cultura. Leigos cristãos também devem se tornar intelec­tualmente engajados. Nossas igrejas estão cheias de cristãos inte­lectualmente preguiçosos. Como cristãos, suas mentes estão impro­dutivas. J. P. Moreland, em seu desafiador livro Love God with All Your Mind [Amar a Deus com toda a nossa mente], chama os cristãos de nossos dias de “egos vazios”. Um ego vazio é desorde­­na­damente individualista, infantil e narcisista. É passivo, sensual, ocupado e apressado, incapaz de desenvolver uma vida interior. Na passagem que, talvez, seja a mais contundente de seu livro, Moreland nos pede para imaginar uma igreja cheia de pessoas dessa estirpe. Ele pergunta:

Como seriam o conhecimento teológico, [...] a coragem evangelística [...] a influência cultural de tal igreja? [...] Se a vida interior realmente não importa, por que gastar tempo tentando desenvolver [...] uma vida intelectual espiritualmente madura? Se uma pessoa é basicamente passiva, ela não se esforçará para ler, preferindo, em vez disso, entreter-se. Se uma pessoa é mais sensorial em sua orientação, a música, as revistas cheias de figuras e os recursos visuais, em geral, serão muito mais palatáveis do que as meras palavras ou os pensamentos abstratos impressos nas páginas de um livro. Se uma pessoa é apressada e distraída, terá pouca paciência diante do pensamento teórico e [...] um grau de atenção muito pequeno para lidar com uma ideia enquanto ela está sendo cuidadosamente desenvolvida. [...]

E, se uma pessoa é totalmente individualista, infantil e narcisista, o que tal pessoa lerá: [...] Livros cristãos de autoajuda, cheios de conteúdo self-service, [...] clichês, moralismos, muitas historinhas, abundância de figuras, e diagnósticos inadequados de questões que não exigem nada do leitor. Livros a respeito de celebridades cristãs [...] que não serão lidos como livros que equipam pessoas para [...] desenvolver um conhecimento teológico bem argumentado da religião cristã, nem para ocupar seu lugar no reino de Deus. [...] Tal igreja [...] irá se tornar [...] impotente diante das poderosas forças do secularismo que ameaçam enterrar as ideias cristãs sob um manto de pluralismo sem alma e de cientificismo maldirecionado. Em tal contexto, a igreja será tentada a medir seu sucesso quase que somente em termos numéricos — números alcançados graças à acomo­dação cultural dos egos vazios. Dessa forma, [...] a igreja se tornará seu próprio coveiro, seus meios de “sucesso” imediato se transformarão no próprio instrumento que a marginalizará a longo prazo. 14

O que torna essa descrição tão contundente é que não precisamos imaginar esse tipo de igreja; pelo contrário, ela é uma descrição fiel de muitas igrejas evangélicas da atualidade.

Não é de se admirar, portanto, que, a despeito de seu ressurgi­mento, o cristianismo evangélico seja tão limitado em seu impacto cultural. David Wells reflete:

O vasto crescimento de pessoas com mentalidade evangélica [...] deveria ter revolucionado a cultura norte-americana. Com um terço dos adultos norte-americanos afirmando ter nascido de novo, uma poderosa contracorrente de oralidade, nascida de uma cosmovisão poderosa e alternativa, deveria ter invadido as fábricas, os escritórios e as empresas, a mídia, as universidades e as profissões, de um canto do país ao outro. Os resultados deveriam, agora, ser inconfundíveis. Os valores seculares deveriam ter cambaleado, e os seus proponentes deveriam estar muito preocupados. Entretanto, o fato é que todo esse inchaço de crescimento evangélico não fez qualquer impacto cultural. [...] A presença de evangélicos na cultura norte-americana apenas causou uma marolinha. 15

Em alguns casos, as pessoas podem justificar sua falta de engajamento intelectual afirmando que preferem cultivar uma “fé simples”. No entanto, aqui, penso que devemos distinguir entre fé infantil e fé como a de uma criança. Uma fé como a de uma criança é uma con­fiança integral em Deus como o pai celestial, e Jesus nos recomenda esse tipo de fé. Mas uma fé infantil é uma fé não refletida, imatura, e tal fé não nos é recomendada. Pelo contrário, Paulo diz: “não sejais como crianças no entendimento. Quanto ao mal, contudo, sede como criancinhas, mas adultos quanto ao entendimento” (1Co 14.20). Se uma fé “simples” significa uma fé não refletida, ignorante, então não deveríamos desejá-la. Em minha própria vida, posso testemunhar que, após muitos anos de estudo, minha adoração a Deus é mais profunda, exatamente por causa de — e não a despeito de — meus estudos teológicos e filosóficos. Em cada área que eu pesquisei intensamente (criação, ressurreição, onisciência divina, eternidade divina), minha apreciação da verdade de Deus e minha admiração de sua pessoa se tornaram mais profundas. Anseio por estudos futuros, por causa da profunda apreciação que, com certeza, eles me darão da pessoa e obra de Deus. A fé cristã não é uma fé apática, uma fé de cérebros mortos, mas uma fé viva, inquiridora. Como Anselmo afirmou, a nossa fé é uma fé que busca entendimento.

Ademais, os resultados decorrentes do fato de estarmos intelectualmente estagnados se estendem muito além de nosso próprio eu. Se leigos cristãos não se tornam intelectualmente engajados, então corremos um sério risco de perder nossa juventude. Nos colégios e nas faculdades, adolescentes cristãos são atacados intelectualmente por todas as formas de filosofias não cristãs, unidas com um relativismo avassalador. Sempre que falo em igrejas ao redor do país, constan­temente me encontro com pais cujos filhos perderam a sua fé porque não havia ninguém na igreja para responder às suas perguntas.

Há alguns anos, tive o privilégio de conhecer o dr. Blanchard Demerchant, atualmente professor de filosofia. Educado em um lar cristão, Blanchard começou, ainda adolescente, a fazer perguntas acerca das dúvidas relativas à fé cristã que o perturbavam. Ele foi estudar em uma escola cristã, mas, para seu desânimo, não encontrou nenhum professor a quem pudesse fazer tais perguntas. Entretanto, havia na administração um homem bem formado. Blanchard marcou uma reunião com ele, esperando encontrar respostas para suas perguntas. Mas, quando apresentou suas questões, em vez de lidar com elas, o administrador simplesmente mandou Blanchard se ajoelhar e se arrepender diante de Deus por ter tais dúvidas.

Não é necessário dizer que esse fato apenas convenceu Blanchard, ainda mais, de que não havia nenhum valor intelectual na fé cristã. Ele começou a estudar filosofia em uma universidade secular, tornou-se ateu, convenceu a garota cristã com quem se casou a abandonar sua fé, foi convocado e enviado ao Vietnã, onde se tornou um drogado e alcoólatra e, posteriormente, voltou para encontrar seu casamento, seu trabalho e seu mundo em frangalhos. Ele quase se suicidou. Contudo, em vez disso, começou a estudar e a ponderar o ensino do homem Jesus e, de forma lenta e dolorosa, começou a voltar para a fé cristã. Para encurtar uma longa história, ele agora é uma pessoa transformada, que se reconciliou com sua esposa, Phyllis, e que tem um notável ministério com estudantes de universidades seculares, da área da filosofia, introduzindo sutilmente a perspectiva cristã em problemas filosóficos discutidos em classe. Ele me disse, com um sorriso, que seus estudantes simplesmente estão estupefatos pelo fato de ele ser simultaneamente cristão e professor de filosofia. A história de Blanchard teve um final feliz. No entanto, para muitos outros filhos de lares cristãos, o resultado é mais trágico.

Não há dúvidas de que a igreja perdeu a bola da vez nessa área. Contudo, as estruturas estão aí para a igreja remediar o problema, basta que ela queira usá-las. Estou falando, é claro, dos programas de adultos nas escolas dominicais. Por que não começar a utilizar as classes de escola dominical para oferecer instrução séria sobre assuntos como doutrina cristã, história da igreja, Novo Testamento grego, apologética, e assim por diante? Pense no potencial de transformação! Por que não?

Creio que nossa cultura pode ser mudada. Estou animado com a possibilidade de renascimento da filosofia cristã em minha geração, o que é um bom presságio para a próxima. Se Deus tem lhe chamado para se tornar um erudito cristão na frente de batalha, ou para ser um pastor cristão que ensina a verdade para sua congregação, ou para ser um leigo ou pai cristão que está preparado para responder qual é a razão da sua esperança, temos a oportunidade maravilhosa de ser agentes de mudança cultural em nome de Cristo.16 Por amor a igreja, por amor a si próprio, por amor a seus futuros filhos e filhas, não perca essa oportunidade! Se até este instante você se vê intelectualmente estagnado e preguiçoso, agora chegou o tempo de entrar em ação! Nos próximos capítulos, iremos, com uma mentalidade plenamente engajada, explorar algumas das difíceis questões que confrontam os cristãos na cultura contemporânea.


Notas

1 Allan Bloom, The Closing of the American Mind, New York, Simon & Schuster, 1987, p. 25,26 [Publicado no Brasil por Best Seller sob o título O declínio da cultura ocidental: da crise da universidade à crise da sociedade].

2 “Bulge”, além de ser o nome de um local que ficou famoso por ter sido o cenário de uma das últimas grandes batalhas da segunda guerra mundial, é uma palavra inglesa que significa “protuberância” ou “inchaço” (N. do E.).

3Charles Malik, “The Other Side of Evangelism”, Christianity Today, Novembro, 1980, p. 41.

4 Ibid.

5 J. Gresham Machen, “Christianity and Culture”, Princeton Theological Review 11 (1913), p. 7.

6 Charles Malik, “Other Side of Evangelism”, p. 40.

7 Quentin Smith, “The Metaphilosophy of Naturalism”, Philo, vol. 4/2, 2001.

8 Todas as citações são extraídas da versão não publicada do relatório.

9 J. Gresham Machen, “Christianity and Culture”, p. 6.

10 Ibid., p. 10.

11 Ibid., p. 13.

12 John Wesley, Works, vol. 6, p. 217-231.

13 David F. Wells, No Place for Truth, Grand Rapids, Eerdmans, 1993, p. 253.

14 J. P. Moreland, Love God with All Your Mind, Colorado Springs, NavPress, 1997, p. 93-94.

15 David F. Wells, No place for Truth, p. 293.

16 Tendo ouvido o chamado, enfrentamos o próximo passo que é o de nos prepararmos para a batalha. Ao ler este livro, você já começou a se preparar. Um segundo passo necessário é ler Love God with All your Mind, de Moreland, e prosseguir estudando as referências em suas bibliografias temáticas.