Rejeitar Jesus pelo Judaismo?

#414

Rejeitar Jesus pelo Judaismo?

Caro, Dr. Craig,

Em 5 de janeiro eu declarei que eu não iria permitir dúvidas em relação à Jesus na minha vida; Jesus aparenta ser a melhor escolha e isso é o que eu vou seguir e reavaliarei no fim do ano. Bem, uns dias depois da minha declaração, chegou alguns livros de Rabino Tovia Singer (Let’s Get Biblical) que eu havia encomendado, e eu não pude evitar começa-los. Eu odeio ser tão inconsistente, mas eu não pedirei desculpas por desejar a verdade.

Eu recebi dois livros e atualmente eu já li 2/3 do primeiro livro. Eu preciso dizer que o que eu estou lendo é muito esclarecedor e convincente. Uma das piadas que Rabino Singer conta é “Por que existem os mórmons? Para que os cristãos saibam como os judeus se sentem”. Eu já conversei com alguns mórmons e eu basicamente os disse que eu não posso aceitar os ensinamentos de Joseph Smith porque a Bíblia não permite. Na época eu supus que as profecias do Velho Testamento sobre Jesus eram verdadeiras, eu sabia o que Jesus e os apóstolos ensinaram e sabia que em Apocalipse diz que você não deve pôr nem tirar das palavras do evangelho.

A Bíblia é minha autoridade e por não haver profecias sobre Joseph Smith e porque o que Jesus fez foi o suficiente para a minha salvação, eu não posso aceitar os ensinamentos do mormonismo. O que eu estou descobrindo com os livros que eu encomendei e com os debates entre Rabino Singer e outros cristãos é que, essencialmente, a mesma coisa está acontecendo. Os judeus se apegam ao Velho Testamento como a Palavra de Deus e, na opinião deles, Jesus não é o Messias. As Escrituras que os cristãos se apagam no Velho Testamento para testificar Jesus foram alteradas por antigos cristãos. A Bíblia que a maioria dos cristãos possuem não refletem a bíblia hebraica quando se considera a vinda de Jesus, o nascimento virginal, a trindade e a necessidade de um salvador sacrificial.

Até agora os debates que eu já vi mostram que o cristão confia mais na sua experiência pessoal, nas conversas de Paulo e no fato de que há bilhões de cristãos a mais agora do que nas escrituras do Velho Testamento. Quando um cristão é confrontado com essas discrepâncias, ele não tem outra resposta a não ser a de que “eu sei da minha própria experiência e do que Jesus fez pelos outros; portanto, eu sei que é verdade”.

Dr. Craig, você conhece esses livros do rabino? Você pode me ajudar a ver o que ele está ensinando errado, porque agora eu estou definitivamente me direcionando para o Judaísmo em vez do Cristianismo. Por quê? Porque assim como eu fui enfático em me apoiar na palavra de Deus quando eu debati com o mórmon, eu acredito que os judeus parecem estar certos em sua postura sobre a bíblia hebraica e, por isso, rejeitam Jesus. Para mim, a experiência não significa nada se não pode ser apoiada pelas Escrituras, especialmente quando a minha experiência tem sido, no máximo, medíocre.

Se você puder me fornecer qualquer coisa para combater o que o rabino Tovia Singer está ensinando, por favor me avise. Eu com certeza lerei ou ouvirei.

Obrigado,

Don

- país não especificado

Eu convidei Drew, um membro da minha aula de Defenders com um histórico considerável em Judaísmo para responder a sua pergunta, Don. Eu vou me segurar para não falar mais, mas simplesmente direi que eu tive um pequeno diálogo com o rabino Singer uma vez no programa do Lee Strobel, “Faith under Fire, que pode ser visto no Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=QqfuPGeZQbY). Eu acho que você perceberá o quão diferente é a minha abordagem da sua em relação a essas questões.

- country not specified

Caro Don,

Obrigado pela sua pergunta. Eu agradeço a sua sinceridade como alguém que busca conhecer a verdade, e se recusa a se desculpar por isso. Eu gostaria que mais cristãos desejassem aprender com pensadores cristãos e não-cristãos. Eu já assisti aulas de rabinos reformados, conservadores e ortodoxos; aprendendo o que cada um tem a dizer sobre o que significa seguir a Deus.

O meu próprio estudo sobre o Judaísmo Rabínico tem me dado uma ideia mais profunda da minha própria fé. Há muitas coisas que os cristãos podem aprender com os rabinos ortodoxos. No respeito deles pelo Sábado (dia de repouso), na apreciação que eles têm pela Bíblia em sua língua original, no sistema educacional deles, os rabinos fornecem uma boa ideia de como os cristãos podem viver de forma mais fiel.[1]

Eu sou muito familiarizado com as objeções rabínicas ao Cristianismo, particularmente com os argumentos de Tovia Singer. Eu ouvi a série de áudios dele, Let’s Get Biblical,[2] e eu tenho tentado fazer com que mais apologistas cristãos façam a mesma coisa por alguns motivos. Primeiro, Singer nos mostra que nós somos geralmente céticos, sem razão alguma, sobre as escrituras e os ensinamentos dos cultos. Apologistas que são contra cultos zombarão as Testemunhas de Jeová por acreditar que Jesus retornou de forma invisível em 1914, e ainda assim falham em perceber que muitos preteristas acreditam que tal evento aconteceu no ano 70 d.C. Na verdade, Singer usa muitas das técnicas, ilustrações e slogans do movimento cristão contra culto em seu material.

Singer também desafia as interpretações da Bíblia que cristãos geralmente supõem ser auto-evidentemente verdadeiras. Essas outras ideias em relação às interpretações bíblicas nos forçam a ler a Bíblia de forma muito mais cuidadosa. Por exemplo, o final de Salmos 2 pode ser traduzido como “beijai o filho” ou “buscai a pureza” dependendo do quanto de influência aramaica se pensa que o autor teve. Diferente do grego, o hebreu antigo é uma língua em que um vocabulário pequeno tinha que expressar uma ampla gama de significados. Isso quer dizer que as frases e palavras hebraicas podem ser interpretadas de inúmeras formas. Os rabinos tentaram encontrar todas as formas que alguém pode interpretar uma passagem, que é o porquê de Rabínicos ser uma disciplina divertida.

Quando eu estudei a Bíblia sob rabinos ortodoxos, eu sempre perguntava “e sobre tal e tal interpretação”? Inevitavelmente, havia um rabino em algum lugar que compartilhava a mesma visão que eu tinha de como a passagem seria interpretada. Por isso eu estava confuso quando Singer continuava afirmando que os rabinos teriam rejeitado de forma unânime as interpretações cristãs de certas passagens. Não é verdade, e não menos que J. Immanuel Schodet que admitiu o mesmo. Ele disse “[Cristãos] continuam republicando livros que citam inúmeras passagens do Talmude, do Midrash, do Zohar, dos comentaristas bíblicos judeus e de outros trabalhos, para validar seus argumentos. Nós vamos apagar essas citações da nossa herança”?[3] O rabino Simcha Pearlmutter deu uma palestra em que ele argumentou que até algumas das liturgias rabínicas claramente apontam para Jesus.[4]

Os rabinos também acreditavam que muitas passagens tinham inúmeros significados.[5] Considere Gênesis 37:18, em que os irmãos de José conspiraram contra José para matá-lo. De acordo com rabinos, esse versículo significa que os irmãos de José tentaram causar a morte dele de longe atirando flechas na direção de José, e provocaram os cachorros contra José. Quando isso não deu certo, eles decidiram matá-lo diretamente. De novo, de acordo com os rabinos, esse versículo também significa que os irmãos de José viram José conspirar para matá-los. Assim, os irmãos estavam agindo em legítima defesa.[6] Os rabinos irão, então, zombar dos escritores do Novo Testamente por aplicar Oseias 11:1 a Jesus.

Há algumas inconsistências como Michael Brown apontou em suas palestras. Eu resumi o caso dele em um vídeo que fiz. Singer esquece que o Velho Testamento tem muitos dos mesmos “problemas” que ele encontra no Novo Testamento.[7] Por exemplo, os rabinos conciliam a passagem Êxodo 20 de "lembrar do sábado" com a passagem “guarda o dia de sábado” de Deuteronômio 5 dizendo que “Deus disse os dois ao mesmo tempo”.[8] Se você der esse tipo de flexibilidade para o Novo Testamento, é fácil conciliar também.

Singer também acredita que o texto massorético do Velho Testamento é o original, e que a Septuaginta e o Pentateuco Samaritano são corrupções do texto. Em círculos eruditos, tal posição é, no máximo, marginal.[9] As descobertas dos pergaminhos do Mar Morto revelou que durante o último período do segundo templo, não havia uma variante do texto, mas textos diferentes em que pequenas diferenças refletiam os viés das seitas que os possuíam. Emanuel Tov (que não é cristão) escreve sobre isso em Textual Criticism of the Hebrew Bible, onde ele aponta que das cópias da Bíblia encontradas no Qumran (todas escritas em hebraica), aproximadamente 35% foram consideradas protomassorético, 5% seguiam a Septuaginta, 5% seguiam o texto samaritano, e o resto não se alinha a nenhuma das três.

Considere esse gráfico para a história textual da Bíblia hebraica. O Texto Massorético (TM) é duas gerações depois da Septuaginta (LXX). Isso não quer dizer que a Septuaginta é mais próxima do original que o texto Massorético, mas que os dois derivam de uma fonte que agora nos é perdida.

Eu também não recomendaria o Judaísmo se alguém quer ser fiel à Bíblia. A passagem chave no Talmude que define a visão dos rabinos sobre a Bíblia é a história forno de achnai bava metzia 59b.[10] Nela, o rabino Eliezer traz muitas provas da Bíblia para a seu posicionamento, mas os sábios não foram convencidos. Ele invocou milagres, mas os sábios não deram ouvidos aos milagres. Finalmente, ele disse “Se a Lei concorda comigo, deixe que uma voz venha dos céus e diga”. Deus falou do céu que o rabino Eliezer estava certo, e os sábios disseram “Nós não damos ouvidos às vozes do céu, já que aprendemos há muito tempo que o Torá não está no céu. Depois da maioria, é preciso se inclinar”. O tirante aqui é que a prova textual vem de Êxodo 23:2, que de acordo com a tradução Artscroll afirma: “Não seja um seguidor da maioria para o mal; e não responda a uma queixa por ceder à maioria para perverter a lei”. A passagem claramente diz para não acompanhar a maioria, e os rabinos a interpretam para dizer “acompanhe a maioria”.

O Cristianismo tem evidências poderosas a seu favor, totalmente à parte da prova textual messiânica. A evidência na história é bem poderosa como explica Dr. Craig em seu debate com Jamal Badawi[11]. Gary Habermas também dá um caso poderoso em seus discursos.[12] Singer responderá que o Novo Testamente não é histórico porque a maioria dos eruditos céticos acreditam que ele tem contradições. Primeiro, Michael Brown menciona que as dificuldades da Bíblia no Velho Testamento são, no mínimo, tão difíceis quanto no Novo Testamento. Pela minha experiência na Sociedade da Literatura Bíblica, os principais estudiosos são, significantemente, mais críticos do Velho Testamento por conter erros e anacronismos do que o Novo Testamento. De qualquer modo, Shabir Ally tentou usar essa tática de “contradições” em um debate com o Dr. Craig, e não deu muito certo para ele.[13]

Até a maioria dos eruditos ateus reconhecem os fatos básicos sobre a autoimagem radical de Jesus e sua ressureição. Em relação ao Velho Testamento, eruditos ateus acreditam que há um pouco de história cercado de lendas e mitos. Dois historiadores judeus ortodoxos do Novo Testamento, Geza Vermes e Pinchas Lapide,[14] disseram que com base nas evidências, eles estavam convencidos que Jesus ressuscitou. O êxodo dos israelitas do Egito, por outro lado, é rejeitado quase que universalmente pelos eruditos ateus e liberais e vista como uma lenda inventada na época no exílio babilônico.[15] Então eu desafiaria qualquer rabino afirmando que a evidência para a autoimagem radical de Jesus ultrapassa a evidência até da existência de um Moisés histórico. Baseado em que eles acreditam em Moisés e rejeitam Jesus?

Agora vamos para os recursos:

Eu concordo que a maioria dos cristãos foram terríveis quando debateram com Tovia Singer, assim como a maioria dos pastores têm se apresentado horrivelmente quando debateram céticos como Christopher Hitchens. Eles agem como tudo o que eles têm que fazer é contar algumas histórias e proclamar o nome de Jesus e o Espírito Santo fará o resto, o que é uma teologia ruim. Dr. Craig, pelo contrário, leva os debates a sério, e por isso ele é tão bom neles. Michael Brown também é habilidoso em debater com rabinos, e ele fez um debate de 90 minutos no rádio com Tovia Singer.[16]

Outra boa fonte é uma série de áudios que Michael Brown fez em resposta a Singer chamada Countering the Counter-Missionaries.[17] Ele também tem um acompanhante de série de 5 volumes chamada “Respondendo as Objeções Judaicas a Jesus”.[18] Em relação a tradição rabínica, Shawn Lichaa (também não é cristão) escreveu um pequeno livro sobre como os rabinos violam o significado do Velho Testamento nomeado As It Is Written.[19] Você não erra com “Em Defesa de Cristo” e o “The Case for the Real Jesus“ [Em Defesa do Cristo Verdadeiro] de Lee Strobel. A Controvérsia de Isaías 53 é um vídeo-resposta para os rabinos sobre Isaías 53 e o porquê a interpretação deles se choca horrivelmente com o contexto ao redor.[20]

Finalmente, eu suspeito que a sua experiência medíocre seja o real problema em questão. Você é membro de uma igreja? Você faz parte de um grupo pequeno? Se sim, o que os seus companheiros do grupo pensam que está acontecendo? Nós precisamos nos apoiar como parte de uma comunidade de pessoas que creem. Estudar sob rabinos ortodoxos me ajudou a descobrir algo bizarro sobre a nossa psicologia. Os mesmos argumentos contra Jesus que pareciam tão poderosos quando eu os ouvi, no Kollel [grupo] judaico pareceu bem fraco quando eu os repeti para os meus amigos cristãos. Os argumentos não mudaram, mas o impacto deles e sua plausibilidade mudaram dependendo do ambiente em que eu estava quando eu pensava sobre eles.

Eu suspeito que isso seja o porquê de quase todos os exemplos onde um apologista vai apostatar ocorre quando ele tenta debater sozinho. Apologistas solitários são tolos, e desmoronam com frequência sob pressão. Novamente, nós precisamos ser parte de uma comunidade de pessoas que creem, obtendo força espiritual um dos outros e reforçando uns aos outros com encorajamentos e responsabilidade.

בשם ישוע המשיח צדקנ

(Em Cristo),

Drew.

Obs.: O mormonismo tem problemas maiores que a fidelidade das Escrituras. Arqueologia, linguística e testes de DNA tem contradito fortemente as afirmações em ensinamentos Mórmons. Você não se perguntou por que nunca há mapas atrás do Livro dos Mórmons?

Notas:



[1] Esse canal no Youtube tem vários vídeos sobre esse assunto.

[2] Disponível de graça no site de Singer: Outreach Judaism

[3] O Professor, o Messias e Escândalo de Calúnias

[4] Eu acho que a parte mais interessante é o Piyyut em versões mais antigas da liturgia Yom Kippur

[5] Dê uma olhada da sessão PaRDeS do The Messianic Believers First Response Handbook

[6] Artscroll Chumash, página 203 (versão em inglês)

[7] Considere a conversa dele Unequal Weights and Measures

[8] Essa harmonização é chamada de Lechah Dodi até nas seções de sexta à noite.

[9] A bíblia dos pergaminhos do Mar Morto dá 223 lugares em que os pergaminhos do Mar Morto concordam com a Septuaginta contra o Texto Massorético.

[10] Aqui é uma tradução livre e automática.

[11] O conceito de Deus no Islamismo e no Cristianismo.

[12] O Argumento da Ressureição que Mudou uma Geração de Eruditos.

[13] Jesus levantou dos mortos? Olhe a reposta do Dr. Craig para essa acusação na seção de respostas.

[14] Gary Habermas menciona isso em seu debate com Ken Humphreys. Lapide admite a sua crença na ressureição de Jesus perto do fim de The Resurrection of Jesus: A Jewish Perspective. Eu acho que a admissão por Geza Vermes está em The Resurrection: History and Myth.

[15] Por exemplo, Mordecai Kaplan acreditava que o Êxodo não era histórico e que o Pentateuco foi editado um pouco tarde. The American Judaism de Mordecai M. Kaplan, página 309 (versão em inglês).

[16] Tovia Singer debate Dr. Michael Brown

[17] Countering the Counter –Missionaries

[18] Respondendo as Obejções Judaicas para Jesus

[19] As it is Written: A Brief Case for Karaism

[20] A Controvérsia de Isaías 53

William Lane Craig