Pessimismo Cristão?

#439

Pessimismo Cristão?

Caro Dr. Craig

Oi, eu sou um australiano que se converteu ao Cristianismo há aproximadamente um ano atrás depois de ler o livro de Richard Dawkins ‘Deus um delírio’. Desde que eu li esse livro, eu fiquei interessado no Cristianismo e então depois de três a quatro meses de pesquisa eu cheguei à conclusão de que o Cristianismo é a mais provável cosmovisão, é por isso que sou um Cristão.

Ao longo do último ano, eu continuei a pesquisar por respostas para as minhas maiores perguntas lendo os trabalhos de pessoas como você, Ravi Zacharias, Alvin Plantinga, John Lennox, Hugh Ross, Timothy Keller e muitos outros. Em todas as minhas muitas horas de pesquisa, eu ainda tenho que encontrar uma resposta direta para a pergunta que eu vou falar agora.

Qual é o propósito final do Cristianismo e da raça humana?

Eu tenho lido algumas das suas respostas indiretas a essa pergunta como “conhecer e amar Deus”, embora como eu disse, isso não responde diretamente minha pergunta.

Eu estou perguntando isso porque eu acredito que eu estou verdadeiramente preparado neste momento a seguir o cristianismo, mas eu devo ter essa questão respondida antes que eu posso dedicar minha vontade a fazer a vontade de Deus. Ainda mais importante, estou fazendo esta pergunta porque eu tenho um problema com a opinião teológica fatalista/determinista de responder esta pergunta.

Até onde eu sei, algumas pessoas na igreja acreditam que inevitavelmente chegará um dia quando a humanidade inevitavelmente cai nas trevas e nesse momento Deus vem nos salvar e nos levar a um novo mundo. Esta visão, no entanto, eu acho muito contraditória e falha. Se ela é verdadeira, então a promessa de Deus que ele estará conosco através de nossa jornada para “fazer discípulos de todas as nações” é uma completa mentira já que esta missão está inevitavelmente fadada ao fracasso.

Além do mais, esta visão faz todo o esforço humano sem sentido já que nós estamos novamente condenados desde o início. Contrariamente a isto, eu tenho tido a impressão de que é possível que nós “façamos discípulos de todas as nações”. Infelizmente, se esta opinião for verdadeira, então eu deixarei o cristianismo e ponto final, sem mas. Não me entenda mal, eu amo a Deus, mas eu amo mais a humanidade. É por isso que eu não posso aceitar uma religião com tais pontos de vista. Eu sinceramente espero que sua resposta [não] me force a deixar o cristianismo.

Saudações,

Edward

Austrália

Rwanda

Eu não pude deixar de sorrir, Edward, quando eu li seu parágrafo de abertura. Eu certamente espero que você tenha escrito uma linha para Richard Dawkins para informá-lo de sua influência em sua vida.

Na sua carta, você nem sempre se expressou claramente como alguém pode esperar (por exemplo, sua última sentença!), mas eu farei meu melhor para interpretar você corretamente.

Você quer uma resposta direta à pergunta: “Qual é o propósito final do cristianismo e da raça humana?” Isto é na verdade duas perguntas. Como você observa, eu tenho diretamente respondido a segunda parte da sua pergunta com as palavras do catecismo de Westminster: O fim supremo e principal (propósito final) do homem (a raça humana) é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. Você não consegue obter algo muito mais direto do que isso.

Ao que me parece, o que preocupa você é a primeira parte da pergunta: “Qual o propósito final do cristianismo?”. Mas é difícil saber até mesmo o que esta pergunta significa. A partir da sua carta, parece que o que você está perguntando é sobre o movimento no mundo que atende pelo nome de Cristianismo. Isto é, de acordo com o uso do grande historiador da igreja Kenneth Scott Latourette no título de sua monumental obra de sete volumes A History of the Expansion of Christianity [A História da Expansão do Cristianismo]. Latourette detalha como o cristianismo em 20 séculos tem se espalhado desde seu início auspicioso no primeiro século da Palestina até um movimento que tem preenchido o mundo, tornando-se o maior movimento da história da humanidade, trazendo um bem incalculável para esse mundo. Você seria grandiosamente animado pela leitura dessa obra.

O que eu acho que está incomodando você é o pessimismo de alguns cristãos sobre o resultado final deste movimento. Você relata, “Até onde eu sei, algumas pessoas na igreja acreditam que inevitavelmente chegará um dia quando a humanidade inevitavelmente cai nas trevas e nesse momento Deus vem nos salvar e nos levar a um novo mundo”. Eu suspeito que você esteja se referindo a doutrina do arrebatamento: que antes do retorno final de Cristo, ele virá para arrebatar cristãos fiéis para fora deste mundo, já que ele mundo será lançado em guerra e apostasia. Como eu expliquei em minhas aulas da série Defenders sobre as “Últimas coisas”, esta visão é uma novidade relativamente recente na história da igreja, que, apesar de amplamente espalhada nas igrejas evangélicas, não representa a visão da maioria dos cristãos. Eu argumento que a Bíblia não sabe de nada de um retorno preliminar de Cristo antes de seu retorno final.

Mas uma palavra de correção parecer ser bem colocada aqui: você está preocupado com a natureza “fatalista/determinista” desta visão, uma preocupação que está expressa no seu uso da palavra “inevitavelmente” duas vezes na mesma frase para caracterizar esta doutrina. Eu acho que isto é injusto. Não há razão para pensar que esses eventos, embora alegadamente profetizados, ocorrerão inevitavelmente ou estão fadados ou determinados a ocorrer, mais do que qualquer evento profetizado como a traição de Judas ou a negação de Cristo por Pedro foram fadados ou inevitáveis.

Estes eventos poderiam ser evitados se as pessoas envolvidas escolhessem livremente fazer o contrário (de forma diferente), como elas são capazes de fazer. Deus apenas sabe que elas não irão e então profetiza o resultado das suas livres escolhas. Se este é o seu receio, então, suas preocupações são infundadas. Você se beneficiaria, nesse caso, da leitura do meu tratamento do fatalismo teológico em The Only Wise God [O Único Deus Sábio].

Portanto, as pessoas que acreditam que haverá uma apostasia da fé no final não necessariamente acreditam que a missão da Igreja para fazer discípulos de todas as nações “está inevitavelmente fadada ao fracasso”, nem é correto dizer que “esta visão faz todo o esforço humano sem sentido já que nós estamos novamente condenados desde o início”. Esta forma de falar de estar “fadado/condenado” (se sua ou de seus amigos) é apenas inadequada. O que vai acontecer já é sabido por Deus, mas isto não torna essas coisas inevitáveis ou fadadas a ocorrer. Ocorrerá e ocorrerá eventualmente.

Mas talvez esta linguagem apocalíptica é só um floreio retórico da sua parte. Talvez sua preocupação é realmente com o pessimismo sobre o futuro representado por tal visão. Você acredita que a Igreja será bem sucedida no cumprimento da Grande Comissão para fazer discípulos de todas as nações. Se sim, então você vai encontrar-se atraído pela visão chamada de pós-milenismo, que tem uma visão muito otimista da missão da Igreja. Novamente, veja minhas aulas da série Defenders sobre as “Últimas coisas”. A questão é que os cristãos têm diferentes visões sobre as últimas coisas, de modo que você não precisa pensar que o cristianismo é uma religião que tem apenas uma visão disponível.

Como você, eu sou cautelosamente otimista de que a Igreja será bem-sucedida em sua missão de trazer para o Reino uma grande colheita de cada tribo e língua e povos e nações (Apocalipse 5.9). Logo após Sua pessimista fala sobre “a porta estreita” que leva a salvação, Jesus passou a emitir esta ressalva otimista, “E virão do oriente, e do ocidente, e do norte, e do sul, e assentar-se-ão à mesa no reino de Deus” (Lucas 13:29). A declaração pessimista de Jesus sobre aqueles que não conseguiram entrar parecia ter sido dirigida a seus contemporâneos (Lucas 13:26).

Com toda justiça, também, os proponentes da visão do arrebatamento também acham que a Igreja será bem-sucedida na sua missão de fazer discípulos de todas as nações. Eles apenas acreditam que logo no final haverá uma apostasia. Que dificilmente pode ser colocada como “sem sentido” a conversão de bilhões de pessoas que virão a fé em Cristo e que encontraram a vida eterna no caminho antes da chegada do fim.

O que me preocupa na sua carta, Edward, é a sua assertiva de que “se esta opinião for verdadeira, então eu deixarei o cristianismo e ponto final, sem mas.” Agora espere! “Se for verdadeira [...]!” Você está disposto a se opor a verdade baseado nas suas preferências pessoais? Se você não gosta de uma visão religiosa, então mesmo se for verdadeira, você se afastará dela? Eu acho isso incrível. Por que a verdade deve se manter refém dos nossos gostos e desgostos pessoas? Por que o cristianismo deve se adequar ao que eu gosto?

Sua garantia de que “eu amo a Deus, mas eu amo mais a humanidade” não me tranquiliza. Edward, esta é literalmente uma expressão de idolatria. De acordo com Jesus os dois maiores mandamentos são: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Marcos 12:30,31). Nós devemos entender a ordem correta porque se nós alterarmos algo, nossas prioridades e nossos amores serão desordenados.

Felizmente nós não precisamos fazer uma escolha entre amar a Deus e amar a humanidade. Como Jesus ensinou, nós devemos fazer ambos. Um amor genuíno pelas pessoas fluirá de um coração que ama a Deus e conhece a Deus.

Enfim, Edward, há muito espaço no cristianismo para alguém que é otimista sobre a missão da Igreja. Mas o mais importante é colocar nossos amores em ordem e nossas mentes submissas a verdade.

William Lane Craig