Antirrealismo e Verdade

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Antirrealismo e Verdade

Caro Dr. Craig,

Eu estava ouvindo um de seus podcasts mais antigos em que você disse que pode-se afirmar o estado de coisas sem precisar afirmar o status de verdade da proposição usada na afirmação do algum estado.

No entanto, se negarmos a realidade do status de verdade (num esforço de evitar fazer proposições ou "verdade" uma coisa real existente), então como alguém pode dizer que qualquer proposição é autorrefutável?

Por exemplo, se eu digo que, "Não existem afirmações verdadeiras". Como você poderia apontar a natureza autorrefutável da proposição sem abordar o status própria de verdade da afirmação proposicional?

Eu acho que eu estou tendo dificuldade em compreender o seu desejo de evitar conversas de "verdade" semântica, e parece simplesmente ser uma maneira de sustentar seu nominalismo. Enquanto eu acho que é perfeitamente razoável adotar formas de ver as coisas que são consistentes com nossas crenças (e todos nós obviamente fazemos isso), parece que o seu desejo de manter o nominalismo requer que você entregue demais, especialmente como um cristão que deve afirmar noções bíblicas como "verdade", as quais afirmou o próprio Jesus.

Para ficar claro: eu acho que seus critérios para a existência são atraentes, já que eles evitam uma regressão infinita que assola uma visão de existência de posse de propriedades. No entanto, enquanto ela tem essa vantagem, eu continuo achando que uma visão conceitualista de abstrações é extremamente intuitiva, então eu ainda estou procurando por um critério para a existência que pode manter abstrações, ao mesmo tempo evitando uma regressão infinita.

Obrigado pelo seu trabalho e tudo que você faz para promover a causa de Cristo.

Bênçãos,

Frank

Estados Unidos

United States

Calma aí, Frank! Eu acho que você me entendeu mal. Por favor, dê uma olhada no meu artigo "Propositional Truth: Who Needs It?” [Verdade Proposicional: Quem Precisa dela?] Philosophia Christi 15 (2013): 355-64 para uma exposição mais completa da minha visão.

Você tem toda a razão em pensar que o meu antirrealismo sobre objetos abstratos, incluindo proposições, é teologicamente motivado. Como um filósofo cristão, eu sigo os “Advice to Christian Philosophers” [Conselhos para os Filósofos Cristãos] de Alvin Plantinga para pensar integrativamente sobre as questões filosóficas que enfrentamos. Deveríamos olhar para o mundo a partir da perspectiva do que sabemos sobre Deus e o que Ele nos revelou. Por isso, eu acho que as objeções teológicas para qualquer visão são tão importantes, e, por vezes mais importantes, do que objeções filosóficas para aquela visão.

Então, se eu achasse que os ensinamentos de Jesus sobre a verdade nos comprometessem com a realidade de proposições ou propriedades, eu levaria isso muito a sério, de fato. Mas quando Jesus disse, por exemplo, "Eu sou a verdade", ele não estava falando filosoficamente, mas metaforicamente. Ele, obviamente, não achava que ele era uma propriedade proposicional ou valor de verdade!

As doutrinas judaico-cristãs da asseidade divina e creatio exnihilo, por outro lado, exigem que afirmemos que Deus é a única realidade suprema [última], que não há coisas não-criadas existindo fora do próprio Deus. Isso exclui o platonismo no que diz respeito à existência de coisas como proposições, propriedades, números, mundos possíveis e assim por diante.

No artigo mencionado anteriormente, eu explico que o antirrealismo sobre tais entidades não se opõe a nossa conversa como se tais coisas existissem. O filósofo Rudolph Carnap fez uma distinção útil entre as reivindicações feitas dentro de uma estrutura lingüística e reivindicações feitas fora desse quadro. Suponhamos, por exemplo, que eu escolha adotar a estrutura lingüística de fala de propriedades. Alegações feitas dentro dessa estrutura como "O cão tem a propriedade de ser marrom" ou "John tem a propriedade de frequentar a Universidade de Notre Dame" são inquestionáveis. Essa conversa de propriedade é uma grande conveniência e pode evitar circunlóquios incômodos que possam ser necessários para evitá-las. Mas não precisa ser considerada como ontologicamente comprometedora com a realidade das propriedades.

Referente à pergunta de se as propriedades realmente existem, é uma pergunta externa, colocada fora da estrutura. Falando externamente, o antirrealista vai dizer que propriedades não existem e que, por isso, o cão não tem a propriedade de ser marrom, mesmo que o cão seja marrom, nem John tem a propriedade de frequentar a Universidade de Notre Dame, mesmo que ele frequente a Universidade de Notre Dame. Conversa de propriedade é apenas um façon de parler (maneira de falar) útil.

Da mesma forma, podemos adotar a estrutura lingüística de conversa de proposições. Interno a tal estrutura, não é problemático falar sobre o fato de que várias proposições sejam verdadeiras ou falsas. Alguém que afirma neste quadro a proposição que “Não existem proposições verdadeiras” está fazendo uma declaração autodestrutiva porque ele considera que essa proposição é verdadeira. Considero isso suficiente para a natureza autorrefutável da alegação que você menciona. Tal pessoa adotou a estrutura lingüística de conversa de proposições e, em seguida, fez uma afirmação autorreferencialmente incoerente.

Mas para alguém que está fora da estrutura, ele pode se perguntar se os objetos abstratos como as proposições realmente existem. O antirrealista vai dizer que não existem as proposições. Portanto, não existem proposições verdadeiras (ou falsas). Feita fora estrutura, tal afirmação é perfeitamente coerente. Quando eu digo fora da estrutura que "Não existem proposições verdadeiras", eu não estou fazendo a afirmação autodestrutiva de que a proposição "Não existem proposições verdadeiras" é verdadeira. Do meu ponto de vantagem fora da estrutura, em vez de afirmar que p é verdadeira, eu só desço semanticamente e afirmo que p.

Por exemplo, ao invés de fazer a afirmação interna que "É verdadeiro que Sherrie ama chocolate," podemos descer semanticamente e simplesmente dizer: "Sherrie ama chocolate". Quando dizemos isso, falamos a verdade apenas no caso de Sherrie amar chocolate, mas falamos falsamente se ela não. Então ainda podemos falar verdadeiramente ou falsamente, independentemente da existência de proposições abstratas. Alguém afora da estrutura que diz: "Não há proposições" diz a verdade porque não existem proposições. Isso não implica algum tipo de esquisitão antiobjetivismo ou relativismo pós-moderno.

Quando dizemos "É verdade que Sherrie ama chocolate," nós têm ascendido semanticamente, de modo que já não estamos falando de Sherrie, mas de uma proposição. Por que um dispositivo de ascensão semântica é útil ou necessário em linguagem natural? A resposta é que o predicado de verdade serve o propósito de atribuições de verdade cega. Em muitos casos nos encontramos incapazes de afirmar a proposição ou proposições ditas como verdade porque há muitos deles, como em "Tudo o que ele disse era verdadeiro", ou porque somos ignorantes das proposições relevantes, como em "Tudo afirmado nos documentos classificados é verdadeiro."Precisamos de um dispositivo de ascensão semântica para fazer tais atribuições de verdade cega. Assim, longe de tentar "evitar conversa de verdade semântica", eu acho que essa conversa é indispensável para o discurso humano. Quando não podemos fazer as afirmações relevantes, precisamos de um dispositivo de ascensão semântica a fim de dizer o que queremos.

Finalmente, Frank, eu não sou contra a sua própria solução de conceitualismo divino. Talvez o antiplatonista pode evitar os objetos abstratos substituindo os pensamentos de Deus pelas proposições como portadores de valor de verdade. O que não posso aceitar é que existem objetos abstratos não-criados independentes de Deus.

William Lane Craig