Carta de um Pai Enlutado

#399

Carta de um Pai Enlutado

Caro, Dr. Craig,

Minha filha morreu há pouco mais de um mês atrás. Ela teria completado três anos no dia 18 de janeiro eu a amava mais do que tudo. Ela nasceu com uma doença neurológica rara. A minha pergunta é [...]como um Deus todo amoroso, que ama seus filhos e que tem tanto "poder" poderia permitir que isso acontecesse. Por que é que tudo o que acontece de bom para um crente confirma a sua fé, e o mau é considerado um teste, ou uma explicação "Deus é misterioso". Se ele é tão grandioso e tão bom, então por que ele levou a minha filha de mim?!

As pessoas mais podres têm filhos, abusam deles, os deixam [..] Mas as melhores pessoas que querem ser bons pais perdem seus filhos em circunstâncias triviais.

Como posso acreditar ainda Dr Craig? É tão fácil dizer "Deus tem um plano" ou "Deus não é obrigado" [...] Por que ele simplesmente não vem e fala com seus fiéis diretamente? Por um lado, a Bíblia diz para não se preocupar com o amanhã, Deus proverá, quando por outro lado meu amanhã era uma criança pequena que sofreu e morreu.

É MUUUUITO fácil para as pessoas religiosas com crianças saudáveis ​​e uma vida de sucesso dizer: "Oh Deus é grandioso [...]" etc. Que coragem eles têm! Quão sortudas elas são! Sim Deus é grande. Para quem? Para você! Que tapa na cara doutor.

Dr Craig eu acredito que você é um homem excepcionalmente inteligente. Um filósofo comprovado e um grande orador, mas eu também acredito que algumas de suas respostas a perguntas, como a minha, são baseadas em um ponto de vista subjetivo. A sua ideia de verdade é baseada em uma deidade incognoscível de acordo com a sua PRÓPRIA opinião do que é real ou não, de acordo com a sua interpretação da Bíblia.

Dr Craig, por favor, ajude-me a acreditar, me desculpe se eu soar agressivo. Estou muito bravo. Ela era tudo para mim, toda essa ideia se tornou uma maldição para mim. Tenho lido bastante coisa escrita por Sam Harris. Dr Craig, meu Deus! Estou muito perto de ser um ateu de mão cheia agora!

Estou em lágrimas o tempo todo. O meu coração está quebrado. Não há nenhum deus para mim. Não há esperança, está tudo escuro no final. Nenhum céu nenhum inferno apenas uma concha vazia do que era. O nome dela era Evelynn e ela era o meu mundo inteiro e, Dr Craig, eu não quero viver me sentindo vazio. Eu quero acreditar, mas minha fé é um buraco negro de "era uma vez". Eu pacientemente aguardo sua resposta.

Obrigado pelo tempo.

Patrick

Estados Unidos

United States

Eu não consigo nem imaginar o que você deve estar passando, Patrick. Na verdade, o meu medo em escolher a sua pergunta esta semana é que por causa da minha falta de uma experiência semelhante a minha resposta possa parecer falta de empatia. Mas a sua queixa é de que "algumas de suas respostas a perguntas, como a minha, são baseadas em um ponto de vista subjetivo", por isso, se eu responder com argumento objetivo, espero que você me perdoe.

Ao lidar com casos de sofrimento aparentemente inútil como o seu, eu acho que é fundamental fazer a distinção entre o problema intelectual do sofrimento e o problema emocional do sofrimento. Isto é especialmente importante nos casos de falecimento. Você certamente está ciente que aqueles que passam pelo processo de luto geralmente experimentam um período de raiva, assim como você tem passado. Você tem um monte de emoções para processar durante este tempo. Sua carta me leva a crer que você está sofrendo com o problema emocional do sofrimento, não o problema intelectual do sofrimento. Pois sua carta não continha praticamente nenhum argumento de qualquer tipo, apenas expressões de emoções cruas. Para lidar com esse problema, é necessário a ajuda de um pastor ou conselheiro, não dum filósofo como eu. O que eu posso fazer é oferecer algumas reflexões sobre o problema intelectual, o que pode deixar a sua mente tranquila para que você possa lidar com o problema emocional da forma certa.

Agora ao lidar com o problema intelectual do sofrimento, é importante que tenhamos em mente quem tem o ônus da prova aqui. O ateu afirma que o sofrimento inútil no mundo faz que a existência de Deus seja improvável. O ateu tem agora de arcar com o ônus da prova. Cabe a ele nos dar um argumento que leva à conclusão "Portanto, Deus (provavelmente) não existe." Muitas vezes os crentes permitem que incrédulos transfiram o ônus da prova sobre os ombros do crente. "Dê-me uma boa explicação de por que Deus permite o sofrimento", o incrédulo irá exigir, em seguida ele se senta para trás e brinca de cético com todas as tentativas de explicação do crente. O ateu acaba não tendo que provar nada. Esta pode ser uma estratégia de debate inteligente por parte do ateu, mas é filosoficamente ilegítima e intelectualmente desonesta. É o incrédulo que afirma que a co-existência de Deus e do sofrimento no mundo é improvável. Portanto, cabe a ele dar-nos o seu argumento e apoiar suas premissas. É o dever do Cristão brincar de cético e questionar se o ateu mostrou que Deus não pode ou não tem uma boa razão para permitir o sofrimento no mundo.

O melhor que o ateu pode fazer é apontar para alguns exemplos específicos de sofrimento para os quais não vemos razão (como a morte prematura de Evelynn) e inferir que, porque não podemos ver a razão, portanto, não há nenhuma razão. Provavelmente, você pode ver quão tênue é tal inferência.

Nos meus livros como Em Guarda e Filosofia e Cosmovisão Cristã, ofereço três respostas à alegação do ateu:

1. Nós não estamos em posição de julgar que é improvável que Deus não tenha boas razões para permitir o sofrimento em questão.

Cada evento que ocorre no mundo dispara uma onda de efeitos ao longo da história, de modo que a razão de Deus haver permitido algo pode não surgir senão séculos mais tarde, talvez até mesmo em outro país. Somente um Deus onisciente pode lidar com as complexidades de dirigir um mundo de pessoas livres em direção aos objetivos que imaginou. Basta pensar nos inúmeros e incalculáveis ​​eventos envolvidos para se chegar a um único evento histórico, como, por exemplo, a vitória dos aliados no dia D! Nós não fazemos a menor ideia do sofrimento que possa estar envolvido a fim de que Deus alcance algum propósito que pretende por meio de livres ações escolhidas humanas. Nem deveríamos esperar poder discernir as razões de Deus para permitir o sofrimento. O fato de grande parte do sofrimento no mundo nos parece ser sentido e desnecessário não deveria nos surpreender, pois tal complexidade simplesmente é avassaladora para nós.

Isso não significa que estamos apelando para um clichê como "Deus é misterioso", mas antes apontando nossas limitações cognitivas inerentes, que não nos possibilitam dizer, quando confrontados com algum exemplo de sofrimento, que Deus provavelmente não tinha uma boa razão para permitir que aquilo acontece. Os próprios incrédulos reconhecem essas limitações em outros contextos. Por exemplo, uma das decisivas objeções ao Consequencialismo (a teoria ética endossada ​​por Sam Harris, que diz que devemos fazer aquilo que traga a maior felicidade para o maior número possível de pessoas) é que não temos ideia do resultado final de nossas ações. Algum bem de curta duração pode realmente levar a um enorme sofrimento, enquanto outras ações que parecem desastrosa a curto prazo podem trazer o bem maior. Não temos a menor ideia.

Uma vez que contemplamos a providência de Deus ao longo de toda a história humana, acredito que você pode ver o quanto é inútil, para observadores finitos e limitados como nós, especular sobre a probabilidade de Deus ter uma boa razão para o sofrimento que observamos. Nós simplesmente não estamos em uma posição para avaliar tais probabilidades com o mínimo de confiança.

2. Em relação ao completo escopo das evidências, a existência de Deus é provável.

Quando o ateu diz que a existência de Deus é improvável, você deveria perguntar imediatamente, "Improvável em relação a quê?" Ao sofrimento que há no mundo? Se essa é toda a informação de fundo (anterior) que você está considerando, então não é de espantar que a existência de Deus pareça improvável em relação a isso! (Muito, embora, como eu acabei de argumentar, as aparências podem ser enganosas!). Mas isso não é a pergunta realmente interessante. A pergunta interessante é se a existência de Deus é provável em relação ao escopo completo das evidências. Estou convencido de que o que quer que seja a improbabilidade que o sofrimento possa lançar sobre a existência de Deus, isso é superado pelos argumentos em favor da existência de Deus.

Nesse sentido você está totalmente injustificado, Patrick, ao dizer: "Sua ideia de verdade é baseada em uma deidade incognoscível de acordo com a sua PRÓPRIA opinião do que é real ou não, de acordo com a sua interpretação da Bíblia". Se você consultasse minha obra, como os dois livros mencionados acima, você vai encontrar argumentos rigorosos a em favor da existência de Deus, os quais tenho defendido em debates públicos com filósofos profissionais. Eu acho que Deus é cognoscível e que existem boas razões para acreditar que Deus é real de forma totalmente independente da Bíblia.

A maioria das pessoas que falam sobre o problema do sofrimento tacitamente supõem, como você parece assumir, que não existem bons argumentos para a existência de Deus. Então, para essas pessoas, a pergunta é se o sofrimento torna o ateísmo provável, dado o fato de que não há nada a considerar do outro lado da balança. Mas eu acho que existem argumentos muito pesados em favor de Deus do outro lado da balança. Portanto, eu poderia realmente admitir que a existência de Deus é improvável em relação ao sofrimento no mundo apenas, mas apontar logo em seguida que isso é simplesmente superado pelos argumentos em favor da existência de Deus.

3. O Cristianismo implica doutrinas que aumentam a probabilidade da coexistência de Deus e do sofrimento.

Se o Deus cristão existe, então não é tão improvável que o sofrimento também deva existir. Que doutrinas são essas? Permita-me mencionar que três são especialmente relevantes para a sua situação:

(1.) O propósito principal da vida não é a felicidade, mas o conhecimento de Deus. Uma das razoes pelas quais o problema do sofrimento parece tão difícil de entender é que as pessoas naturalmente tendem a assumir que, se Deus existe, então o Seu propósito para a vida humana é a felicidade neste mundo. Pensam que o papel de Deus é fornecer um ambiente confortável para seus animais de estimação, os seres humanos. Esta parece ser a hipótese subjacente à sua pergunta: "Como poderia um Deus todo amoroso, que ama seus filhos e que tem grande 'poder' permitiria que isso acontecesse?" Deus deveria fazer-nos felizes, certo?

Na visão cristã, isso é falso. Nós não somos animais de estimação de Deus, e o objetivo da vida humana não é a felicidade por si só, mas sim o conhecimento de Deus - o que, no final, trará verdadeira e duradoura realização humana. Muito do sofrimento na vida pode parecer totalmente sem sentido em relação ao objetivo de produzir a felicidade humana, mas pode não ser sem sentido em relação a trazer um conhecimento mais profundo de Deus. É evidente que se o propósito de Deus é alcançado através do nosso sofrimento é que vai depender da maneira que respondemos ao sofrimento. Respondemos com raiva e amargura para com Deus, ou nos voltamos a Ele com fé, em busca de forças para suportar o sofrimento?

O ponto é que Deus nunca prometeu, nem nos deve, uma vida feliz. Nós seguimos um Salvador crucificado, e nós não devemos nos surpreender se a nossa vida está cheia de dor. Você pergunta: "Por que ele não simplesmente vem e fala com seus fiéis diretamente?" Isso transformaria o universo em uma casa mal assombrada. Toda vez que você sofresse, uma voz mansa diria: "Você está sofrendo isso porque [...]". Além disso, mesmo que Deus fizesse isso, pode não ajudar! As pessoas ainda poderiam ficar com raiva ou agir de uma forma que iria inviabilizar as intenções de Deus. O que Deus tem feito é nos dizer em geral que, quando sofremos, Ele está no controle e vai nos fortalecer, e Ele nos deu boas evidências para confiar nEle. Nós não podemos exigir mais.

(2.) O propósito de Deus não está restrito a esta vida, mas transborda para o além do túmulo, alcançando a vida eterna. Segundo o cristianismo, esta vida no passa de um vestíbulo, estreito e apertado, que leva à grande salão da eternidade de Deus. Deus promete vida eterna a todos os que depositarem sua confiança em Cristo como Salvador e Senhor. Quando Deus nos pede que suportem o sofrimento horrível nesta vida, Ele só faz isso em vista a alegria celestial e a recompensa que estão além de toda compreensão.

O apóstolo Paulo viveu uma vida de incrível sofrimento. No entanto, ele escreveu,

Por isso não desfalecemos; mas ainda que o nosso homem exterior se esteja consumindo, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós cada vez mais abundantemente um eterno peso de glória; não atentando nós nas coisas que se vêem, mas sim nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, enquanto as que se não vêem são eternas. (2 Coríntios 4:16‑18).

Paulo viveu esta vida com os olhos voltados para a eternidade. Ele entendeu que a duração desta vida, sendo finita, é algo literalmente infinitesimal se comparado à vida eterna que passaremos com Deus. Quanto mais tempo passarmos na eternidade, mais os sofrimentos desta vida ficarão menores quando comparados em relação a esse momento infinitesimal. Foi por isso que Paulo chamou os sofrimentos desta vida uma "leve e momentânea tribulação": ele não estava sendo insensível ao sofrimento daqueles que sofrem terrivelmente nesta vida - pelo contrário, pois ele era um deles - mas ele entendia que esses sofrimentos eram simplesmente superados pelo um mar de alegria e glória eterna que Deus dará àqueles que confiam nele.

Evelynn está com Ele agora. Ela espera por você lá. Naquela eternidade de bem-aventurança, o sofrimento que você e ela passaram aqui nesta vida parecerá menos do que um piscar de olhos.

(3.) O conhecimento de Deus é um bem incomensurável. A passagem citada de Paulo também serve para fazer este ponto. Paulo imagina, por assim dizer, uma balança, onde todo sofrimento desta vida fosse colocado de um lado, enquanto do outro lado fosse colocada a glória que Deus concederá a Seus filhos no céu. E o peso da glória é tão grande que não se compara ao sofrimento. Pois conhecer a Deus, o lócus da bondade e amor infinito, é um bem incomparável, a realização da existência humana. Os sofrimentos desta vida não podem ser sequer comparados a isso. Assim, a pessoa que conhece a Deus, não importa quanto ela sofra, não importa quão horrível seja sua dor, ainda pode verdadeiramente dizer: "Deus é bom para mim!", simplesmente em virtude do fato de que ela conhece a Deus, um bem incomensurável.

Essas doutrinas cristãs aumentam a probabilidade da coexistência de Deus e do sofrimento no mundo. Elas, por sua vez, diminuem qualquer improbabilidade que o sofrimento pode parecer lançar sobre a existência de Deus. Assim, o ateísta precisa demonstrar que estas doutrinas são provavelmente falsas ou demonstrar que a existência de Deus é improvável mesmo levando em conta estas doutrinas. Ele tem o ônus da prova em qualquer caso.

Patrick, deixe-me terminar com algumas palavras de aconselhamento pastoral (prepare-se!). Primeiro de tudo, o que você está fazendo lendo Sam Harris durante um momento assim? Você está insano de dor? Por que você está lendo esse lixo destrutivo? Será que esta é uma provável fonte de verdade ou conforto em sua hora de necessidade? Em segundo lugar, você diz que "Não há esperança, está tudo escuro no final. Nenhum céu, nenhum inferno, apenas uma concha vazia do que era". Isso é um resumo muito bom do que o ateísmo tem para lhe oferecer. Então por que, em vez disso, não se voltar para Deus como o único que pode lhe fornecer esperança e conforto? Gostaria de saber se a própria Evelynn perdeu a esperança em Deus e tornou-se uma ateia no final. O que ela gostaria que você fizesse? Se o cristianismo é verdadeiro, ela espera vê-lo no céu, onde não haverá dor nem lágrimas para sempre. Você vai perder esse encontro? Em terceiro lugar, acho curioso que não haja nenhuma menção em sua carta à mãe de Evelynn. É possível que você esteja tão absorto em sua própria dor que tenha se esquecido dela e do que ela deve estar passando? Você vai estar lá por ela para apoiá-la e ajudá-la através deste tempo terrível? Você será um homem de Deus nesta hora e olhar para ver como você pode ministrar aos outros ou você vai abandonar o campo? Que Deus possa fortalecê-lo!

William Lane Craig