Se o Deus do Estado Islâmico [EI] fosse Real, eu Seria Obrigado a Segui-lo?

#387

Se o Deus do Estado Islâmico [EI] fosse Real, eu Seria Obrigado a Segui-lo?

Caro Dr. Craig,

Pode ser que você saiba que Frank Turek tem uma pergunta que ele às vezes faz a ateus, "se o cristianismo fosse verdadeiro, você se tornaria um cristão"? Bem, recentemente, um ateu virou a pergunta ao avesso e me perguntou "Se o Estado Islâmico fosse verdadeiro (pelo qual ele quer dizer, se o tipo específico de Alá em que o Estado Islâmico (EI) acredita existisse), então, da mesma forma, você se tornaria um membro do Estado Islâmico?"

Agora, minha reação intuitiva é dizer não. Eu não seguiria um Deus que eu acho tão horrendo ao ponto de tolerar estupro, assassinato em massa e conversão forçada como estamos vendo acontecer agora no Oriente Médio.

Dois problemas surgem, no entanto:

Em primeiro lugar, se eu dissesse isso, o ateu pode simplesmente responder: "Exatamente! E tenho certeza que você está ciente de como eu me sinto também. Mesmo que o seu Deus cristão existisse, eu não o seguiria, porque acho que certas coisas sobre sua moralidade horrendas e censuráveis". Isto parece uma rolha de conversa.

Mas, por outro lado, parece haver um problema ainda maior:

No meu entendimento da Teoria do Comando Divino (TCD), parece que a resposta que eu deveria dar é "sim, sob tais circunstâncias eu deveria tornar-me um membro do EI". Afinal, se a ontologia moral é, em última instância, baseada no caráter de Deus, então se o verdadeiro Deus que existisse, afinal, fosse o Deus do EI, e não o Deus cristão, então eu não teria nenhuma alternativa intelectual diferente do que aguentar o tranco e tratar seu caráter como o paradigma da bondade moral. Estupro etc., realmente seria bom, se o Deus deles existisse, e se o princípio da TCD se aplica.

Isso tem me deixado muito preocupado com a TCD, porque parece ser um princípio insuficiente para fundamentar a moralidade. Parece cometer a falácia de tentar obter um "deveria" de um "é". Ou seja, ele vai de "um Deus particular existe", a "portanto devemos tratar o caráter desse Deus como o paradigma". Este princípio parece ser totalmente inadequado, porque pode ser aplicado independentemente do conteúdo real do caráter de Deus (ou, para parafrasear, pode ser aplicado a qualquer Deus que uma pessoa esteja convencida que existe). Neste caso específico, pode ser aplicado tanto para o Deus cristão quanto para o Deus do EI, e o único fator determinante seria qual desses deuses realmente existe (como Sam Harris disse em seu debate com ele, tudo se resume a "desculpe-me, Buster, você escolheu o Deus errado")!

Ou, pense nisso desta maneira. Considere as cinco seguintes afirmações:

O conteúdo do caráter necessário de Deus é (A)

O conteúdo do caráter necessário de Deus é (B)

O conteúdo do caráter necessário de Deus é (C)

O conteúdo do caráter necessário de Deus é (D)

O conteúdo do caráter necessário de Deus é (E)

Obviamente, essas declarações não podem ser todas verdadeiras (especialmente porque estamos lidando com algo que é o mesmo em todos os mundos possíveis). No máximo, apenas um deles pode ser verdadeira.

No entanto, o problema é que parece não haver base para por que qualquer um deles deverá ser verdadeira sobre as outras.

Sob a TCD, não podemos invocar aquele chifre do dilema de Eutífron que afirma a existência de verdades morais independentes do caráter de Deus. Por exemplo, se o caráter (B) é tal que Deus aceita estupro, assassinatos em massa e conversão forçada, e caráter (D) é tal que Deus é todo-amoroso e proíbe essas coisas, não podemos recorrer a um padrão moral externo para julgar (D) como melhor do que (B), e, por conseguinte, declarar (D) como sendo o existente. Isso porque, além de não haver padrão externo de acordo com TCD, se o (B) fosse verdadeiro, então a simples existência desse Deus em particular o estabeleceria como o próprio padrão, contra o qual todos os outros carateres (pronuncia-se "caratéres"), incluindo o caráter todo-amoroso (D), seria deficiente, ou "não o maior".

Se nós, como cristãos, tentarmos argumentar que a declaração (D) deve ser verdadeira porque o caráter de Deus é "o maior", então parece que estamos raciocinando em um círculo (isto é, Deus (D) existe porque (D) é o melhor caráter , porque Deus (D) existe), ou estamos concedendo um chifre do dilema de Eutífron - que o caráter necessário de Deus é determinado por corresponder a um padrão além do próprio Deus. Mesmo se quisermos apelar para o conceito de Deus como um "ser maximamente grande" para tentar resolver a questão, o próprio caráter de Deus estabelece o paradigma do que "grandeza" moral é (isso é diferente de outras propriedades que estabelecem grandeza, tais como poder, necessidade e conhecimento, pois nesses casos Deus está sendo medido contra como ele se relaciona com outras coisas além de si mesmo: por exemplo, se ele pode ou não fazer 100% das ações possíveis, existir em 100% dos mundos possíveis, e saber 100% das proposições verdadeiras etc).

Então, tudo parece resumir-se a "seja qual Deus exista, o caráter daquele Deus é o paradigma da Bondade".

Note que não é adequado simplesmente dizer que, porque o nosso Deus (o Deus cristão) existe necessariamente, tal situação hipotética não deveria perturbar-nos, já que estamos convencidos da verdade do cristianismo. O desafio que eu estou colocando está no próprio princípio da TCD. Nós ainda podemos executar o experimento de pensamento, e imaginar (assim como pedimos para ateus e muçulmanos imaginarem) "e se fosse mostrado para mim que eu estou errado? E se, epistemologicamente, eu estivesse enganado e escolhi o Deus errado, quais seriam as implicações para o princípio TCD"?

De fato, isso parece ser um caso em que a epistemologia e ontologia moral sobrepõem-se significativamente (geralmente eu vejo apologistas como você tendo muita dificuldade para esclarecer as diferenças entre elas e para mantê-las separadas). Podemos testar o princípio ontológico da TCD perguntando "e se, epistemologicamente, eu estivesse errado sobre qual Deus realmente existe"?

Parece que também precisamos fazer a pergunta, "e se, epistemologicamente, eu estou entendendo mal determinados valores e deveres morais"? Esse teria que ser o caso se o Deus do EI existisse, porque sua ontologia moral suplantará nossa epistemologia moral pessoal - isto é, teríamos que rever a nossa compreensão do bem e do mal para permitir certos casos legítimos de estupro, assassinato em massa, e conversões forçadas.

Para que isso não pareça ser uma situação estranha de imaginar, no entanto, não se esqueça de que nós pedimos a ateus e muçulmanos, etc, para fazerem isso o tempo todo! Frequentemente nós desafiamos o ponto de vista moral que os incrédulos usam para argumentar contra Deus, e sugerimos que talvez eles estejam enganados em sua epistemologia moral. Na verdade, o próprio cristianismo faz isso. Ele diz que os seres humanos, apesar de terem sido feitos à imagem de Deus e com a sua lei escrita em nossos corações, estão danificados e falhos em seus valores e moralidade, e que precisam transformar isto ao longo do curso santificador de suas vidas para ser mais como Cristo (ou seja, no final das contas, a ontologia moral de Deus deve ter autoridade sobre a nossa epistemologia moral - não podemos cravar nossos calcanhares no chão e insistir que o dele está errado, se ele realmente existe e é o paradigma). Será que a nossa apreensão epistêmica moral tem algum papel a desempenhar aqui que não seja a defesa especial ou circular?

Assim, com todas estas preocupações sobre os meus ombros, imagine a minha preocupação sobre o que dizer a este ateu! Se eu dissesse "sim, se o Deus do EI existisse, ele seria a própria Bondade, e eu teria que segui-lo", você pode imaginar como ele iria responder: "Viu! Olha que escravos vocês teístas são! Vocês seguiriam cegamente a Deus porque ele é Deus"! Citando Sam Harris, novamente, do seu debate, o ateu provavelmente afirmaria "Eu, por outro lado, posso ficar atrás desse Deus, e condená-lo".

Se TCD realmente é uma teoria sólida, então eu devo estar enganado com alguma coisa ou não entendê-la.

E tudo isso a partir de uma pergunta tão simples!

Muito obrigado,

Anon.

Reino Unido

United Kingdom

Anônimo, não posso deixar de observar que você parece estar emocionalmente entranhado nesta objeção. Acho que a primeira coisa que precisa ser feita, então, é tentar separar suas emoções das questões filosóficas que estão em jogo aqui. Então, você será capaz de pensar de forma mais clara sobre os argumentos.

Parece-me que além da torção psicológica que o opositor ateu coloca no argumento, não há nada de essencialmente novo aqui que já não tenha sido abordado pelos teóricos do comando divino, inclusive por mim. Por "torção psicológica", quero dizer enquadrar a questão em termos de sua reação pessoal à situação. Como já referi em resposta a outras perguntas psicológicas assim (por exemplo, "Se os ossos de Jesus fossem encontrados, você abandonaria a fé cristã?"), perguntas desse tipo só tem interesse autobiográfico. Não tem significado filosófico o que eu faria ou acreditaria em certas condições. O que é filosoficamente relevante é o que eu deveria fazer em tais condições. Enquadrando a pergunta de forma psicológica, o opositor coloca o crente em uma condição psicológica tortuosa que distrai das questões reais.

Esta forma psicológica de enquadrar a pergunta é, portanto, nada mais do que um artifício retórico. Este ardil torna-se especialmente evidente em um caso como o seu, onde o crente é perguntado o que ele faria em uma situação logicamente impossível, uma espécie de mundo-Alice-no-país-das-maravilhas, que não poderia ser real.

Nas mãos de Turek, a pergunta também é puramente psicológica. Não é um argumento filosófico para qualquer coisa. É uma tática evangelística para medir a abertura do seu interlocutor. Se sentimos que o incrédulo está meramente vomitando sinais de fumaça, não perguntas ou objeções sinceras, pode ser útil às vezes simplesmente interromper a conversa e perguntar: "Se você fosse convencido de que o cristianismo é verdadeiro, você então estaria disposto a tornar-seum cristão?"A resposta dele não será de nenhuma importância filosófica ou apologética, mas pode ser de grande importância evangelística, ou seja, pode sugerir que você está lidando com uma pessoa de mente completamente fechada que não estaria aberta a Deus mesmo se soubesse de fato que Deus existe. Com uma pessoa assim, o evangelista pode reavaliar se argumentos apologéticos são realmente a melhor estratégia para ganhar esta pessoa; talvez o evangelismo pela amizade seria mais eficaz para abrir seu coração.

Assim, na avaliação das questões filosóficas em jogo aqui, vamos retirar a objeção da torção psicológica que o opositor colocou sobre ela. Parece-me que, quando fazemos isso, a pergunta é familiar: "Se Deus fosse comandar __________ (onde o espaço é para ser preenchido com o nome de alguma atrocidade moral), seríamos obrigados a fazer ___________?" No seu exemplo, podemos preencher o espaço em branco com "estupro, assassinato em massa e conversão forçada."

Para responder a essa pergunta, precisamos ter em mente que existem dois tipos de teoria do comando divino: a teoria voluntarista e a não voluntarista. Em teorias voluntaristas os comandos de Deus são baseados apenas no Seu livre arbítrio. Ele escolhe arbitrariamente os valores que são bons ou maus e quais são nossas obrigações e proibições. Parece-me que o voluntarista não tem escolha além de morder a bala, como você diz, e afirmar que se Deus tivesse escolhido assim, então seríamos obrigados a nos envolver em estupro, assassinato em massa e conversão forçada.

Agora, a parte de uma de uma reação emocional a esta alegação (uma reação que o voluntarista vai dizer que é inteiramente apropriada, uma vez que Deus, de fato, decidiu que essas coisas sejam más e, portanto, moralmente repugnantes), existe um problema filosófico para o voluntarista aqui? Bem, parece-me que a objeção é melhor enquadrada ao dizer que temos intuições modais que certos valores e deveres morais são amplamente logicamente necessários e por isso não poderiam ser meramente contingentemente válidos, como o voluntarismo parece implicar. Existem contra-respostas que o voluntarista pode dar aqui, mas não vamos prosseguir nesta trilha de coelho, já que eu não sei de um único teórico do comando divino hoje que seja um voluntarista.

A maioria dos teóricos do comando divino são não-voluntaristas que mantêm que os valores morais não são baseados na vontade de Deus, mas em Sua natureza. Os deveres morais são baseados em Sua vontade ou comandos; mas valores morais são anteriores a sua vontade, já que a própria natureza de Deus não é algo inventado por Deus. Como a Sua vontade não é independente de Sua natureza, mas deve expressar Sua natureza, é logicamente impossível para Ele emitir determinados tipos de comandos. Para fazer isso, Ele teria de ter uma natureza diferente, o qual é logicamente impossível.

Neste caso, Anônimo, a sua resposta à pergunta do ateu não deve ser a resposta que o voluntarista deve dar. Em vez disso, você deveria dizer: "Isso é logicamente impossível. Isso é como perguntar: 'Se houvesse um círculo quadrado, a sua área seria o quadrado de um dos seus lados?' A pergunta não tem resposta porque o que ela vislumbra é uma impossibilidade lógica".

Uma afirmação subjuntiva condicional (ou contrafactual) com uma cláusula antecedente logicamente impossível tem, na semântica comum para tais condicionais, apenas um valor de verdade vazio. As duas seguintes afirmações acabam sendo vacuosamente verdadeiras:

1. Se Deus fosse comandar estupro, assassinato em massa e conversão forçada, então seríamos obrigados a cometer tais atos.

2. Se Deus fosse comandar estupro, assassinato em massa e conversão forçada, então não seríamos obrigados a cometer tais atos.

Você pode se perguntar como as duas poderiam ser verdadeiras, mas esta é a questão de dizer que elas são vacuosamente verdadeiras: o valor de verdade aqui não tem significado.

Então, na semântica comum, a pergunta de seu amigo simplesmente não tem uma resposta significativa, mais do que a pergunta sobre como calcular a área de um círculo quadrado.

Agora eu pessoalmente acho que alguns contrafactuais com antecedentes impossíveis têm valor de verdade significativos. Por exemplo, eu acho que a seguinte afirmação é não-vacuosamente verdadeira:

3. Se Deus não existisse, o universo não existiria.

Da mesma forma, eu acho que não é vacuosamente verdadeiro que

4. Se Deus não existisse, valores e deveres morais objetivos não existiriam.

Mas isso não me compromete à verdade não-vacuosa de um contrafactual como

5. Se Deus tivesse uma natureza diferente [ou se existisse um Deus diferente], então os Seus mandamentos constituiriam meus deveres morais.

Esse Deus é como o círculo quadrado, de modo que qualquer inferência significativa é impossível.

Finalmente, mesmo que o não-voluntarista fosse admitir a verdade de um contrafactual como (5), eu acho que ele poderia simplesmente dar de ombros com o comentário "E daí? É apenas um absurdo lógico". É como se alguém perguntasse a Platão: "E se o conteúdo do Bem fosse alterado? Seria, então, bom estuprar, etc.?"A pergunta é absurda.

Então, eu não acho que haja algum problema aqui para o não-voluntarista.

Mas então, Anônimo, você começa a deixar as águas turvas ao trazer considerações epistemológicas, a quais não são relevantes para a verdade ou coerência da Teoria do Comando Divino. Você pergunta: "E se, epistemologicamente, eu estiver enganado e escolhi o Deus errado, quais seriam as implicações para o princípio TCD?" É logicamente impossível que haja qualquer outro Deus. Então, se você estava enganado e acreditou no Deus errado, você seria um muçulmano, hindu ou um politeísta ou o que você quiser; mas não haveria outro Deus. Lembre-se: de acordo com a teologia do ser perfeito, Deus é um ser maximamente grande, um ser que é digno de adoração. Seres inferiores não são "deuses". Na verdade, nos meus debates com teólogos muçulmanos, este é um dos argumentos que eu uso contra a concepção islâmica de Deus: que Alá (Allah) não pode ser o maior ser concebível porque ele não é todo-amoroso e, portanto, não pode ser Deus.

Assim, não faz parte da ética do comando divino afirmar que "qualquer Deus que exista, o caráter desse Deus é o paradigma da bondade." (Eu aposto que você não poderia encontrar tal afirmação no trabalho de qualquer teórico do comando divino. ) Só há um maior ser concebível com a natureza que Ele tem, e simplesmente não há coisas como estes "Deuses" com naturezas diferentes. Talvez essa seja a fonte do seu mal-entendido: nenhum teórico do comando divino acredita no que você chama de princípio da TCD.

Assim, enquanto a resposta "Você tem o Deus errado " é uma boa frase de efeito, deve ser devidamente compreendida. A ideia é que os valores morais são baseados em Deus, mas se o seu conceito de Deus é inadequado, então a sua ética vai ser confusa. O problema está em um conceito defeituoso de Deus.

Eu acho que você está caindo na armadilha da confusão muito familiar da ordem do saber (ordo cognoscendi) e a ordem do ser (ordo essendi). Na ordem do saber, nosso conhecimento de que certas coisas são boas ou ruins, certas ou erradas é tipicamente anterior ao nosso conhecimento de Deus. Mas, na ordem do ser, Deus é anterior ao que é bom ou mau, certo ou errado. Então, quando nós reconhecemos que o conceito islâmico de Deus é defeituoso, este reconhecimento é baseado em nosso conhecimento moral anterior. Nós temos uma boa ideia do que é moralmente grandioso independentemente de nosso conhecimento de Deus. Isso não é problemático, desde que se esteja falando sobre a ordem do saber em vez de a ordem do ser. Deus sendo anterior à ordem do ser não faz dele anterior à ordem do saber.

Então, o que você deveria dizer para o ateu que pergunta: "Se o Deus do Estado Islâmico [ISIS] existisse, você se envolveria em estupro, assassinato e conversões forçadas?" Nem "sim" nem "não"! Você deveria dizer: "Essa pergunta (além de ser uma irrelevância psicológica) não tem uma resposta significativa, mais do que a pergunta: 'Se houvesse um círculo quadrado, a sua área seria o quadrado de um dos seus lados?', porque ambas postulam absurdos lógicos."Este é um pseudodilema em que você não deve ser pego. Diga a ele que você baseia sua moralidade no caráter do maior ser concebível — o que poderia ser melhor?

William Lane Craig