O nascimento de Deus

O nascimento de Deus

William Lane Craig

Originalmente publicado como: “The Birth of God”. Texto disponível na íntegra em: http://www.reasonablefaith.org/the-birth-of-god.

Traduzido por Marcos Vasconcelos. Revisado por Djair Dias Filho.

Pediram-me que eu falasse esta noite sobre “O nascimento de Deus”. O título fere os ouvidos, pois parece ininteligível. Como seria possível Deus, o Criador incriado de todas as coisas, ter um nascimento? Como poderia um ser autoexistente e eterno, o Criador do tempo e do espaço, ter nascido? Não parece ter o mínimo sentido.

Mas no Natal é exatamente isso que de certo modo se celebra. A doutrina cristã da encarnação declara que Jesus Cristo é Deus em carne. Jesus era Deus verdadeiro e também homem verdadeiro. Ele nasceu da virgem Maria. Quer dizer, Jesus teve uma concepção sobrenatural, mas um nascimento perfeitamente natural. Uma vez que Jesus era Deus na carne, Maria, sua mãe, é, portanto, chamada nos credos cristãos primitivos de “a Mãe de Deus” ou “portadora de Deus”. Não é porque Deus, de alguma maneira, veio a existir como resultado da concepção de Maria ou que, de algum modo, Maria gerou Deus. Antes, ao contrário, Maria poderia ser chamada de portadora de Deus porque a pessoa que ela trazia no ventre e deu à luz era divina. Assim, o nascimento de Jesus foi, num certo sentido, o nascimento de Deus.

Isso só empurra o problema um ponto para trás. Pois como é possível Jesus ser igualmente Deus e homem, como creem os cristãos? Se existe uma coisa chamada contradição, com certeza essa é uma! Pois as propriedades para ser divino e as propriedades para ser humano parecem mutuamente excludentes, uma deixando a outra de fora. Deus é autoexistente, necessário, eterno, onipotente, onisciente, onipresente, e assim por diante. Mas os seres humanos são criados, dependentes, presos ao tempo e limitados em poder, conhecimento e espaço. Assim, como alguém pode ser tanto humano como divino?

Além disso, se o crente, pressionado duramente por essa questão, for tentado a evitar o problema simplesmente negando que Jesus era realmente divino ou que era realmente humano, permitam-me dizer que a Bíblia não nos dá essa opção. O Novo Testamento afirma tanto a divindade como a humanidade de Jesus Cristo e, portanto, impõe esse problema sobre nós. Considerem, por exemplo, o capítulo de abertura do evangelho de João. Os evangelhos de Mateus e Lucas começam com a história da concepção sobrenatural de Jesus e o seu nascimento virginal, mas o evangelho de João adota uma perspectiva mais cósmica, na qual descreve a encarnação da Palavra preexistente de Deus. Ele escreve:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.

Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito existiria. A vida estava nele e era a luz dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.

Houve um homem enviado por Deus; seu nome era João. Ele veio como testemunha, a fim de dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Pois a verdadeira luz, que ilumina a todo homem, estava chegando ao mundo. [...]

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, pleno de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai.

João testemunhou a respeito dele, exclamando: É sobre este que eu falei: Aquele que vem depois de mim está acima de mim, pois já existia antes de mim. Pois todos recebemos da sua plenitude, graça sobre graça. Porque a lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está ao lado do Pai, foi quem o revelou.

Aqui, João descreve Jesus como “Deus”, o Criador de todas as coisas, que se tornou carne e entrou na história humana há aproximadamente 2000 anos na terra da Judeia. Logo, a inferência é inevitável, assim como o problema que ela traz: Jesus tanto era humano como divino.

Como as gerações que se sucederam na igreja primitiva debatiam para entender a doutrina da encarnação, certas pessoas resolviam essa aparente contradição à custa exclusiva da negação de um ou de outro polo do ensino bíblico. Grupos como os gnósticos ou docetas, por exemplo, negavam que Cristo era verdadeiramente humano. Ele apenas parecia assumir forma humana; a carne de Cristo não passava de ilusão ou disfarce, e seus supostos sofrimentos foram meramente aparentes. Por outro lado, grupos como os adocianistas ou os eutiquianos negavam, em vez disso, a divindade de Cristo. Jesus de Nazaré era apenas um homem mortal a quem Deus adotou como seu filho e o elevou ao céu. Em oposição a esses grupos, à direita e à esquerda, a igreja primitiva condenou repetidamente como herética qualquer negação da humanidade ou da divindade de Cristo. Por mais contraditório ou misterioso que possa parecer, os teólogos permaneceram resolutamente do lado da afirmação bíblica de que Jesus Cristo era Deus verdadeiro e homem verdadeiro.

Com o tempo, surgiram depois na igreja primitiva dois centros de debates teológicos acerca da encarnação, um na cidade de Alexandria, no Egito, e o outro na cidade de Antioquia, na Síria. As duas escolas de pensamento afirmavam unanimemente que Jesus Cristo era tanto divino como humano, mas cada uma apresentava um modo diferente de entender a encarnação. Deixem-me tentar explicá-las, porque essas visões servirão de ponto de partida para a minha proposta mais tarde.

Tanto os teólogos alexandrinos como os antioquenos pressupunham que as coisas tinham naturezas, quer dizer, propriedades essenciais que determinam o tipo de coisa que algo é. Por exemplo, o cavalo tem natureza diferente do porco, e ambos são diferentes da natureza humana. Segundo o grande filósofo grego Aristóteles, a natureza do ser humano era a de um animal racional. Isso significa que o ser humano é essencialmente composto de uma alma racional e um corpo físico. Tal entendimento da natureza humana era igualmente aceito pelos teólogos de Alexandria e Antioquia. Além disso, segundo essa visão, Deus tem também uma natureza, que inclui propriedades como ser autoexistente, eterno, onipotente, onisciente, e assim por diante.

Ora, o debate entre Alexandria e Antioquia reduzia-se basicamente a isto: Jesus tinha uma ou duas naturezas? Os teólogos de Alexandria defendiam que o Cristo encarnado tinha uma natureza, mesclada de propriedades divinas e humanas. Uma das propostas mais engenhosas que saiu dessa escola foi a apresentada pelo bispo Apolinário, que morreu em 390 d.C. Apolinário propunha que, na encarnação, Deus o Filho, a segunda pessoa da Trindade, assumiu forma humana, de modo que Jesus Cristo tinha corpo humano e mente ou alma divina. Assim, Deus passou a vivenciar o mundo mediante o corpo físico e a sofrer nesse corpo, ao mesmo tempo em que permanecia sem pecados e infalível na sua pessoa. Cristo, assim, tinha uma natureza divino-humana e, portanto, era Deus e homem ao mesmo tempo.

Os teólogos antioquenos atacaram a visão de Apolinário em duas áreas. Primeira, argumentaram que, na visão de Apolinário, Cristo não tinha uma natureza humana completa. Tinha somente corpo humano, mas sua alma era divina. Ser humano de fato envolve ter tanto corpo como alma humanos. O que distingue o homem dos animais é a sua alma racional, não seu corpo físico. Os teólogos antioquenos, assim, denunciavam que a visão de Apolinário sobre a encarnação convertia Deus em animal, não em homem. A segunda objeção tinha relação com a primeira. Uma vez que o propósito da encarnação era a salvação da humanidade, se Cristo não se tornou realmente homem, então a salvação estava anulada. Todo o fundamento lógico por trás da encarnação era que, ao tornar-se um de nós e ao identificar-se com o próximo, Cristo poderia oferecer sua vida sem pecados a Deus como oferta sacrificial em nosso lugar. Na cruz, Jesus Cristo foi nosso substituto; ele suportou o castigo que merecíamos pelo pecado. Logo, Jesus é o Salvador de todos quantos põem a confiança nele. Mas, se Cristo não fosse verdadeiramente humano, não poderia servir como nosso representante diante de Deus, seu sofrimento é nulo e vazio, e não há salvação. Ao negar a plena humanidade de Cristo, Apolinário minava a salvação por meio de Cristo. Por essas razões, no ano de 377, a visão de Apolinário foi condenada como herética. A questão que ainda subsiste, penso eu, é se a visão de Apolinário é totalmente falida ou se não tem um núcleo valioso que ainda pode ser salvo.

Que alternativa, então, os teólogos antioquenos têm para oferecer? Em contraste com Alexandria, os teólogos de Antioquia insistiam que, na encarnação, Cristo tinha duas naturezas completas, uma humana e uma divina. Eles sustentavam que Deus Filho, a segunda pessoa da Trindade, em certo sentido, habitava o ser humano Jesus desde o momento da sua concepção no ventre de Maria. Por causa disso, um dos notáveis bispos da escola antioquena, chamado Nestório, objetou que se chamasse Maria de “portadora de Deus”, pois o ser que ela portava era a natureza humana de Cristo, e não Deus. A natureza humana de Cristo incluía tanto corpo como alma humanos, de alguma maneira assumidos ou possuídos por Deus Filho.

Na mente de seus oponentes alexandrinos, o problema com a visão antioquena é que parecia implicar a existência de duas pessoas em Cristo. Primeiro, há a pessoa divina, a segunda pessoa da Trindade, que existia antes da concepção miraculosa em Maria. Segundo, há a pessoa humana concebida e dada à luz por Maria. Portanto, parece que há duas pessoas, uma humana e uma divina! Pensem da seguinte maneira: a pessoa humana é constituída de corpo e alma. Logo, se Jesus tinha uma natureza humana completa, incluindo corpo e alma humanos, por que não existiria uma pessoa humana, que passou a existir no instante da sua concepção e que passou a ser habitada por Deus Filho? Mas, nesse caso, não se tem uma encarnação real, tudo o que se tem é apenas um ser humano habitado por Deus. Por isso, o infeliz Nestório foi acusado pelos seus críticos de destruir a unidade da pessoa de Cristo e, portanto, sua visão foi condenada como herética em 431.

Assim, o que devia ser feito? Para resolver a contenda entre Antioquia e Alexandria, convocou-se um concílio ecumênico em Calcedônia no ano de 451. A declaração emitida pelo concílio é um delineamento profundo e criterioso de indicadores para uma doutrina ortodoxa da encarnação. Ela procura afirmar o que é certo nas visões das duas escolas, ao mesmo tempo em que condena onde elas erram. Basicamente, a declaração afirma com Antioquia a diversidade das naturezas de Cristo, mas, com Alexandria, a unidade da sua pessoa: uma pessoa que tem duas naturezas. Deixem-me ler para vocês a declaração do Concílio:

Nós [...] confessamos um só e mesmo Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito em sua divindade e perfeito em sua humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, com alma racional e corpo; consubstancial ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; semelhante a nós em todas as coisas, exceto no pecado; gerado, antes dos séculos pelo Pai segundo a divindade e, nestes últimos dias, por nós e para nossa salvação, nasceu da Virgem Maria, a Mãe de Deus, segundo a humanidade, um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que deve ser reconhecido em duas naturezas inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis; não sendo anulada de modo algum a distinção das naturezas por causa da união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza são preservadas e concorrem para formar uma só Pessoa e uma só Subsistência, não dividida nem separada em duas Pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Verbo, Senhor Jesus Cristo [...]

Assim, de acordo com essa declaração, Cristo é uma pessoa com duas naturezas, uma humana e uma divina. Os erros duplos que devem ser evitados são: dividir a pessoa e confundir as naturezas. As naturezas são distintas e completas, e a pessoa é uma em número.

Notem, porém, que a declaração do Concílio não se aventura a explicar como uma pessoa pode ter duas naturezas, uma humana e uma divina. Isso foi deixado para o debate teológico posterior. Mas o ponto no qual o Concílio insistia é que, para termos uma doutrina bíblica da encarnação, não devemos jamais partir a pessoa de Cristo em duas pessoas nem mesclar as duas naturezas numa natureza só.

Portanto, a pergunta seria: é possível fazer isso? É possível elaborar uma declaração sobre a encarnação que seja coerente e biblicamente fiel? Muitos considerariam essa tarefa impossível. A encarnação é uma doutrina rejeitada como contradição ou aceita como mistério. Discordo. Creio que seja possível elaborar uma declaração coerente e biblicamente fiel sobre a encarnação. É isso o que me proponho a esboçar brevemente para vocês. Vou desenvolvê-la em três passos.

Passo 1: Afirmar em concordância com o Concílio de Calcedônia que Cristo é uma pessoa que tem duas naturezas. Não se deve entender a encarnação como Deus se transformando em ser humano. A encarnação é totalmente diferente dos relatos da mitologia antiga sobre deuses convertendo-se temporariamente em homens ou animais e depois voltando de novo a ser deuses. Cristo não era antes Deus, depois ser humano, depois Deus novamente. Ao contrário, ele era Deus e homem simultaneamente. A encarnação, portanto, não era uma questão de subtração — de Deus abrir mão de certos atributos para tornar-se homem. Antes, a encarnação é uma questão de adição — de Deus assumir, em acréscimo à natureza divina que ele já tinha, outra natureza distinta, uma natureza humana, que teve início no instante da sua concepção no ventre de Maria. Assim, ele tinha todas as propriedades da divindade e todas as propriedades da humanidade.

A pergunta é: como é possível uma pessoa como essa ter duas naturezas? O que me leva ao meu segundo passo.

Passo 2: Afirmar com Apolinário que a alma de Jesus Cristo era Deus Filho. Apolinário viu com razão que a melhor maneira de evitar a falácia nestoriana de haver duas pessoas em Cristo é postular algum constituinte comum partilhado por sua natureza humana e sua natureza divina, de modo que, por assim dizer, essas duas naturezas se sobrepõem. Na proposta de Apolinário, esse constituinte comum era a alma de Jesus Cristo. Infelizmente, parece que ele não levou em consideração que Cristo tivesse uma natureza humana completa, o que, como viram acertadamente seus críticos, minava a humanidade de Cristo e sua obra salvadora.

Mas será que as deficiências da visão de Apolinário são irremediáveis? Penso que não. Lembrem-se o que é a natureza humana: o ser humano é um animal racional. Uma vez que não tem corpo, Deus não tem natureza animal. Mas Deus é a mente racional suprema. Portanto, Deus Filho tinha já, antes da sua encarnação, racionalidade e personalidade. Assim, ao assumir um corpo humano, Deus Filho trouxe precisamente as propriedades que elevariam esse corpo da mera natureza animal à completa natureza humana, composta de corpo e alma racional. A natureza humana de Cristo não poderia nem mesmo existir independente da sua união com Deus Filho; haveria apenas um cadáver ou um zumbi. A humanidade de Cristo passa a existir precisamente mediante a união de Deus Filho com a sua carne. Assim, Cristo tem de fato, no fim das contas, duas naturezas completas: uma natureza divina, que preexistia desde a eternidade; e uma natureza humana, que passou a existir no ventre de Maria em virtude da união de Deus Filho com a carne.

Essa reformulação anula as objeções tradicionais ao apolinarismo. Isso porque, primeiro, segundo essa visão, Cristo tem de fato duas naturezas, divina e humana, incluindo uma alma racional e um corpo. Segundo, como resultado, Cristo é verdadeiramente humano, e por isso a sua morte em nosso lugar é válida. Observem que Cristo não é meramente humano, uma vez que era também divino, mas apesar disso era verdadeiramente humano e, portanto, poderia se levantar como nosso representante diante de Deus, sofrendo o nosso castigo, para que pudéssemos ser libertados.

Até aqui tudo bem! Mas assim mesmo a proposta ainda não é adequada. Pois, se a alma de Cristo era Deus Filho, como podemos entender a imagem bíblica de Jesus como alguém que tem consciência humana autêntica, desenvolvendo-se da infância até a idade adulta? Será que a minha proposta não significa que Jesus era algum tipo de super-homem, insuscetível às limitações humanas? Isso leva ao meu terceiro passo.

Passo 3: Afirmar que os aspectos divinos da personalidade de Jesus eram, na maior parte, subliminares à sua vida terrena. Sugiro que os elementos sobre-humanos da pessoa de Jesus eram principalmente subconscientes. Essa sugestão explora o entendimento da psicologia profunda de que há muito mais na consciência da pessoa do que ela possa estar ciente. A totalidade do projeto da psicanálise fundamenta-se no fato de que parte do nosso comportamento está radicada em fontes profundas das quais temos somente alguma, ou nenhuma, consciência. Imaginem alguém que sofre de transtorno de personalidades múltiplas. Temos aqui um exemplo muito chocante do irrompimento das facetas subliminares da mente de um indivíduo em diferentes personalidades conscientes. Há casos até em que uma personalidade dominante tem consciência de todas as outras e sabe o que cada uma delas sabe, mas permanece desconhecida delas. O hipnotismo também fornece uma demonstração vívida da realidade do subliminar. Como explica Charles Harris, pode-se contar certos fatos à pessoa sob hipnose e depois instruí-la para que os esqueça quando “acordar”, mas escreve Harris: “[...] na sua mente o conhecimento é real, e manifesta-se de maneiras inequívocas, especialmente por fazê-la realizar [...] certas ações que, a não ser pela posse do seu conhecimento, ela não realizaria [...]”. Muitos de vocês já podem ter visto incidentes bastante divertidos desse fenômeno apresentados na televisão, como o de fazer um rapaz hipnotizado pensar que uma árvore é uma moça bonita a quem ele quer propor casamento. Harris prossegue dizendo:

O fato ainda mais extraordinário é a possibilidade de fazer alguém suscetível à hipnose ver e não ver o mesmo objeto no mesmo momento. Por exemplo, pode-se dizer à pessoa para não ver um poste de luz, e assim ela se torna (no sentido comum) totalmente incapaz de vê-lo. Apesar disso, ela ainda o vê de fato, pois o evita e não pode ser induzida a se chocar contra ele.

Semelhantemente, durante a sua encarnação terrena, Deus Filho permitiu que fossem parte da consciência desperta de Jesus apenas aqueles aspectos da sua pessoa compatíveis com a vivência humana típica, ao passo que o grosso do seu conhecimento, como a parte de um iceberg sob a superfície da água, permanecesse submersa em seu subconsciente. Segundo a teoria que proponho, Cristo é, portanto, uma única pessoa, mas nessa pessoa elementos conscientes e subconscientes são diferenciados de maneira teologicamente importante. Ao contrário do nestorianismo, minha proposta não significa que existem duas pessoas, da mesma maneira que os aspectos conscientes e subconscientes da mente de vocês não constituem duas pessoas.

Essa teoria oferece uma explicação satisfatória sobre Jesus, conforme o vemos retratado nos evangelhos. Em sua vivência consciente, Jesus cresceu em conhecimento e sabedoria, exatamente como acontece com a criança humana. Não ocorre a monstruosidade do menino Jesus deitado na manjedoura o tempo todo contemplando o cálculo infinitesimal. Por ter consciência humana típica, Jesus tinha de enfrentar o medo, a fraqueza e a tentação para alinhar a sua vontade com a vontade do seu Pai Celestial. Na sua vivência consciente, Jesus foi genuinamente tentado, mesmo sendo realmente incapaz de pecar. As instigações do pecado foram sentidas de verdade e não poderiam ser meramente dissipadas como a fumaça; resistir à tentação exigia disciplina espiritual e firmeza moral da parte de Jesus. Na sua consciência desperta, Jesus realmente ignorava certos fatos, embora fosse preservado do erro e sempre iluminado sobrenaturalmente pela subconsciência divina. Ainda que Deus Filho possua todo o conhecimento acerca do mundo, da mecânica quântica à mecânica de automóveis, não há razão para pensar que Jesus de Nazaré poderia, sem o recurso da subconsciência divina, responder a questões sobre tais assuntos, em razão do tanto que se rebaixou ao condescender em assumir a condição humana. Ademais, na sua vida consciente, Jesus sentiu toda a gama das ansiedades humanas, além de feridas e fadiga físicas. A minha proposta preserva também a integridade e a sinceridade da vida de oração de Jesus e explica por que ele podia ser aperfeiçoado pelo sofrimento. Ele, assim como nós, precisava ser dependente de Deus momento a momento para viver de modo vitorioso no mundo caído e levar adiante com sucesso a missão que o Pai lhe dera. As agonias do Jardim do Getsêmani não eram mera representação teatral, mas a manifestação da luta genuína do Filho encarnado na sua consciência desperta. Todas as objeções tradicionais contra Deus Filho ser a mente de Cristo se desfazem diante desse entendimento da Encarnação, pois aqui temos um Jesus que não somente é divino, mas também partilha verdadeiramente da condição humana.

Portanto, seria verdadeira a minha teoria da encarnação? Penso que só podemos dizer: Deus é quem sabe! Seria presunção da minha parte afirmar o contrário. Mas aquilo que afirmo de fato é que a teoria tanto é logicamente coerente quanto biblicamente fiel, e por isso é possível que seja verdadeira. E, se é possivelmente verdadeira, isso remove qualquer objeção à encarnação que tenha como base a alegação de que seja contraditório dizer que Jesus Cristo era ao mesmo tempo Deus verdadeiro e homem verdadeiro.

Mas a teoria faz mais do que isso, penso eu. Serve também para provocar o louvor a Deus pelo ato de esvaziar a si mesmo ao condescender em assumir nossa condição humana com todas as suas dores, lutas e limitações por nossa causa e por nossa salvação. O apóstolo Paulo escreveu: “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, tornou-se pobre por vossa causa, para que fôsseis enriquecidos por sua pobreza” (2Co 8.9). É isso o que celebramos no Natal. Nas palavras do grande hinógrafo Charles Wesley:

Vede a Divindade vestida em carne!

Saudai o ser divino encarnado!

Aprouve, como homem habitar entre homens,

a Jesus, nosso Emanuel!

Ouvi! Os arautos angelicais cantam:

“Glórias ao Rei recém-nascido!”.