Encarnação e Teodiceia

#419

Encarnação e Teodiceia

Oi Dr. Craig,

Primeiramente, gostaria de dizer que mesmo não sou um cristão (embora de alguma forma eu acabei fazendo um curso superior de Teologia [...]) eu sou um grande fã do seu programa de apresentar justificativas racionais e rigorosamente precisas para a doutrina cristã – particularmente, você completamente me convenceu sobre o argumento cosmológico! No entanto, eu estou relutante para se mover além da crença de um Deísta minimalista por um Deus criador por várias razões, entre as quais está a questão da:

A encarnação é compatível com a teodiceia?

O cristianismo ortodoxo (‘o’ minúsculo) diz que, para nos salvar, Cristo deve ser totalmente Deus e totalmente homem. Eu concordo com a suposição por trás disso – que ‘o que não é assumido não é salvo’, porque só um Deus-homem de verdade pode nos dar um contato metafísico único e exclusivo com Deus que nós precisamos para alcançar a salvação.

No entanto, também parece que ‘totalmente Deus e totalmente homem’ é paradoxal – porque as propriedades de Deus (não limitado ao espaço e tempo, impassível, etc) contradiz as propriedades de homem (limitado ao espaço e tempo, passível, etc). Então parece que para aceitar a encarnação – que Deus poderia criar um ser que é tanto limitado ao espaço e tempo como não limitado ao espaço e tempo – significa aceitar que Deus pode fazer o logicamente impossível, como criar uma pedra tão pesada que ele mesmo não consegue levantar ou criar um círculo quadrado.

Eu acho que isto leva a problemas com a teodiceia. Se Deus é totalmente amoroso, parece que Deus criaria o melhor mundo possível – por exemplo, um mundo no qual as pessoas tenham livre arbítrio é melhor que um mundo sem livre arbítrio, e como nós não podemos tanto ter livre arbítrio verdadeiramente e nunca cometer o mal, o mundo inevitavelmente contém algum mal. Porém: se a encarnação é aceita, então a habilidade de Deus de fazer o logicamente impossível também é aceita. Isto significa que não há limites lógicos para mundos possíveis que Deus pode criar – incluindo, por exemplo, um que tenha tanto livre arbítrio como nenhum mal. Então, a ‘desculpa’ de Deus pela presença do mal – que este é o melhor mundo possível – é removida, já que todos os mundos, até mesmos os paradoxais, são possíveis.

Eu realmente aprecio seu esforço para responder isso.

Saudações,

Edwin
Reino Unido

United Kingdom

Eu acho que posso ser de alguma ajuda, Edwin, para remover pelo menos este obstáculo para a fé cristã.

O problema reside no seu entendimento da expressão “totalmente Deus/totalmente homem”. Esta expressão não é, de fato, o que os credos afirmam de Cristo. O que a Declaração[de Fé]de Calcedôniasobre a deidade e humanidade de Cristo afirma, na verdade, é que Cristo é “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem” (vere Deus/vere homo). A expressão que você cita é precisamente problemática pela razão que você explica: se Cristo é totalmente Deus, então ele não pode ser humano de qualquer forma, muito menos totalmente humano!

Eu tenho certeza que as pessoas que usam a expressam “totalmente Deus/totalmente homem” não querem sugerir que Cristo é totalmente Deus e totalmente homem, mas que ele é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Mas por causa de sua ambiguidade e status do não-credo, eu acho que é melhor evitar essa expressão enganosa e usar a linguagem do Credo.

A expressão do Credo da Calcedôniavere Deus/vere homo” não é paradoxal (veja depois meu capítulo sobre a Encarnação no livro Filosofia e cosmovisão cristã [Vida Nova: 2005]). Os autores do Credo da Calcedônia afirmam que Cristo tinha duas naturezas distintas, uma humana e uma divina. Ao afirmar que o Cristo encarnado tinha duas naturezas, os Pais da Igreja foram declarando que Cristo exemplificou todas as propriedades que compõem a humanidade e todas as propriedades compõem a deidade [divindade]. Nesse sentido, ele tinha duas naturezas e então pertenceu dois tipos naturais, Homem e Deus. Cristo foi assim verdadeiramente humano, mas não foi meramente humano.

Com respeito a teodiceia, sua pergunta pressupõe que existe tal coisa como um melhor mundo possível. Eu acho que a maioria dos filósofos cristão negariam que tal coisa existe. Pode não haver nenhum limite superior sobre a bondade dos mundos. Então, Deus, como um ser perfeito, tem apenas que criar um mundo bom, não o melhor dos mundos possíveis, que podem não ser tão impossível quanto criar uma pedra tão pesada Ele mesmo não possa levantar. Além do mais, você erra ao pensar que a criação do livre arbítrio implica a presença do mal. Isso não é certo. É logicamente possível que todo mundo em qualquer situação moral sempre faça livremente a coisa certa. Assim, mundos sem pecados e mal são possíveis (mesmo se não viável para Deus).

Mas deixe de lado esses pontos: o ponto mais importante que você faz é que se Deus pode fazer o logicamente impossível, então qualquer coisa é possível para Ele. Isso, na verdade, dissolve o problema do mal inteiramente! Pois se Deus pode fazer o logicamente impossível, então Ele pode mandar a ver que Deus exista e o Mal exista mesmo se a coexistência de ambos é logicamente impossível! Uma vez que uma pessoa diz que Deus pode fazer contradições lógicas virar realidade, então o chamado problema do mal – em particular, a versão lógica do problema do mal – se evapora completamente.

Claro, eu não acho que Deus possa fazer o logicamente impossível, mas então a doutrina da encarnação, quando apropriadamente expressada, não envolve contradição lógica.

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Para mais detalhes em relação a Encarnação tal qual como Jesus pode ser ambos verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, veja a aula do Dr. Craig da série Defenders 2 sobre Doutrina de Cristo partes 1 a 8 encontradas aqui.

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William Lane Craig