Ressalvas sobre o Argumento Ontológico

#440

Ressalvas sobre o Argumento Ontológico

Caro Dr. Craig,

Eu tenho uma ressalva em relação ao argumento Ontológico da forma que você defende.

Você identifica a primeira premissa a qual diz que é possível que um ser maximamente grande exista, como a controversa. Você a defende como mais plausivelmente verdadeira do que falsa com dois sub-argumentos. O primeiro destes é que a noção de um ser maximamente grande parece ser coerente, e que isto implica que tal ser é possível. A segunda é uma súplica a outros argumentos teístas; que a plausibilidade deles mostra que é pelo menos possível para um ser metafisicamente necessário existir.

Nós podemos argumentar contra o primeiro sub-argumento, que a noção de um ser maximamente grande parece ser coerente e, portanto, é possível, da seguinte forma. Este sub-argumento requer que conceptibilidade, ou coerência conceitual, implique uma possibilidade metafísica. Mas nós temos uma boa razão para pensar que isto seja falso.

Defina A como algo que seja possível, mas que nunca existiu, como uma fênix ou alguém que possa levantar mais de 70000kg. Defina B como um A que tem uma característica adicional de ser real, de existir no mundo real; assim uma fênix que existe no mundo real. Não há nada de incoerente no conceito de B, é apenas um A que é real, é completamente concebível. Mas não é possível para B existir, já que A nunca existiu e uma característica necessária de B é que A é real. Então nós temos (B) que, enquanto um conceito coerente, não é possível.

Esta objeção tenta mostrar que conceptibilidade não é um guia para possiblidade. E enquanto isto é drástico, já que todos nós usamos tal guia todos os dias, parece que é uma objeção sólida e se bem-sucedida enfraqueceria o argumento ontológico substancialmente.

Eu agradeceria muito se você respondesse a esta objeção, já que não tenho sido capaz de pensar em uma resposta satisfatória para ela. Além do mais, muito obrigado pelo seu trabalho sobre o argumento cosmológico Kalam; eu o acho fascinante e estou quase convencido por ele. Por favor, ore pela minha conversão.

Saudações,

Jason

Reino Unido

United Kingdom

Obrigado, Jason, pela sua pergunta! Sinto-me encorajado pela sua abertura a Deus, e em resposta ao seu último pedido, ofereci uma oração silenciosa para você antes de começar a escrever esta resposta. Que você possa abrir seu coração ao Senhor enquanto Ele convence você de sua necessidade e o atraia graciosamente a Ele!

Sua ressalva sobre minha primeira justificativa para a possibilidade de um ser maximamente grande (isto é, um ser que é onipotente, onisciente e moralmente perfeito em todos mundos possíveis) é que a coerência não é um bom guia para possibilidade. Agora em certo sentido esta objeção é apenas mal concebida: no debate contemporâneo ser logicamente coerente é apenas ser logicamente possível. Não é tão difícil, um é um guia para o outro; eles são apenas termos sinônimos. Ninguém diria que algo que é logicamente coerente seria logicamente impossível.

Sua ressalva é realmente sobre a confiabilidade das nossas intuições modais. Algo pode parecer logicamente coerente ou possível para nós e ainda realmente não ser assim. Mas isso não é parte do argumento ontológico afirmar que nossas intuições modais são infalíveis ou irrevogáveis. A questão é se seu cenário deveria pôr em causa a nossa intuição de que a grandeza máxima é possivelmente exemplificada.

Seu cenário imaginado é bastante semelhante à objeção do falecido filósofo J. Howard Sobel. Sobel nos convida a conceber algo que, se for possível, é um dragão que em qualquer que seja o mundo é o mundo real. Isto é exatamente como a sua “fênix que existe no mundo real” (então você está na companhia de um eminente filósofo em ter suas ressalvas!) Se tal coisa é possível, então um dragão existe. Então, como isto é possível? A única forma de saber, diz Sobel, é olhar ao redor e ver se há qualquer dragão. Se não há, então a noção não é logicamente possível afinal. Você não pode simplesmente confiar nas suas intuições modais.

Agora nós precisamos esclarecer que tipo de ser nós somos chamados para conceber. Por “mundo real” você tem que querer dizer “qualquer mundo é real”. Caso contrário, a analogia para o argumento ontológico cai aos pedaços.1 Você tem que estar falando sobre o conceito de um ser contingente que misteriosamente consegue rastrear qualquer que seja o mundo real a fim de existir no mundo real enquanto não existente em todos os mundos possíveis.

Mas então eu não acho que nós temos qualquer intuição de que tal ser é possível. Pelo contrário, isto soa para mim evidentemente impossível. A ideia de um ser metafisicamente necessário, um ser que existe no mundo real se possível, parece não problemático porque existiria em todos os mundos possíveis e, claro, em qualquer mundo que aconteça de ser real. Mas a ideia de um ser que é contingente e ainda tal que se for possível, existe em qualquer mundo que seja real parece loucura. Seria impossível para uma coisa contingentemente existente garantir a sua realidade.

Portanto, eu não acho que o cenário que você descreve prejudica a confiabilidade de nossas intuições modais sobre a possibilidade de um ser maximamente grande.



1 Se por “mundo atual/real” você quer dizer nosso mundo ou este mundo (chame-o M*), então uma fênix que existe no mundo real é apenas uma fênix que existe em M*. Mas M* não precisa ser real. Se algum outro mundo M¢ é real, então ao se falar sobre a possibilidade de uma fênix que existe em M*, você apenas está comparando dois mundos não-reais uns com os outros e não pode concluir qualquer coisa disso sobre o que realmente existe.

William Lane Craig