Como Deus Sabe de Antemão as Livre Escolhas?

#401

Como Deus Sabe de Antemão as Livre Escolhas?

Saudações,

Tenho escutado e lido muito do seus materiais ao longo do último ano, e tenho aprendido muito – sem mencionar dos podcasts do Defenders. Eu tenho procurado em seu material a resposta a uma pergunta específica, mas não encontrei - e, portanto, lhe escrevo agora.

Estou tentando resolver a questão do livre-arbítrio e presciência de Deus, e eu vim a entender que não há contradição entre Deus sabendo de antemão uma livre escolha, e essa escolha sendo verdadeiramente livre. Presciência não é igual a determinação.

Mas - aqui está a minha pergunta: Como? Como é que Deus sabe de antemão o que eu iria escolher livremente? Eu posso ver como ele poderia prever minhas escolhas se eu fosse determinado a fazer uma escolha específica, com base na minha genética/ educação/situação. Mas, então, a vontade não é livre – é livre?

Se Deus sabe a posição e a velocidade de cada partícula do universo - então ele poderia prever todos os eventos futuros, onde a causa/efeito está dentro da esfera da matéria. Mas a nossa livre escolha não é [livre].

Portanto - em suma: Por que meios Deus pode saber o que eu iria escolher livremente?

Obrigado pelo seu tempo, e pelo seu grande trabalho no Senhor.

Paulus

Noruega

United States

Eu já abordei esta pergunta, Paulus, na parte 3 do meu livro The Only Wise God (rep.ed .: Eugene, Oregon: Wipf&Stock, 2000). Remeto-lhe para a discussão lá.

Sua pergunta pressupõe que Deus existe no tempo, como nós. Mas se Deus existe atemporalmente, Ele não tem presciência literal. Pois o que é futuro para nós não é futuro para Ele. Então, Ele sabe o que é o futuro para nós, mas Ele não sabe de antemão. Os defensores da atemporalidade divina, então, não têm dificuldade com a sua pergunta, já que ela pressupõe uma divindade temporal.

Mas suponha que nós pensamos, como eu, que Deus existe em cada momento e por isso literalmente sabe de antemão o futuro. Como você salienta, com razão, a presciência de escolhas livres não pode ser baseada na inferência de presentes causas, pois isso implicaria o determinismo e aniquilaria o livre arbítrio. Portanto , Deus deve saber as futuras escolhas livres de alguma outra forma.

Para abordar esta pergunta, é útil distinguir dois modelos de cognição divina: um modelo perceptualista e um modelo conceitualista. O modelo perceptualista pensa na cognição de Deus sobre a analogia da percepção sensorial. Este modelo é implicitamente pressuposto quando as pessoas falam, como você, de Deus "prevendo eventos futuros". De alguma maneira, Ele olha para frente no tempo e "vê" o que está lá. A linguagem é metafórica, mas posso pensar em pelo menos duas maneiras de fazer um modelo perceptualista da presciência divina funcionar, embora ambos envolvam compromissos ontológicos que não estou disposto a fazer.

Uma forma seria a adoção de uma teoria aflexiva ou atemporal (tenseless) de tempo, segundo o qual todos os eventos, passado, presente e futuro, são igualmente reais e tornar-se temporal (temporal becoming) é apenas uma ilusão subjetiva da consciência humana. O modelo perceptualista se vê em apuros apenas se o tempo é “temporalizado” (tensed), pois então não há nada no futuro para ver. Mas se todos os eventos no tempo são igualmente existentes, então há algo lá para Deus perceber. Ele pode apenas olhar e ver o que realmente está por vir.

Outra forma seria afirmar que existem objetos abstratos (proposições) que apoiam os valores verdadeiros ou falsos. Em uma visão realista de tais objetos, não há necessidade de Deus olhar para o futuro a fim de saber o que vai acontecer. Em vez disso, Ele pode saber o futuro simplesmente inspecionando proposições temporais no futuro (ou proposições atemporais sobre eventos futuros) que existem no presente e apoiam as propriedades verdadeiras ou falsas. Um Deus onisciente não pode ser ignorante das propriedades que atualmente são inerentes às coisas. Se somos relutantes (como eu sou) em atribuir realidade aos objetos abstratos, como proposições, talvez poderíamos substituir pelas proposições os estados ou pensamentos da própria crença de Deus e os valores de verdade inerente a eles.

Mas não há nenhuma razão para adotar um modelo perceptualista da cognição divina, que é uma forma terrivelmente antropomórfica de pensar na cognição de Deus — Deus certamente não conhece verdades matemáticas ou éticas, por exemplo, com base em qualquer coisa como percepção sensorial. Em vez disso, podemos adotar um modelo conceitualista, o que pensa no conhecimento de Deus mais pela analogia de ideias inatas. Platão pensou que o conhecimento humano é inato e que a educação consiste em simplesmente ajudar-nos a recordar o conhecimento que nós esquecemos. Por mais implausível que tal modelo possa ser para a cognição humana, parece perfeitamente adequado para a cognição divina. Como um ser essencialmente onisciente, Deus tem a propriedade de acreditar somente em verdades, e todas elas. Ele não obteve esse conhecimento de algum lugar; Ele simplesmente o tem inato. Compare outros atributos divinos como a onipotência. Não faz sentido perguntar como Deus é onipotente. Por meio de exercício? Por prática? Não, Deus simplesmente tem a propriedade essencial de ser onipotente. Da mesma maneira que Ele simplesmente tem o atributo essencial de ser onisciente. Mas, então segue que Ele deve saber todas as verdades temporais no futuro, o que lhe dá o conhecimento completo do futuro.

Estou perfeitamente satisfeito com tal modelo conceitualista simples da cognição divina, mas podemos continuar a análise mais um pouco. Pois se Deus tem o que os teólogos chamam de "conhecimento médio," então presciência segue imediatamente como consequência. Por Seu conhecimento médio Deus sabe o que todas pessoas livres que Ele poderia ter criado livremente fariam em qualquer conjunto de circunstâncias em que Deus poderia colocá-las. Então, ao criar determinadas pessoas e colocá-las em certas circunstâncias, Deus sabe exatamente o que elas irão fazer, e isso sem acabar com a sua liberdade de forma alguma. Deus conhece o futuro simplesmente com base no Seu conhecimento médio e Seu conhecimento da Sua escolha de quais as pessoas e circunstâncias criar, sem nenhum tipo de percepção do mundo.

Claro, isso levanta a pergunta da base do conhecimento médio de Deus, e aqui o mesmo tipo de respostas serão repetidas. Por exemplo, se existem essências individuais (por exemplo, as suas propriedades essenciais), então Deus pode simplesmente inspecioná-las para ver que propriedades contrafactuais contingentes são inerentes a elas com respeito a o que as pessoas relevantes fariam em várias circunstâncias, se essas essências fossem ser instanciadas. Estou inclinado a considerar o conhecimento médio de Deus simplesmente como conhecimento inato, que é dEle em virtude de ser um ser onisciente.

William Lane Craig