O Espírito Santo Existe?

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O Espírito Santo Existe?

Deixe-me em primeiro lugar agradecer-lhe muito por todo o seu trabalho nos fundamentos filosóficos para o cristianismo. Seu trabalho ajudou-me imensamente na minha própria jornada intelectual com o nosso Pai celestial.

A minha pergunta é sobre o Espírito Santo. Eu entendo as evidências e os argumentos para Deus o pai (argumento moral, Kalam, etc.), assim como Jesus Cristo (historicidade), mas e o Espírito Santo?

Talvez eu não tenha procurado o suficiente, mas eu não tenho sido capaz de encontrar nenhum apoio para a existência ou obra do Espírito Santo. O Espírito Santo tem um papel tão proeminente na teologia e na cosmovisão cristã - mas como pode alguém acreditar nisso exceto por uma fé cega? Acho isso especialmente preocupante quando afirmações como "Os pais da igreja primitiva foram guiados pelo Espírito Santo". Parece simplesmente impossível verificar ou disputar, levando a uma zona cinzenta em que os cristãos não estão mais convencidos pelas evidências, mas acreditando cegamente.

Quais são seus pensamentos?

Josh

Estados Unidos

United States

Parece-me, Josh, que você está falhando em diferenciar corretamente entre teologia natural e teologia revelada. A teologia natural é o que a fé propõe e a razão recupera. Ou seja, a teologia natural lida com àquelas verdades que Deus revela para nós, mas que também são demonstráveis pela razão humana à parte da revelação divina. A teologia natural preocupa-se com argumentos para a existência e natureza de Deus. A teologia revelada é a que a fé propõe, mas a razão não recupera. Ou seja, a teologia revelada lida com àquelas verdades que Deus nos revela, mas que a razão humana não pode provar. A doutrina da Trindade seria um exemplo primordial de tal verdade revelada.

A pessoa do Espírito Santo (que, por sinal, não é um "isso"!) é propriamente parte do objeto da teologia revelada, não da natural. Pois ele é a terceira pessoa da Santíssima Trindade, e precisamos da revelação divina para saber que Deus é trino. A teologia natural nos dá a existência de Deus, mas não, propriamente falando, a Deus o Pai. Ela produz um monoteísmo genérico que não faz distinção entre as pessoas da Trindade. Da mesma forma, a história só nos diz que Jesus de Nazaré existiu, mas não revela para nós as suas relações intratrinitarianas.

O fato de que a existência e a obra do Espírito Santo pertencem à teologia revelada, e não natural, não implica que a nossa crença nele é um ato de "fé cega." Ao contrário, como Tomás de Aquino considerou, essas verdades reveladas são entendidas por certos "sinais de credibilidade" que atestam o status da revelação. Tomás estava pensando em sinais como os milagres de Jesus e profecia cumprida. Eu acho que a ressurreição de Jesus dentre os mortos serve como tal sinal de credibilidade. Como eu tentei mostrar, o Jesus histórico fez afirmações pessoais radicais de ser o tão esperado Messias judeu, o único Filho de Deus e o Filho do homem profetizado, e sua ressurreição dentre os mortos, a qual é a melhor explicação para o fatos sobre o destino de Jesus, é plausivelmente interpretado como a vindicação de Deus dessas afirmações pessoais radicais pelas quais ele foi crucificado como um blasfemador.

Se Jesus era, como ele dizia ser, a revelação de Deus o Pai para a humanidade, então o que ele ensina é verdadeiro, e nós, como seus discípulos, devemos acreditar no que ele ensina. Jesus ensinou claramente a existência e obra do Espírito Santo, que viria em seu lugar para continuar o ministério que ele tinha começado. Jesus disse:

Tenho-vos dito isso, estando convosco. Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho ditto [...]Todavia, digo-vos a verdade: que vos convém que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei. E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça, e do juízo: do pecado, porque não creem em mim; da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; e do juízo, porque o príncipe deste mundo está julgado. (João 14:25-26; 16:7-11).

Se acreditamos o que Jesus ensinou, então devemos acreditar no Espírito Santo. Esta não é uma fé cega, pois é ratificada por Jesus, cujo ensinamento temos boas razões para acreditar ser verdadeiro.

É claro, saber se alguém que afirma ser guiado pelo Espírito Santo verdadeiramente é de fato guiado é outra história! Os próprios autores do Novo Testamento encorajam os cristãos a exercitar discernimento crítico com relação a tais afirmações (1 Coríntios 14:29; 1 João 4:1). Como é difícil dizer, eu acho que uma boa dose de humildade está em ordem sobre tais perguntas. Conquanto que um irmão está vivendo e acreditando biblicamente, quem sou eu para dizer que o Espírito Santo não está o guiando?

William Lane Craig