Intransigência sobre Valores Morais Objetivos

#432

Intransigência sobre Valores Morais Objetivos

Saudações,

Nas últimas semanas estive lendo o Em Guarda (e nem preciso mencionar que fiquei emocionada ao lê-lo, da mesma forma que fiquei quando li Reasonable Faith. Recentemente, eu tive uma conversa com um colega estudante da nossa universidade local. Ele sabia que sou cristã e, como o tópico de nossa conversa foi desviado para valores e ética, eu comecei a questioná-lo sobre sua crença na existência de valores subjetivos e objetivos, baseados nas seguintes premissas:

1 - Se Deus não existe, então valores objetivos não existem.

2 - Valores objetivos existem.

3 - Portanto, Deus existe.

Foi uma conversação difícil (embora cordial), e estou muito contente por meu amigo ainda estar interessado em continuar a conversa de onde paramos (já são mais de 3 da manhã aqui na Alemanha) - surpreendentemente, ele estava bastante atraído pelo debate, tomou seu tempo para elaborar as respostas, e ele mesmo sugeriu que o debate fosse continuado em breve. (Estou orando para que ele encontre Cristo).

Então, eu tenho algumas perguntas: Esta pessoa não é antipática, mas na verdade é no geral mais gentil que a maioria das pessoas que já conheci.

Porém, ele aparenta a se agarrar à crença de que valores objetivos não existem - porque por mais ruim que achemos que uma ação possa ser, nunca haverá um consenso universal dela ser ruim.

Eu tentei explicar que isso estaria tendendo à esfera dos valores subjetivos - por exemplo, mesmo se todos na terra tivessem sofrido lavagem cerebral e fossem persuadidos pelo socialismo nacional (condição na qual o mundo inteiro estaria sujeito a um valor subjetivo), isso não mudaria o fato de que objetivamente falando, o holocausto ainda estaria errado (assim como, enquanto o mundo inteiro pensava que a terra era plana, objetivamente permanecia o fato de que ela era redonda, não plana, mesmo quando ninguém acreditava nisso). Ele não discordou nisso, no entanto ele ainda não estava convencido da existência de valores objetivos, dizendo que objetividade só se aplica a fatos, e não a valores.

Como eu poderia responder a isso?

Meu amigo também não vê nenhum “problema” com a suposição naturalista de que sem Deus o naturalismo reina e a moralidade é uma ilusão (Embora ele admita que essa é uma dura verdade) - e embora eu contra argumentei com argumentos naturalistas, Darwinistas e evolucionários (o tubarão forçando a fêmea para acasalar, a humanidade comparada como abelhas em uma colmeia, o auto-sacrifício do babuíno como igual aos valores condicionados do homem, etc.), ele ainda se atém a essa cosmovisão naturalista. ( Eu também poderia acrescentar que ele vem de cultura chinesa, embora ele não seja religioso. Eu nem mesmo sei se ele é um agnóstico ou um ateísta, mas estou destinada e descobrir em breve.

Há algum argumento ou exemplo que eu poderia usar que seja capaz de abrir seus olhos? Como devo proceder para continuar adequadamente essa conversa?

É a primeira vez que tenho a coragem de aventurar-se no domínio do debate filosófico - e me sinto muito incompetente, já que sou nova em tudo isso.

Eu ficaria muito grata pela ajuda (e orações)!

Sinceramente,

Christina,

Alemanha

Germany

Disseram-me que a atitude de não haver valores morais ou deveres objetivos é bastante espalhada entre os jovens na Alemanha, Christina. Acho isso surpreendente, quase chocante, em um país que experimentou os horrores do Nazismo, incluindo o Holocausto. É incrível que pessoas acreditariam sinceramente que uma atrocidade como essa é moralmente indiferente.

Isso me faz pensar se essas pessoas estão apenas assumindo a verdade do ateísmo, porque se estiverem, então eu concordo com eles na suposição de que não existem valores e deveres morais objetivos. Isso é só a premissa (1) do argumento! Então eu, como seu amigo, não “vemos nenhum “problema” com a suposição naturalista de que sem Deus o naturalismo reina e a moralidade é uma ilusão.” Você não deve tentar contrariar essa crença, mas reforçá-la.

Mas a questão é que o naturalismo não pode ser assumido como verdadeiro, pois tal suposição seria uma petição de princípio. Precisamos nos perguntar, deixando de lado a hipótese do ateísmo, valores e deveres morais existem? Na experiência moral descobrimos que vários valores e deveres se apresentam como objetivamente ligados e verdadeiros. Então, por que negar essa experiência?

O argumento do seu amigo de que “valores objetivos não existem - porque por mais ruim que achemos que uma ação possa ser, nunca haverá um consenso universal dela ser ruim” é um argumento ruim, como você aponta. Ele está confundindo objetividade com universalidade. Mas universalidade não é um condição necessária nem suficiente de objetividade. Assim como eu não permito a incapacidade de uma pessoa cega em não observar uma árvore me levar a duvidar da realidade objetiva do que eu vejo claramente, então eu não deveria deixar a cegueira moral do líder criminoso de guerra nazista me fazer duvidar que o Holocausto foi perverso. Achar que a falta de consenso universal enfraquece objetividade é confundir epistemologia moral com a ontologia moral.

Agora parece que seu amigo foi convencido pela sua resposta à objeção dele - parabéns, Christina! Isso é progresso! Mas agora ele volta com uma nova objeção: “objetividade só se aplica aos fatos, não aos valores.” Ao contrário da primeira objeção, esta alegação não é um argumento, mas apenas uma reafirmação de subjetivismo moral. Só diz em outras palavras que não existem valores e deveres morais objetivos. Mas o que queríamos dele era alguma razão para duvidar das libertações da nossa experiência moral. Ele não forneceu uma.

Vejo que seu amigo é chinês. Se ele foi criado e educado na China, então ele pode muito bem estar pressupondo uma epistemologia positivista extinta, segundo a qual declarações étnicas não fazem afirmações fatuais. Ele precisa entender que esse ponto de vista, popular os anos 30 e 40, foi praticamente universalmente abandonado na filosofia ocidental. Foi enraizada noprincípio da verificação de significado, que considerava que se uma afirmação não pudesse ser verificada empiricamente, era sem sentido e vazia de conteúdo fatual. Esse princípio não foi apenas implausível, consignando vastas extensões de discursos humanos à insignificância, mas também provou-se ser autodestrutivo, já que não pode ser verificado empiricamente por si mesmo e por isso é por suas próprias luzes desprovido de conteúdo verdadeiro.

Então, por que não pode ser um fato que o Holocausto foi perverso? Por que não pode ser um fato que o encarceramento e gaseamento de pessoas inocentes foi errado? Por que não pode ser um fato que a sociedade alemã de hoje é, em geral, moralmente melhor do que era na década de 1930? Esses parecem ser fatos para mim. Um fato é apenas uma afirmação verdadeira. Por que eu deveria pensar que essas afirmações não são verdadeiras?

Louise Anthony, uma não teísta, disse bem em seu debate comigo: “Qualquer argumento para o ceticismo moral vai basear-se em premissas que são menos óbvias do que a realidade dos próprios valores morais”. O ceticismo de seu amigo certamente confirma o que foi dito por ela.

Você pergunta se “Há algum argumento ou exemplo que eu poderia usar que seja capaz de abrir seus olhos<?” Essa é uma pergunta sobre a psicologia pessoal dele. Veja minha Pergunta # 431 relativa a incrédulos que se recusam a serem convencidos. Você está dando a ele bons argumentos e não pode garantir que ele vai achá-los convincentes. Se ele foi criado na China, você pode usar ilustrações de atrocidades morais que possam conectar-se com ele, como o estupro de Nanking pelo Japão Imperial ou a matança de estudantes na praça Tiananmen. Pergunte-lhe se ele acha que estaria tudo bem para ele se traísse seus pais denunciando-os às autoridades governamentais se estivessem secretamente abrigando um refugiado norte-coreano. Lembre-o que ele tem que deixar de lado sua pressuposição de ateísmo ao responder essas questões, uma vez que estamos de acordo que valores e deveres objetivos não existem no ateísmo. Você também pode compartilhar com ele outros argumentos para a existência de Deus, para que ele possa ver que o argumento moral é parte de um poderoso processo cumulativo para o teísmo cristão. E, é claro, continue sendo amigo dele, independentemente do que ele pensa. Esse interesse pessoal pode ser mais eficaz na abertura de seu coração do que os argumentos.

Você está fazendo um ótimo trabalho, Christina! Que Deus te use na vida do teu amigo e além!

William Lane Craig