Fé cega?

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Fé cega?

Em 21 de outubro de 2013, você respondeu à pergunta de um cristão de longo tempo que disse que estava tendo dificuldade em manter a fé por estar lendo material escrito por pessoas como Richard Dawkins e por discussões que teve com amigos ateístas (Pergunta # 340). Você repreendeu esta pessoa e outros cristãos como este fortemente pela “forma arrogante” na qual “se expõem a materiais que são potencialmente destrutivos”. Na sua lista resumida de sugestões de como lidar com esse problema, um de seus pontos foi: “Pare de ler e assistir o material infiel que você vem absorvendo. Confesse sua imprudência e irresponsabilidade para Deus. Nota: Eu não estou dizendo pare de fazer perguntas. Eu estou dizendo, pare de ir para as pessoas erradas para obter respostas”.

Pessoalmente, eu não entendo qual é o valor de se fazer perguntas se você considera que qualquer pessoa que não concorde com as respostas que você já tem são “as pessoas erradas”. Mas este não é o meu ponto principal. Eu estou mais preocupado com a primeira frase, que me parece mais com algo que você pode escutar de um alguém do ISIS [Estado Islâmico] do que de um proeminente filósofo Cristão, que acredita tão fortemente que o cristianismo é uma fé racional [ou razoável]. Se o cristianismo verdadeiramente é consistente com a própria realidade, então ele não deveria se sustentar com um exame minucioso?

Finalmente, a pergunta se resume a isto; o conhecimento é sempre uma coisa ruim? Não seria melhor para as pessoas de fé aprender quais são os argumentos opostos ou contrários e tomar sua própria decisão informada sobre se esses argumentos são falaciosos (talvez usando suas refutações para informar a decisão deles, mas ainda com uma exposição a priori a argumentos contrários), do que só acreditar na sua palavra e fazer uma rejeição de sua validade sem mesmo vê-los? O que você diria sobre um ateísta que rejeite os argumentos cristãos da mesma forma? Você acredita que Deus quer que as pessoas o sigam através de uma fé cega? Se não, o que distingue “Pare de ler e assistir o material infiel que você vem absorvendo” de uma fé cega?

Tim
Estados Unidos

Rwanda

Isto me deixa surpreso, Tim, que qualquer pessoa que pense bem poderia discordar com que eu disse sobre a imprudência de cristãos imaturos expondo-se a material que colocaria em risco suas vidas espirituais. Os pais não deixam seus filhos ir ao fundo da piscina até eles serem ensinados a nadar. As Forças Armadas não enviam professores e contadores ao campo de batalha até eles passarem por um treinamento básico. Isto é apenas o senso comum. Você não expõe pessoas ao perigo até que elas estejam equipadas para lidar com ele.

Ficou evidente naquela carta que o autor anônimo da Pergunta # 340 era um cristão mal equipado que sabia muito pouco ou nada de teologia natural, não tinha nenhuma compreensão da doutrina da providência divina, e não podia nem soletrar “intervir”. Tal pessoa não tem preparação para ler leu ou escutar os materiais que menciona.

Recentemente, eu fiquei impressionado com o seguinte comentário no Facebook sobre Kevin Harris e meu podcast sobre a entrevista entre Richard Dawkins e Ricky Gervais:

Já faz muito tempo desde a última vez que eu escutei pessoas como Richard Dawkins e Ricky Gervais, que eu era amedrontado com as conversas anti-intelectuais, superficiais, populistas e baboseiras de adolescentes, revisadas neste podcast. ISTO deveria ser o pensamento erudito, ‘pensamento racional’? Mas então eu precisei me lembrar que eu costumava achar isto atraente também. Graças a Deus por pessoas como William Lane Craig, que estão preparadas para falar e expor as falácias, falsas informações, e francamente arrogância e argumentação hipócrita destes Novos Ateístas ‘estrelas do rock’.

Eu fiquei especialmente tranquilo com a frase que já enfatizei, "Eu costumava achar isto atraente também." Muitas pessoas não estão prontas para enfrentar tal material enganoso.

Agora talvez você não seja tal pessoa. Então, siga em frente (com cuidado apropriado e atenção à sua alma)! Um policial que foi treinado em detonar com segurança um dispositivo explosivo pode e deve realizar tarefas que aqueles de nós que não tão treinado devem evitar.

Então, para lidar com sua preocupação menor primeiro: Qual é o valor de se fazer perguntas se você considera que qualquer pessoa que não concorde com as respostas que você já tem são ‘as pessoas erradas’? Esta é uma pergunta complexa (exemplo, você já parou de bater na sua esposa?). Ela é baseada em falsas suposições.

Em primeiro lugar, um cristão pode não ter qualquer resposta à sua pergunta. Veja as perguntas que recebemos semanalmente neste site. Muitas pessoas não sabem as respostas para as perguntas que as incomodam e podem nem mesmo estar cientes das alternativas. Então, obviamente, ao fazerem sua pergunta para outro cristão em quem confiam, elas não estão fazendo a pergunta para quem já concorda com a resposta que elas já têm.

Em segundo lugar, sua pergunta não aprecia o grau com o qual os cristãos discordam uns dos outros em muitas grandes perguntas. Se alguém tiver uma pergunta, por exemplo, sobre a alegada incompatibilidade da presciência divina e liberdade humana, então ele será confrontado com cerca de dez respostas diferentes de pensadores cristãos. A Weltanschauung [cosmovisão] cristã é uma grande tenda que inclui uma diversidade de perspectivas mesmo se estamos unidos nas essenciais.

Em terceiro lugar, como alguém que tem estado envolvido profissionalmente em educação cristã, estou firmemente convencido, Tim, que você vai ter um tratamento mais minucioso e rigoroso de suas perguntas de pensadores cristãos do que de nossos colegas seculares. Em um curso de filosofia da religião, ministrado por um filósofo cristão, você ouvirá as posições apresentadas mais equitativamente e as objeções a eles apresentado mais vigorosamente do que você ouvirá em uma aula ministrada por um filósofo secular, que geralmente trata as questões superficialmente e com desdém.

Então, há valor inestimável em fazer perguntas para outro cristão que é bem treinado em seu campo.

Agora a sua grande preocupação: "Se o cristianismo verdadeiramente é consistente com a própria realidade, então ele não deveria se sustentar com um exame minucioso?" Sim, se o exame minucioso é feito por uma pessoa perfeitamente racional que está completamente informada dos fatos. Mas meu ponto é, precisamente, que nós não somos tais pessoas, e algumas são tão mal informadas e filosoficamente destreinadas que correm o risco de autodestruição por desviar-se da verdade e vagar no erro, como um deficiente visual tentando andar por um campo minado. Eu sei, Tim, que você não mandaria um homem cego para um campo minado para tentar superar-se, mas você forneceria, se você pudesse, um guia confiável ou então orientá-lo para que ele saísse de lá inteiro.

A questão não é ultimamente, "o conhecimento é sempre uma coisa ruim?" Ao invés disso é eu sou suficientemente bem treinado e informado para discernir a verdade do erro, para detectar falácias lógicas e para detectar erros factuais quando eles são feitos? Muitas pessoas não são tão equipadas quando se trata de assuntos relativos ao cristianismo.

Você pergunta, “Não seria melhor para as pessoas de fé aprender quais são os argumentos opostos ou contrários e tomar sua própria decisão informada sobre se esses argumentos são falaciosos (talvez usando suas refutações para informar a decisão deles, mas ainda com uma exposição a priori a argumentos contrários), do que só acreditar na sua palavra e fazer uma rejeição de sua validade sem mesmo vê-los?”

Esta é uma falsa dicotomia, Tim, como um pouco de reflexão revela. A primeira alternativa é precisamente a opção que meus alunos de filosofia na Talbot School of Theology e Houston Baptist University tem escolhido. Eles são os afortunados.

Mas a maioria dos homens e mulheres não tem tempo e dinheiro para tal estudo dedicado. Estamos preocupados ao invés com alguém como o autor anônimo da Pergunta # 340, que é um ignorante cristão leigo aventurando-se em se auto educar lendo materiais na internet. Assim como seria melhor para o homem cego considerar a sua palavra que há um perigoso campo minado logo à frente sem investigar por si mesmo, da mesma forma seria melhor para o cristão imaturo considerar a palavra de um cristão acadêmico confiável do que arriscar sua alma tentando ler e refutar materiais ateístas que ele não está equipado para lidar com.

Você pergunta, “Você acredita que Deus quer que as pessoas o sigam através de uma fé cega? Se não, o que distingue “Pare de ler e assistir o material infiel que você vem absorvendo” de uma fé cega?” Não, eu não sou um fideísta, como você pode prontamente discernir a partir da leitura do meu capítulo sobre Fé e Razão no livro Reasonable Faith. Considero que nós cristãos temos um duplo mandato para a verdade da nossa fé: (i) argumentos e evidências que garantem as verdades centrais do cristianismo e (ii) o testemunho interior do espírito de Deus que as reivindicações centrais do Evangelho são verdadeiras.

Agora como é que um crente imaturo evitando a leitura de material infiel (não tenho certeza se você está ciente, Tim, que "infiel" é um termo de autodesignação por aqueles na web secular) de alguma forma endossa o fideísmo? Tal pessoa pode ler autores cristãos a fim de tornar-se informado sobre uma defesa comprobatória para sua fé e respostas para os supostos derrotadores. De fato, com o tempo ele pode estar pronto para entrar no campo de batalha e lidar com o material de infiel. Mas mesmo se ele permanecer ignorante, isso não faz sua fé cega, pois ainda repousa no, ou é embasada pelo, testemunho do Espírito Santo. Como epistemólogos da Reforma nos lembram, isto está distante do fideísmo.

Finalmente, "O que você diria sobre um ateísta que rejeite os argumentos cristãos da mesma forma?" Eu diria que o ateu não possui, em sua própria visão, nada comparável com a testemunha do Espírito Santo, que poderia tornar o ateísmo uma crença particularmente básica. Então ele tem que confiar em argumentos e evidências sozinhos para garantir sua crença ateísta. Então ele tem que considerar ambos os lados do caso. Desde que o ateísmo não é uma crença particularmente básica para um adulto normalmente estabelecido, para ele ignorar a evidência para o cristianismo seria, de fato, fé cega.

William Lane Craig