O Antirrealista Teísta está em uma Situação Difícil?

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O Antirrealista Teísta está em uma Situação Difícil?

Em primeiro lugar, mesmo sendo um ateu, eu aprendi muito com você lendo suas respostas nas Perguntas & Respostas e assistindo aos seus debates. Mesmo que às vezes você faça meu sangue ferver com os seus pontos de vista, existem vários pontos de consenso. Um deles é a sua posição nominalista (ou antirrealista) sobre objetos abstratos, o que você discutiu recentemente (Pergunta # 325). A minha pergunta, no entanto, diz respeito às implicações da sua visão nominalista, que acho que deixa uma pessoa em uma posição desconfortável a respeito de sua ontologia da beleza e, possivelmente, sua ontologia moral.

Ao refutar o cientificismo, você diz que existem verdades além do domínio da ciência e inclusas nestas estão as verdades estéticas. Esta crença parece ter implicações platônicas. Na verdade, você mesmo implica isso em seu primeiro debate com Peter Atkins quando você respondeu ao seu cientificismo, dizendo: "[...] 'o belo' assim como 'o bem' não pode ser cientificamente provado". Com esta declaração, você explicitamente faz um compromisso ontológico para a existência da beleza como algo que existe fora da nossa percepção. Eu não consigo ver como a sua visão sobre a beleza é outra coisa senão um conceito platônico.

Agora você deve começar a ver a questão. Como você pode conciliar seu nominalismo com sua visão platônica da beleza? Você não pode ser um nominalista para algumas propriedades e depois ser um realista quando se trata de propriedades que você quer que existam objetivamente. Isso é apenas escolha aleatória. Qualquer derrotador (defeater) que você tenha para acreditar na existência de propriedades ou números se aplica também à existência do objeto abstrato da beleza. Além disso, como você pode tomar uma posição platônica sobre a beleza quando uma de suas motivações para assumir a posição nominalista é a sua crença de que o platonismo é inconciliável com o teísmo clássico? A beleza é um aspecto de Deus? Como pode ser isso, se Ele é imaterial?

A contradição entre o nominalismo e uma visão platônica de beleza está conectada à sua ontologia moral. Você deixou a sua opinião sobre a fundamentação dos valores morais bastante clara: o caráter de Deus é o "bom". O problema é que se você é um antirrealista e nega que as verdades estéticas são objetivas, então torna-se muito mais plausível que afirmações morais não sejam objetivamente verdadeiras. A intuição que me diz que um homem que tem olhos tortos, nariz torto, e cujo rosto é cheio de acne é um homem objetivamente feio é tão forte quanto a minha intuição que diz que roubar por diversão é objetivamente errado. Não há nenhuma razão para limitar o seu antirrealismo de estender às verdades morais. Isso, como você provavelmente percebe, mina a segunda premissa do seu "Argumento dos Valores Morais Objetivos": existem valores morais objetivos.

Por conseguinte, parece que você está em uma situação difícil. Se você rejeitar a objetividade das declarações estéticas, você imediatamente mina crenças sobre a objetividade das afirmações morais. Se você afirmar a objetividade estética, você é imediatamente levado a platonismo que você tem escrito que é inconciliável com o teísmo clássico. Você vê um caminho para sair desta situação?

Eu realmente valorizaria uma resposta. Espero conhecê-lo um dia e discutir questões que ambos achamos cativantes.

Victor

Estados Unidos

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Eu acho que a situação percebida surge, Victor, ao confundir dois sentidos diferentes em que a palavra "realismo" é usado em discussões contemporâneas. A palavra "realismo" como usada por alguns filósofos, por exemplo, Michael Dummett, é um tipo de realismo de valor de verdade (ou alética). Ele mantém simplesmente que as declarações de um certo tipo de discurso (por exemplo, discurso matemático ou discurso moral) têm valores objetivos de verdade, ou seja, são objetivamente verdadeiras ou falsas. Isso é muito diferente do que poderíamos chamar de realismo ontológico, que afirma que existem objetos de um certo tipo, por exemplo, números ou propriedades. Os antirrealistas ontológicos não precisam ser antirrealistas aléticos. Isto quer dizer que pode-se negar, por exemplo, que existam objetos matemáticos e ainda acreditar que declarações matemáticas são objetivamente verdadeiras ou falsas. Na verdade, eu arriscaria dizer que a maioria dos antirrealistas ontológicos são realistas aléticos.

A minha própria visão seria que as declarações que pertencem ao discurso moral, estético e matemático são objetivamente verdadeiras ou falsas, embora não haja objetos abstratos como números e propriedades morais ou estéticas. Assim, por exemplo, se é verdade que "1 + 1 = 2" mesmo que não haja nenhuma entidade abstrata denotada por "1 + 1"; e é verdade que "O rosto de Jan (minha esposa) é lindo", mesmo que não haja nenhum objeto abstrato lá fora que seja a propriedade lindo (na verdade, eu não incluiria nem mesmo o rosto de Jan no meu inventário ontológico; Jan certamente existe, mas além dela existe um outro objeto denotado por "seu rosto"?), é verdade que "As ações de ISIS [Estado Islâmico] são cruéis" mesmo que não haja nenhum objeto abstrato crueldade. Você simplesmente não precisa dessas entidades abstratas estranhas, causalmente inativas em sua ontologia a fim de ser um realista sobre o valor de verdade de tais declarações.

Agora você insinua um argumento que o realismo alético implica um realismo ontológico. Você diz, "dizendo: '[...] 'o belo' assim como 'o bem' não pode ser cientificamente provado'. Com esta declaração, você explicitamente faz um compromisso ontológico para a existência de beleza como algo que existe fora da nossa percepção."Ahá! O que você fez é pressupor uma certa visão sobre a forma como fazemos compromissos ontológicos. Você supõe que declarações que contêm os chamados termos singulares (termos que são usados para se referir a pessoas físicas) como nomes próprios, descrições definidas, e demonstrativos como "esse" e "aquele" não podem ser verdade a menos que haja objetos no mundo que sirvam como os dados ou referentes desses termos.

Eu discordo totalmente! Parece ser um fato da linguagem comum que nós frequentemente fazemos afirmações verdadeiras que contêm termos singulares que não denotam objetos existentes.

Considere os seguintes exemplos:

· O clima em Atlanta vai ser quente hoje.

· O desapontamento de Sherrie com seu marido foi profundo e indiscutível.

· O preço dos bilhetes é de dez dólares.

· Quarta-feira cai entre terça-feira e quinta-feira.

· Sua sinceridade foi comovente.

· James não podia pagar sua hipoteca.

· A vista do vale de Jezreel do topo do Monte Carmelo foi de tirar o fôlego.

· Sua queixa constante é fútil.

Seria fantástico pensar que todos os termos singulares que existem nestas frases têm objetos no mundo que lhes correspondam. Eu acho que você concorda comigo aqui. Mas, dado o seu critério de compromisso ontológico, então você será obrigado a dizer que todas essas frases são falsas, o que parece igualmente absurdo.

O que se quer aqui, Victor, é uma teoria de referência que nos permita dizer que nos referimos com sucesso mesmo nos casos em que não há nenhum objeto do mundo real que seja a denotação dos termos que utilizamos. No meu trabalho publicado em Deus e objetos abstratos tenho defendido tal teoria de referência, que foi formulada pelo filósofo sueco Arvid Bave. Este não é o lugar para entrar em tal teoria; mas você pode consultar a minha contribuição para Beyond the Control of God? Six Views on the Problem of God and Abstract Objects, ed. Paul Gould (Londres: Bloomsbury, 2014).

Então, como posso conciliar meu antirrealismo ontológicocom o meu realismo alético sobre discurso moral e estético? Certamente não por escolha aleatória de algumas propriedades como reais e outras não! Antes, eu faço-o negando o critério pressuposto de compromisso ontológico que nos prende a tal ontologia inflacionária.

Assim, não há situaçãodifícil para encontrar uma maneira de sair.

William Lane Craig