Paradoxo do Anjo da Morte (Grim Reaper)

#422

Paradoxo do Anjo da Morte (Grim Reaper)

Caro Dr. Craig,

Eu recentemente assisti a um vídeo da sua defesa do Argumento Cosmológico Kalam na conferência de Alvin Plantinga na Universidade de Baylor, e eu fiquei intrigado com o novo paradoxo do anjo da morte (Grim Reaper) contra uma série infinita de eventos causais. Eu tenho pesquisado toda a web e tenho encontrado muito pouco sobre esse argumento. Eu estava imaginando quais seriam exatamente seus pensamentos sobre este argumento e se você adicionará ao seu repertório de argumentos contra uma série eterna de eventos causais. Obrigado pelo seu incansável trabalho, e oro para que o senhor abençoe seu ministério que tem infinitamente abençoado minha vida.

John,
Estados Unidos

United States

Foi um privilégio como também uma boa dose de diversão estar envolvido nessa conferência homenageando um grande pensador como Alvin Plantinga. Há uma série de variações do Paradoxo do Anjo da Morte, que você pode ler no livro divertido de José Benardete, Infinity: An Essay in Metaphysics (Oxford: Clarendon Press, 1964), pg. 259-61.

Para aqueles que não estão familiarizados com a versão de Pruss-Koons[1], nós estamos convidados a imaginar que há muitos infinitamente incontáveis Anjos da Morte (que nós podemos identificar como deuses, afim de prevenir qualquer objeção fisicalista). Você está vivo a meia-noite. Anjo da Morte #1 golpeará você a morte à 1am. Se você ainda estiver vivo nessa hora, Anjo da Morte #2 golpeará você a morte às 12:30 am. Se você ainda estiver vivo, Anjo da Morte #3 golpeará você a morte às 12:15am, e assim por diante. Tal situação parece claramente concebível – dada uma possibilidade de um número atualmente infinito de coisas – mas leva a uma impossibilidade: você não pode sobreviver após meia noite e também não pode ser morto por qualquer Anjo da morte a qualquer hora![2]

Graham Oppy, talvez o mais formidável filósofo não-teísta do mundo, responde a um paradoxo similar a respeito sobre a infinidade de campainhas, cada uma das quais toca em sua hora designada com uma ressonada ensurdecedor. Você não pode reter sua audição após meia noite e também não pode ficar surdo pelo ressonar da campainha! Então, como Oppy responde? Ele diz que sua surdez não é resultado de uma ressonar particular, mas é o efeito coletivo de infinitamente muitos ressonos.[3] Esta resposta não envolve apenas uma forma mais bizarra de retro-causalidade, como explica Benardete[4], mas é em qualquer caso inaplicável à versão do Anjo da Morte, já que uma vez que você está morto, nenhum Anjo da Morte irá mais usar sua foice, de forma que a ação coletiva está fora de questão.

Pruss e Koons mostram como reformular o paradoxo de forma que os Anjos da Morte estão espalhados sobre um tempo infinito ao invés de uma única hora. Por exemplo, alguém pode organizar as coisas de tal forma que cada Anjo da Morte balançará sua foice em 1o de Janeiro de cada ano passado se você conseguir viver tanto tempo. Você não pode sobreviver ao presente e ainda assim não existe Anjo da Morte que mate você a qualquer momento.

Eu ainda não pensei muito sobre o paradoxo, mas me parece que é imediatamente direcionado contra a continuidade do tempo e, de tal forma, é muito convincente. Nós não devemos pensar do tempo como composto de instantes sem duração, entre qualquer de dois dos quais existe um número infinito de instantes. O paradoxo reforça muitos (diversos) outros argumentos filosóficos contra a construção do tempo no modelo de uma linha geométrica composta de pontos. Felizmente, desde o advento da teoria quântica, filósofos e físicos tem estado muito mais abertos à ideia do tempo e espaço serem discretos ao invés de denso. De fato, muitos acham que a continuidade do espaço-tempo na Relatividade Geral é o que precisa sumir se quiséramos ter uma teoria física unificada do mundo.

A pergunta será se este paradoxo pode ser reformulado com sucesso para descartar a infinidade do passado. Não há dificuldade em pensar do passado como uma sequência de anos, com um Anjo da Morte colocado no dia 1o de janeiro de cada ano. A dificuldade, pelo contrário, é que uma vez que você empurra a sequência de anos de volta para a infinidade, você perde a analogia da meia noite na história do Anjo da Morte. Não há nenhum ponto infinitamente distante no qual você estava vivo e do qual você tenta, sem sucesso, persistir ao presente. Já que as séries de anos passados não têm começo, nem mesmo um infinitamente distante, não faz sentido dizer que embora você estava vivo uma vez, você não pode viver para o presente. Neste cenário, com os Anjos da Morte se alongando infinitamente de volta no passado, você nunca esteve vivo!

Portanto, a analogia para o Paradoxo do Anjo da Morte não é segura. No lugar, nós teremos que fazer uma afirmação contra-factual ao invés disso: alguma coisa como “Você estaria vivo a qualquer momento t, a menos que você fosse golpeado (morto) primeiro por um Anjo da Morte”. Esta parece ser uma afirmação coerente. Você poderia ser um ser não suscetível para o que Aristóteles chamou de geração e corrupção e, portanto, naturalmente sempiternal (eterno). Você pereceria somente se você fosse destruído por um Anjo da Morte. Mas então o paradoxo surge: você não pode estar vivo hoje e, ainda assim, você não pode ser morto por nenhum Anjo da Morte (já que, novamente, um Anjo da Morte já teria, previamente, destruído você antes de que qualquer outro balançasse ou usar seu foice).

Me parece que isto é uma versão do argumento cosmológico kalam contra a possibilidade de um passado infinito formado por adições sucessivas. Eu quero renovar meu convite que fiz na conferência em Baylor para os filósofos teístas explorarem esta questão mais profundamente.

Notas:



[1] Robert C. Koons, “A New Kalam Argument: Revenge of the Grim Reaper,” Noûs 48 (2014): 256-267; Alexander Pruss, “From the Grim Reaper paradox to the Kalam argument,” http://alexanderpruss.blogspot.com/2009/10/from-grim-reaper-paradox-to-kalaam.html, 2 de Outubro de 2009; Alexander Pruss, “Probability on infinite sets and the Kalaam argument’, http://alexanderpruss.blogspot.com/2010/03/probability-on-infinite-sets-and-kalaam.html, 16 de Março de 2010.

[2] Para aqueles que não entenderam, a questão é que antes que qualquer Anjo da Morte possa te derrubar, você já estará morte, desde que à priori a qualquer ação de um Anjo da Morte há, na verdade, um número infinito de prévios Anjos da Morte preparados para te matar.

[3] Graham Oppy, Philosophical Perspectives on Infinity(Cambridge: Cambridge University Press, 2006), pg. 83.

[4] Benardete, Infinity,pg. 259.

William Lane Craig