Lições do “Tempo e Criação”

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Lições do “Tempo e Criação”

Prezado Dr. Craig,

Eu sou Samuel, tenho 20 anos de idade e estou atualmente estudando para um curso superior em Biologia e Química na Universidade de Malta.

Meu amigo ateísta que está atualmente estudando Física e Química fez uma pergunta relacionada com a origem do universo. Meu amigo argumentou que porque não houve tempo antes do big bang, portanto não houve nenhuma relação causal envolvida, porque causas requerem tempo para poder ocorrer.


Minha resposta foi de que isso, portanto, implica uma causa que transcende o tempo, e eu fiz uma analogia para ajudar a explicar isso. Eu disse que quando um escritor escreve uma estória, a causa da estória vai além da realidade da linha do tempo da estória. Mas isso não significa que a linha do tempo da estória não carece de uma causa porque a causa não aconteceu dentro dos parâmetros da realidade da estória. De qualquer forma, meu amigo não se convenceu, então eu queria ver como você responderia a tal argumento.

O universo tem uma causa, mesmo quando tempo nem mesmo existia antes do big bang?

Por favor responda, eu estou verdadeiramente encantado por ver um verdadeiro cristão ser capaz de defender a fé de forma tão eficiente e humilde. Eu profundamente desejo me tornar um cristão apologista um dia. Continue o bom trabalho, Dr. Craig, eu tenho certeza que Deus alcançou muitos adolescentes problemáticos através de seus trabalhos.

Obrigado,

Samuel
Malta

Malta

Eu acho que nunca recebi uma carta de Malta antes, Samuel! É encorajador saber que Reasonable Faith está tocando vidas na sua ilha. Obrigado por escrever!

Embora eu já tenha abordado sua pergunta em vários lugares, eu escolhi ela esta semana por causa das lições mais amplas que podemos aprender ao lidar com isso.

Por exemplo, eu tenho muitas vezes fica intrigado com o fato de que cristãos frequentemente parecem achar que um argumento que eles compartilharam com um descrente não é bom porque no final o descrente permanece não convencido por ele. Isto é um erro. A solidez de um argumento não é determinada pelo fato de que o incrédulo com quem você compartilhou o argumento seja convencido. Ao contrário, permanecer não convencido pode ser nada mais que uma manifestação da mente fechada dele.

Alguém que esteja profundamente envolvido na sua posição resistirá fortemente a tentativa de convence-lo do contrário. Um ministro cristão da Universidade de Simon Fraser no Canadá uma vez comentou para mim que ele tinha observado, ao conversar com estudantes, que todos nós temos um sintonizador cético dentro de nós no qual nós tendemos mudar de canal quando confrontados com afirmações que vão contra as nossas crenças, mas mantemos o mesmo canal quando segue as nossas próprias crenças. Por esta razão, ninguém pode inferir que porque seu amigo descrente não achou seu argumento convincente que, portanto, o argumento não é bom.

Eu entendo sua frustração porque nós queremos muito convencer um descrente da verdade e então nós queremos argumentos que “funcionem”. Mas se um argumento funciona é uma questão relativa a pessoa. Algumas pessoas simplesmente se recusam a ser convencidas. Talvez nós poderíamos inferir em tal caso que o argumento não foi efetivo (embora ele possa ser efetivo com outra pessoa!), mas nós não podemos dizer que o argumento é fraco ou ruim. E mesmo se o argumento fosse ineficaz, isso não quer dizer que o argumento não foi útil. O argumento pode servir como uma espécie de termômetro espiritual que lhe revela a frieza do coração da pessoa perante a Deus. Este fato pode ser muito útil para saber nos seus esforços para compartilhar o Evangelho com ele.
Agora em seu caso, me parece que sua resposta a objeção dele é, prima facie, decente e provocativa que merece pelo menos consideração. A ideia é que a linha do tempo em um romance pode ter um começo em algum ponto (vamos dizer, 1868), mas ninguém pode inferir que o autor do romance deve, portanto, ter existido em 1868 ou antes para que assim causasse a existência do romance. Assim como o autor do romance transcende a linha do tempo do romance, da mesma forma, Deus como Criador do universo pode transcender a linha do tempo e ainda ser atemporalmente sua causa.

Meu receio sobre a analogia é que enquanto ela funciona bem numa visão aflexiva [tenseless] do tempo, de acordo com a qual todos os momentos no tempo são igualmente reais e o tornar-se temporal ou transformação temporal [temporal becoming] é meramente um aspecto subjetivo da consciência humana, a analogia falha numa visão flexiva do tempo, na qual nem todos os momentos do tempo são igualmente reais e o tornar-se temporal é um aspecto objetivo e real do mundo. (Ironicamente, a visão aflexiva é bem difundida na física, de modo que seu amigo deveria estar familiarizado com a ideia de uma causa que transcende as variedades algébricas das quatro dimensões espaço-tempo). Seja como for, observe que minha resposta é fundamentada, não simplesmente um relatório psicológico e pessoal de que eu não estou convencido. Você não explicou por que seu amigo não ficou convencido, mas se ele não ofereceu mais nada do que um relatório psicológico, então a resposta dele é filosoficamente desinteressante.

Uma segunda lição a ser aprendida dessa discussão diz respeito ao ónus da prova. O argumento do seu amigo contra o universo ter uma causa depende da ousada afirmação de que “causas requerem tempo para poder ocorrer.” Você prontamente contesta a premissa oferecendo uma analogia para dar sentido a uma causa atemporal. No entanto, eu não vejo você perguntar ao seu amigo por fundamentos da afirmação dele. O argumento é, afinal, o argumento dele e então ele tem que defender suas premissas. Você precisa perguntar quais evidências ele tem para a premissa crucial dele.

Em vez disso, você assumiu inteiramente o ônus da prova para você de fornecer o derrotador [defeater] da premissa dele. Agora talvez durante sua conversa, ele tenha fornecido alguma evidência para a premissa dele, mas não há nenhuma menção disso na sua carta. Você precisa desafia-lo a fornecer algum fundamento para a afirmação que ele fez. Observe que não é suficiente para ele dizer que na física todas as causas são temporalmente localizadas. Pois então você pode responder, “Isto é porque a física preocupa-se apenas com causas físicas”. Mas no caso de uma causa do universo, nós estamos falando sobre uma causa que é metafísica, não física. Eu não consigo ver qualquer razão pela qual uma causa metafísica deva ser localizada temporalmente – você consegue?”

Uma terceira lição que surge dessa conversa é um lembrete de quão complexas as questões realmente são. Por exemplo, seu amigo defende que “não houve tempo antes do big bang”. Sem dúvida, ele faz essa suposição porque ele está igualando o tempo com o tempo físico, o tempo representado nas teorias de física. No entanto, o começo de um tempo físico não requer um começo do próprio tempo. Imagine a existência de Deus sem mais nada e sem o universo. Tal estado seria atemporal? Não, caso Deus experimente uma sucessão de estados de consciência! Pois uma série de eventos mentais sem mais nada é suficiente para o tempo existir, totalmente na ausência do mundo físico. Deus poderia assim existir temporalmente antes da criação em uma espécie de tempo metafísico e então criar o tempo físico no big bang. Se seu amigo assume que o fisicalismo é verdade, que tudo que existe é espaço-tempo e o seu conteúdo, então ele está cometendo a falácia da petição de princípio em favor do ateísmo e o argumento dele não tem valor.

Além do mais, nossas alternativas ainda não se esgotaram. Você mesmo propôs que Deus poderia existir atemporalmente e criar atemporalmente a variedade do espaço-tempo. Ele não mais precisa existir antes do big bang assim como o autor do romance não precisa existir antes de 1868.

Ou, que tal isso? Talvez, Deus causando o universo a começar a existir é simultâneo com o universo começando a existir? Quando mais poderia ser? Certamente nem antes nem depois! Alguns filósofos, portanto, tem argumentado que toda causalidade é ultimamente causalidade simultânea. Até mesmo a física algumas vezes fala sobre “causas de contatos” as quais não operam até que as partículas entrem em contato umas com as outras. Se Deus causando o universo a começar a existir e o universo começando a existir são simultâneos (ou coincidentes), então não há problema em afirmar que todas as causas são temporalmente localizadas e que Deus é a causa do universo.

Eu acho que você pode ver que o problema é muito mais complicado do que ou você ou seu amigo imaginam. A lição a ser aprendida disto é que as coisas não são normalmente tão simples quanto parecem. Nós precisamos evitar dicotomias simplistas e nos familiarizar com muitas das opções abertas ao teísta cristão relacionadas as várias discussões. Isso nos ajudará a abrir um leque de alternativas para o descrente na esperança dele poder encontrar pelo menos uma delas plausível.

Mas se ele não encontrar, pior para ele! Isso não mostra que sua resposta não é boa.

William Lane Craig