Perguntas despertadas pela aula de Defenders

#435

Perguntas despertadas pela aula de Defenders

Caro, Dr. Craig, saudações da Tauranga, Nova Zelândia.

Primeiro, eu queria escrever e agradecer a você por fazer com que os podcasts das aulas de Defenders [Defensores] sejam disponíveis gratuitamente no seu site. Eu acho isso estimulante e encorajador.

Eu cresci como um forte ateísta e trabalhei inicialmente como um cientista. Eu tentei o máximo possível desafiar as minhas suposições e pesquisar vigorosamente alternativas para as proposições antes de eu adotá-las, sempre com a condição de que eu talvez mudasse de ideia se uma nova evidencia se apresentasse. Imagine a minha consternação quando, como adulto, eu cheguei a perceber que eu estava errado sobre a existência de Deus, e que ele era real e presente na minha vida!

Embora eu seja um cristão há mais de 25 anos, eu ainda tento ter a mesma abordagem para a minha teologia e quando apresentado com afirmações sobre Deus, eu gosto de saber da evidência para elas e quais são as alternativas. Infelizmente, muitos dos outros cristãos que eu conheço acham isso irritante ou ameaçador, e é sempre encorajador encontrar um espírito parecido com o meu, então eu sou o anfitrião de um pequeno grupo para tais pessoas da minha igreja.

No período passado, eu compartilhei com eles o podcast da sua aula de Defenders 3, Doutrina da Revelação. Foi muito bom, e estamos dispostos a usar mais dos seus podcasts. Eu estava numa longa viagem de carro ontem e aproveitei a oportunidade para ouvir todos os podcasts da Doutrina de Deus disponíveis, o que fez a viagem ser muito mais empolgante, ou eu posso até dizer superempolgante já que ainda estou processando o que eu ouvi!

Nós temos duas perguntas rápidas: Primeiro, a série de Defenders 3 é independente, ou é necessário ouvir as séries 1 e 2, primeiro? Outra coisa, ouvindo aos seus podcasts, nós ouvimos o que parece ser uma caneta escrevendo numa lousa, mas claro que não conseguimos ver o que você está escrevendo! Você já considerou fazer vídeos das suas conversas?

Eu tenho uma pergunta minha mais complexa. Eu percebi que as suas descrições do oni-temporalismo e conhecimento-médio têm desafiado algumas das minhas suposições, mas em vez de achar isso irritante ou ameaçador, eu sou grato de ter os meus horizontes ampliados, e eu estou muito interessado em saber mais. Suspeito que eu tenha que procurar uma cópia do seu livro “Time and Eternity” [Tempo e Eternidade] para uma explicação mais detalhada, mas eu imaginei se você pudesse encontrar um tempo para fornecer uma resposta curta.

Em relação a natureza eterna de Deus, eu me posiciono no que você descreve como atemporal, que Deus existe fora do Tempo como nós o conhecemos. Além disso, eu supus que a presciência de Deus de eventos é o que eu talvez chame de atributo secundário, dependente do seu atributo primário de ser atemporal. Em outras palavras, a presciência dele não é realmente presciência, é pós-ciência que está disponível para ele o tempo todo. Por isso, o fatalismo não me perturba: nós temos total liberdade, Deus vê as nossas escolhas depois que as fazemos, e esse conhecimento está disponível para Deus de uma maneira atemporal.

No entanto, tal ponto de vista não abre espaço para o conhecimento médio; Deus não pode ver o que poderia ter acontecido, somente o que aconteceu. Desse modo, penso que pessoas com um ponto de vista atemporal são mais prováveis para rejeitar o conceito de conhecimento médio quando eles o encontram. Entretanto, ao refletir, penso que eu não tenho uma justificativa forte para considerar a presciência um atributo secundário, só que era mais simples vê-lo dessa forma já que eu tinha um ponto de vista atemporal. Se, em vez disso, eu considerar a presciência de Deus com um atributo primário independente, então, o conceito de conhecimento médio não apresenta grande dificuldade, e fornece uma explicação muito satisfatória para o aspecto inspirado por Deus da escritura como você mostrou em sua série de Doutrina da Revelação, assim como na explicação de textos como 1 Samuel 23:1-13 como você mostrou na 13ª parte da Doutrina de Deus. Então eu estou feliz com a ideia do conhecimento médio.

Mas eu acho a ideia de oni-temporalismo muito mais difícil de entender. Se Deus não criou o tempo, então quem criou? Além disso, os seres temporais não são controlados pelo tempo de certa forma? Como você aponta, Deus ainda teria seu conhecimento perfeito do passado, mas o oni-temporalismo leva a crer que Deus está sob o controle do tempo?

Você também fala da dificuldade de um Deus atemporal saber que tempo é “agora”, mas quando você diz “agora” antes do almoço num dia de verão, eu ouço uns dias depois em uma noite de inverno, o que sinto enfraquecer um pouco a força desse argumento. Eu concordo que a Teoria A (ou a teoria flexiva) é a visão de senso comum do tempo, mas de acordo com o meu senso comum, um relógio no chão ficaria em sincronia com relógios em aviões voando para o leste ou oeste. Ainda assim, o experimento de Hafele Keating de 1971 mostra que o meu senso comum está incorreto, e isso em relação ao relógio do chão, o relógio indo para o oeste ganhou tempo enquanto que o relógio indo para o leste perdeu tempo. Então qual desses relógios Deus concordaria que representaria o “agora”?

Você também diz que acha ofensivo que em certo sentido a crucificação nunca passa. Vamos dizer que já faz 1.982 anos desde a crucificação (2015-33 d.C.). Se eu me imaginar no espaço, a 1.982 anos-luz da Terra e olhar pelo telescópio superpoderoso na minha espaçonave, eu não veria Jesus pendurado na cruz agora? E creio pela fé que qualquer pecado que eu cometa na espaçonave de certa forma já estará pago pela crucificação que eu estou vendo agora pelo telescópio.

Então a minha pergunta é: esses pensamentos são válidos para serem ponderados quando eu considero atemporalismo e a Teoria B aflexiva contra o oni-temporalismo, ou eu não compreendi o debate?

Saudações,

Darren

Nova Zelândia

New Zealand

A sua pergunta, Darren, dá a oportunidade de dizer para as pessoas sobre a nossa maravilhosa aula de Defenders sobre a doutrina cristã e apologética. Eu ensino essa aula de 35 minutos semanalmente, todos os domingos às 11:40h da manhã no fuso horário da costa leste dos EUA. O discurso é transmitido ao vivo na internet para que igrejas e indivíduos que possam se juntar a nós possam fazer parte da aula ao vivo. Isso é um grande recurso para as igrejas que não tem um professor local que possa ensinar sobre esses assuntos. A aula é gravada e são feitos podcasts na semana seguinte tanto nos formatos vídeo como em áudio. Os discursos são transcritos para que se possa estudar as lições sem precisar ouvir a aula. As transcrições são especialmente recursos valiosos para aqueles que querem realmente estudar o material. Todos esses recursos estão disponíveis de graça no nosso site.

O currículo do Defenders engloba todas as principais áreas da teologia sistemática, da Doutrina da Revelação até a Doutrina de Deus para a Doutrina da Salvação para a Doutrina das Últimas Coisas [Escatologia]. Como você vê, nós já passamos pela série inteira de discursos duas vezes, que estão arquivadas no site como Defenders I e Defenders II. Defenders III, a série atual, ainda está perto do começo, então para alguém que está interessado em aprender sobre os tópicos que ainda vão ser falados devem consultar Defenders II, que já está completa. Defenders III não pressupõe qualquer conhecimento das séries anteriores e difere daquelas somente quando os meus pensamentos sobre os assuntos continuam a ser desenvolvidos. (Já que as aulas são gravadas diante de um público, elas diferirão, obviamente, nas questões levantadas pelos membros da sala e as minhas respostas a eles). Porque nós não temos prazos, nós podemos nos dar ao luxo de passar quanto tempo quisermos em cada tópico. Tendo ensinado e ido a seminários por muitos anos, eu posso afirmar que uma pessoa que completa a série inteira de Defenders irá ser melhor educado sobre a doutrina cristã que qualquer graduando da maioria dos nossos seminários evangélicos.

Agora em relação a sua “pergunta complexa”, eu acredito que você tenha, de fato, não compreendido uma série de coisas. Primeiro, a atemporalidade divina não exclui de forma alguma o conhecimento médio. Luis Molina afirmou que Deus é atemporal, e eu também afirmo que Deus existindo sozinho sem a criação é atemporal. Não há por que pensar que em tal situação Deus não tenha conhecimentos de todos os contrafatuais de liberdade da criatura sobre o que as pessoas fariam em qualquer conjunto de circunstâncias. Quando você diz “Deus não pode ver o que poderia ter acontecido”, isso só mostra o conhecimento natural de Deus de todas as possibilidades; e o seu conhecimento médio do que as criaturas livremente fariam sob várias circunstâncias não é parte do que Aquinas chamou de scientia visionis (conhecimento da visão) de Deus, ou do que Molina chamou de conhecimento livre de Deus (o conhecimento Dele de tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá).

Na minha visão, Deus cria o tempo e entra nele em virtude da relação real Dele com o mundo e o Seu conhecimento de fatos flexivos como “o cometa Halley está se aproximando da Terra”. Ele é o Senhor do tempo, mas condescende ao nosso modo temporal de existência para o nosso bem e nossa salvação.

Sim, você precisa ler Time and Eternity [Tempo e Eternidade] (Crossway, 2001) para ter uma resposta completa da sua pergunta sobre a relatividade das nossas medições do tempo e qual tempo é o tempo de Deus. De maneira simples, eu penso que a relatividade descreve o comportamento dos nossos relógios, não do tempo em si, e para uma medida do tempo de Deus nós precisamos de um relógio independente, como é dado pela expansão do universo.

Parte da minha crítica teológica da teoria aflexiva (ou Teoria B) do tempo, de acordo com a qual se tornar temporal [temporal becoming] é uma ilusão, é de que a vitória da ressureição é oca porque a crucificação nunca é deixada para lá. Essa permanência não é comparável para alguém que está a muitos anos luz de distância da Terra e está percebendo agora eventos que ocorreram 2.000 anos atrás, que terminou e passou em uma Teoria A do tempo, assim como nós observamos agora a supernova que aconteceu há milhões de anos em estrelas que não existem mais. O fato de que o sacrifício expiatório de Cristo ter sido feito e agora tem ressuscitado, não afeta a eficácia desse sacrifício para qualquer pecado que as pessoas possam cometer.

William Lane Craig