Panenteísmo

#403

Panenteísmo

Olá Dr. Craig,

Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer obrigado por compartilhar a palavra de Deus com o mundo! Seu trabalho para Cristo é apreciado por muitos crentes e céticos, eu incluído.

Eu tenho algumas perguntas para você que eu espero que você possa responder para ajudar a fortalecer os meus argumentos em favor do cristianismo. Eu tenho uma amiga que é Panenteísta; ela acredita que Deus literalmente é o universo e existe à parte do universo ao mesmo tempo. Ela afirma que Deus é eterno e que não há nenhuma razão para acreditar que o universo começou. Ela também acredita que Deus pode ser tanto material quanto imaterial ao mesmo tempo e usa Cristo como exemplo para este ponto. Finalmente, ela acredita que Deus não é uma causa à parte da natureza, mas, literalmente, é a força da natureza (Gênesis 1 - Elohim "tornando-se" luz e assim por diante, os ensinamentos do judaísmo hassídico, Isaías 6:3, a onisciência de Deus, estando em todos os lugares ao mesmo tempo); portanto, ela também acredita que Deus não profere julgamentos para a humanidade, mas sim nos alerta sobre os resultados inevitáveis ​​devido a ações particulares (por exemplo, Gênesis 4).

Minhas perguntas são:

1) Será que Deus age como uma causa fora da natureza ou atos da natureza são atos de Deus, sem uma causa externa fora da natureza?

2) O universo é eterno? Se o universo é eterno, Deus poderia ser a causa da existência do universo?

3) Será que Deus pode ser o universo e existir à parte do universo ao mesmo tempo?

Obrigado pelo seu tempo. Espero ouvir de você o mais cedo possível.

Jane

Canadá

Canada

O panenteísmo mantém que Deus é uma entidade dipolar feito tanto do mundo físico quanto de um aspecto transcendente de algum tipo. A coisa mais importante a ter em mente ao lidar com um panenteísta é que simplesmente não há boas razões para acreditar que o panenteísmo seja verdadeiro. Você não tem de refutar o panenteísmo da sua amiga, Jane. Sua amiga tem o ônus de dar-lhe alguma razão para pensar que panenteísmo é verdadeiro.

Não é preciso dizer que a justificação para panenteísmo não pode ser a revelação ou ensinamento bíblico. Pois a Bíblia não sabe nada sobre a doutrina de que o mundo é à parte de Deus. Em seu influente trabalho sobre o caráter do antigo monoteísmo judaico, Richard Bauckham identifica duas características que distinguem exclusivamente ao Deus de Israel de todos os outros, isto é, que "ele é o Criador de todas as coisas e é Governante soberano de todas as coisas".1 Assim, o mundo não é uma parte de Deus, mas uma entidade criada dependente de Deus e governada por Deus. Há no judaísmo uma linha divisória clara que separa Deus ontologicamente de tudo o mais, uma bifurcação que Bauckham tenta capturar pelo termo "singularidade transcendente". Ele escreve:

Este Deus de Israel é o único Criador de todas as coisas e Senhor soberano sobre todas as coisas. Entre as muitas outras coisas que os judeus do período tardio do Segundo Templo disseram sobre a singularidade do seu Deus, esses dois aspectos de sua relação única com o resto da realidade foram os mais comumente citados, repetidamente usados para colocar YHWH em uma categoria absolutamente única.2

Bauckham cita numerosos textos judaicos que distinguem Deus de todo o resto da realidade, e a maioria dos eruditos concordaram com a exegese de Bauckham desses textos.

O status de Deus como a única realidade suprema [final] recebe expressão prática na restrição do culto judaico como direcionada apenas para Deus. De acordo com Bauckham, esta restrição "sinalizou mais claramente a distinção entre Deus e o resto da realidade".3 Nenhuma criatura deve ser adorada. A adoração é dirigida somente a Deus, o Criador e Governador de tudo a parte de si mesmo.

Os textos que a sua amiga cita obviamente não contradizem este ensino judaico central. Gênesis 1:1-3 explicitamente ensina que Deus é o Criador da luz, não que ele tornou-se luz. Isaías, de nenhuma forma, imaginou que “o mundo cheio da glória de Deus” (Is 6:3) contradissesse a afirmação enfática de Isaías da singularidade transcendente de Deus como "o Criador dos confins da terra" (Is 40:25-28; cf. 44:24; 45:12). Nem a onisciência ou onipresença de Deus de modo algum implica que Deus não é o Criador do mundo. O judaísmo hassídico é uma seita moderna e mística do judaísmo, a qual não tem nenhuma influência sobre o judaísmo do Antigo Oriente Próximo e sobre a interpretação dos textos bíblicos. Isso me leva a pensar que o sua amiga está impondo uma interpretação sobre os textos bíblicos que é bastante estranha a eles. Isso é muito evidente em sua afirmação de que "Deus não profere julgamentos para a humanidade, mas sim nos alerta sobre os resultados inevitáveis ​​devido a ações particulares." Não somente isso não é ensinado em Gênesis 4, como ele alega, mas só é preciso ir para a história do dilúvio dois capítulos depois para ver um exemplo vivo de Deus trazendo juízo sobre a humanidade.

Então, se panenteísmo não se justifica biblicamente, devemos perguntar que argumentos o sua amiga pode oferecer para apoiar o panenteísmo. Eu não consigo pensar em algum. A analogia teológica da encarnação de Cristo é provocativa, mas depende do que é chamado de interpretação mereológica da encarnação, em que a natureza humana de Cristo é dito ser uma parte de Cristo, que não é a forma como a encarnação é normalmente entendida. Em qualquer caso, esta analogia não fornece nenhuma razão para pensar que Deus está relacionado com o mundo como Cristo está relacionado com sua natureza humana, mais do que o fato de eu ter uma parte imaterial (minha alma) e uma parte material (meu corpo) fornece uma razão para pensar que Deus está relacionado com o mundo como a alma está relacionada com o corpo.

Na verdade, os argumentos teístas tradicionais são uma pedra no sapato do panenteísmo, já que muitos deles mostram que o mundo é uma realidade criada dependente de Deus, não uma parte de Deus. A evidência filosófica e científica para o começo do universo é um desafio particularmente difícil do panenteísmo, pois como o sua amiga apoiará sua crença de que o mundo não tem um começo, mas que é eterno no passado? Acho que é terrivelmente irônico que no mesmo período de tempo em que a evidência científica tem acumulado que o universo não é eterno no passado, mas teve um começo teólogos panteístas têm vindo a aceitar uma cosmovisão que é tão em desacordo com a ciência comum.

Assim, em resposta às suas perguntas:

1) Será que Deus age como uma causa fora da natureza ou atos da natureza são atos de Deus, sem uma causa externa fora da natureza? A Bíblia ensina que Deus atua como uma causa fora da natureza. Os efeitos de tais ações são chamados milagres. O exemplo supremo é a criação do próprio universo. Nós temos boas evidências para uma causa transcendente assim, por exemplo, as evidências para o começo do universo e as evidências da ressurreição de Jesus, as quais não podem ser explicadas por causas totalmente naturais.

2) O universo é eterno? Se o universo é eterno Deus poderia ser a causa da existência do universo? A Bíblia ensina que o universo não é eterno, mas que foi criado por Deus em algum momento no passado, uma visão que é confirmada cientifica e é eminentemente razoável filosoficamente. Deixando de lado os argumentos filosóficos contra a eternidade do passado, não há razão para que Deus não pudesse criar um universo eterno. Para qualquer tempo t, o universo vai depender de sua existência em Deus em t, se houve ou não momentos de tempo anteriores a t.

3) Será que Deus pode ser o universo e existe à parte do universo ao mesmo tempo? Obviamente, se Deus = o universo, então como o universo não pode existir à parte do universo, nem Deus pode existir à parte do universo! Mas eu acho que a pergunta mais apropriada é se o universo poderia ser uma parte de Deus. Biblicamente, isso está descartado, e a maior parte dos argumentos teístas tradicionais descartam isso também. Deus e o mundo são ontologicamente distintos.



Notas:

1 Richard Bauckam, “God Crucified,” em Jesus and the God of Israel (Grand Rapids, Mich.: William B. Eerdmans, 2008), p. 8.

2 Richard Bauckham, “Biblical Theology and the Problems of Monotheism,” em Jesus and the God of Israel, pp. 83-4. YHWH é uma abreviação para o nome de Deus em hebraico Yahweh, ou o Senhor.

3 Bauckham, “God Crucified,” p. 11.

William Lane Craig