Concordância Divina

#405

Concordância Divina

Dr. Craig,

Recentemente escutei seu Podcast da classe Defenders sobre concordância de Deus (Defenders [Defensores] 2, Doutrina da Criação: Parte 8). No início, você explica que Deus é a causa de tudo porque ele concorda com isso. Como advogado, isso fez muito sentido para mim. Na lei (particularmente em delito), uma omissão (ou omissão de agir) pode ser a causa de algo da mesma forma que um ato afirmativo pode. Naturalmente, nós só iríamos impor a responsabilidade quando a omissão é acompanhada por algum dever legal de agir, mas o inquérito é totalmente separado do inquérito de causalidade.

Mais tarde, na aula, um aluno perguntou sobre o problema do mal, e você respondeu que esse problema existe se acreditamos ou não na concordância de Deus, porque é igualmente implicado por sua incapacidade de intervir. Neste momento, eu questionei minha invocação anterior da distinção ato/omissão para compreender a concordância de Deus. Por sua resposta, eu inferi que a concordância de Deus não é meramente uma omissão, mas é melhor entendida como um ato afirmativo.

1) Você concordaria que o consentimento de Deus é um ato afirmativo, em vez de uma omissão? Ou, eu estou fazendo uma distinção antropomórfica que não é aplicável a Deus?

2) Se não há distinção ato/omissão entre concordando e não intervindo, que importância tem a doutrina da concordância? Qual seria a diferença entre concordar e não intervir?

3) Se for aplicável a Deus, a distinção ato/omissão poderia ter significado para questões teológicas, como o problema do mal, ou você vê um ato afirmativo como moralmente igual a uma omissão em todas as circunstâncias?

Obrigado por tudo que você faz para o Reino,

JP

Estados Unidos

United States

É evidente para mim a partir da sua carta, JP, que concordância na lei é bastante diferente da noção teológica de concordância. Sua carta sugere que a concordância no sentido jurídico equivale a nada mais do que o consenso passivo, deixando um evento acontecer. Mas no sentido teológico, a concordância divina é a atividade causal ativa de Deus na produção de tudo o que ocorre. Deus não simplesmente deixa que as causas secundárias no mundo produzam os seus efeitos. Pelo contrário, de acordo com a doutrina da concordância, a menos que Deus causalmente produza eventos no mundo, as causas secundárias não produziriam seus efeitos. Uma das ilustrações favoritas de concordância divina (ou a falta dela) usada pelos teólogos medievais é o relato bíblico de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego (Daniel 3). Quando eles permaneceram ilesos na fornalha de fogo, a razão foi dito ser, não que eles de alguma forma tornaram-se inflamáveis, mas sim que Deus retirou Sua concordância da atividade das chamas, para que o fogo já não queimasse as coisas.

De acordo com a doutrina da concordância simultânea de Molina, Deus não age sobre causas secundárias para produzir os seus efeitos, mas age com as causas secundárias para produzir os seus efeitos. Se ele não conseguir produzir os efeitos, as causas secundárias por si só não serão suficientes para produzir esses efeitos. Assim, você pode ver que a concordância divina, longe de ser aquiescência passiva, envolve causalidade ativa. Suponho que devo acrescentar que Molina afirma que quando Deus concorda em produzir efeitos de ações pecaminosas, Ele não é moralmente responsável, porque Ele não age diretamente na escolha da pessoa, mas apenas vai junto com ela a fim de garantir a eficácia das escolhas livres das criaturas. Isso é algo mais como concordância no sentido legal, mas Deus não tem a ver com permitir que as criaturas livres pequem porque Ele não move suas vontades para o pecado, mas apenas lhes dá a liberdade para pecar, que é um grande bem. Ele não tem, como você diz, nenhuma obrigação de os impedir de escolher livremente a fazer o mal.

Então, para responder às suas perguntas:

1) Você concorda que o consentimento de Deus é um ato afirmativo, em vez de uma omissão? Sim, é um ato positivo de causalidade.

2) Se não há distinção ato/omissão entre concordando e não intervindo, que importância tem a doutrina da concordância? Qual seria a diferença entre concordar e não intervir? Existe uma distinção. A concordância não envolve intervir na série de causas secundárias; que seria uma atividade milagrosa. Nesse sentido, concordar com causas secundárias implica deixar de intervir. Mas é muito mais do que deixar de intervir; é causalmente produzir os efeitos das causas secundárias.

3) Se for aplicável a Deus, a distinção ato/omissão poderia ter significado para questões teológicas, como o problema do mal, ou você vê um ato afirmativo como moralmente igual a uma omissão em todas as circunstâncias? Como a concordância envolve a atividade causal de Deus em produzir os efeitos das escolhas livres de criaturas pecadoras, nós temos a consequência desconfortável que Deus faz com que, por exemplo, a faca do assassino corte o corpo de sua vítima. Mas eu estou inclinado a concordar com Molina que desde que Deus não queira que o assassino faça tal coisa, Ele não é moralmente responsável pela ação.

William Lane Craig