Um Darwinista não deve ser cristão?

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Um Darwinista não deve ser cristão?

Querido Dr. William Lane Craig,

Primeiro, eu gostaria de agradecer por todo o trabalho e incentivo que o senhor me deu quando eu era cristão. Faz apenas uns dois dias desde que eu me considero agnóstico, e eu acho que é uma ideia fraca e nova o suficiente para ser quebrada, mas Dr. Craig, alguma coisa destruiu a minha fé.

Como um antigo cristão que ama a ciência, eu fiz meu objetivo mostrar que Cristãos não são cientificamente ignorantes, então eu comecei a ler os livros de Stephen Hawking e Carl Sagan, e me aventurei a ler biologia evolutiva. Eu sabia sobre Richard Dawkins e o quanto suas visões não eram teístas, mas imaginei que contanto que ele escrevesse sobre biologia, não haveria nenhum problema. De forma lenta e progressiva, eu comecei a simplesmente aceitar as teorias de Darwin sobre a Evolução e a Evolução Humana. Mas, então, eu percebi um GRANDE problema com a Evolução Humana e o Teísmo Cristão.

Entenda, com as questões sobre o problema do mal e do sofrimento, houve um momento na história em que Deus tinha tudo certo ou, pelo menos, Adão e Eva não estavam um contra o outro e ainda não haviam pecado. Vamos supor que havia morte animal, mas não havia morte humana nem física, nem espiritual. Essa visão faz sentido, é simples entender e explicar porque há no homem o mal e a morte, as doenças e a selvageria. O nosso pecado. Mas agora, as evidências mostram que os humanos evoluem. Que sempre houve morte e sofrimento, e que em todas as gerações que nós já vivemos, nós tínhamos medo e estávamos sozinhos no universo. Ou eu tinha que descartar Gênesis e seguia para uma fé na qual o seu centro havia sido removido (a queda do homem) ou eu tinha que aceitar a visão de que Deus criou o mundo ruim intencionalmente. Ele quis e criou um universo em que humanos morreriam e sofreriam, independente se eles pecassem ou não. Para mim, isso pareceu ilógico. Eu não escolhi nenhuma das duas idéias e decidi pelo agnosticismo. Eu não quero desistir da minha fé cristã, mas eu tive que fazer isso uma vez que núcleo dela não tinha sentido. Se não houve uma queda do homem, qual pecado existe para sermos salvos? Se a morte sempre esteve presente porque Deus a criou para estar lá, então como poderia o homem ser culpado de alguma coisa? Não faz nenhum sentido.

Anônimo

Estados Unidos

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Eu realmente espero que o seu agnosticismo seja “fraco e novo o suficiente para ser quebrado”, porque, ao que me parece, você está exagerando sobre as questões que você levanta. Vamos supor, hipoteticamente, que “Darwin's Theory of Evolution and Human Evolution” [A Teoria de Darwin sobre a Evolução e a Evolução Humana] esteja correta. Como isso é um derrotador (ou defeater) da fé cristã? Que ajuste isso requer para a cosmovisão cristã? Que Deus não existe? Que Jesus de Nazaré não ressuscitou dos mortos? Claro que não! Como um estudioso do meu trabalho, você deveria ter boas razões para afirmar essas verdades, razões que são independentes e que não são minadas de forma alguma pela explicação padrão das origens evolutivas. Então por que você se desfez dessas crenças tão facilmente?

Suspeito que a razão pela qual a sua fé foi abandonada tão facilmente é porque você tinha uma visão terrivelmente torta e distorcida do que é a cosmovisão cristã. Me desculpe ser tão direto, mas você precisa ouvir isso. A cosmovisão cristã pode ser vista como uma teia de crenças, como uma teia de aranha, com as doutrinas centrais representadas pelos fios mais íntimos da teia e as doutrinas menos importantes representadas pelos fios que radiam do centro da teia para os cantos periféricos. Mudanças nas doutrinas centrais resultarão em grandes repercussões por toda a teia, enquanto que mudanças nas doutrinas menos centrais exigirão ajustes à teia, mas não destruirão a estrutura inteira.

No centro da teia de crenças cristã está tais doutrinas como a existência de Deus, a encarnação e ressureição de Jesus, a pecaminosidade do homem, e assim por diante. A razão pela qual você não pôde desistir por uma crença menor, como o caráter cientifico ou a confiabilidade de Gênesis, mas descartou todo o teísmo cristão, está na sua convicção errada de que o “centro” da cosmovisão cristã é “a queda do homem”, quando a queda do homem é entendida para sugerir não só a doutrina do pecado original, mas também a origem da morte e da doença humana como resultado do pecado humano.

Essa é uma visão terrivelmente distorcida do cristianismo. Nem mesmo a doutrina do pecado original é essencial para o cristianismo, como o exemplo da Ortodoxia Oriental claramente mostra, já que a Ortodoxia não aceita a doutrina católica do pecado original e ainda assim é uma das maiores divisões da Cristandade. Você diz “Se não houve uma queda do homem, qual pecado existe para sermos salvos?” Essa é uma pergunta fácil de responder: o próprio pecado de cada homem. Você dificilmente precisa acreditar na doutrina do pecado original para reconhecer que todos os homens pecaram, e assim precisam do perdão de Deus. Essa é, de fato, a mensagem enfatizada por toda a Bíblia; e não a doutrina do pecado original.

Além disso, a ideia de que a morte física e a doença do homem são resultado do pecado ou da queda, embora defendido pelos Criacionistas da Terra Jovem, não é encontrada no texto bíblico e é amplamente rejeitada pelos muitos cristãos comprometidos (incluindo eu mesmo). Você diz “Se a morte sempre esteve presente porque Deus a criou para estar lá, então como poderia o homem ser culpado de alguma coisa? Não faz nenhum sentido”. Ora, é a sua objeção a qual não faz nenhum sentido. Mesmo que a morte física tenha sempre estado lá, o homem é culpado de assassinato, roubo, inveja, brigas, e de todo o catálogo de pecados humanos. Ter um corpo mortal não faz nada para isentar o homem dos seus pecados.

Agora você pensa que é “ilógico” que Deus “quis e criou um universo em que humanos morreriam e sofreriam, independente se eles haviam pecado ou não”. Bem, espere um pouco! Não se precipite. A visão rejeitada é a de que a morte física e as doenças são o resultado do pecado e da queda. Rejeitar essa visão não sugere que Deus teria criado um universo no qual os humanos morreriam e sofreriam mesmo que não houvesse pecado. Talvez Deus soubesse que o mundo de criaturas mortais seria o tipo de lugar mais apropriado para uma criatura que eventualmente pecaria. Talvez fosse que tal universo seja a melhor arena na qual aconteceria o drama humano do plano de Deus da salvação, incluindo a morte de Cristo na cruz. Este mundo é um tipo de vale de tomada de decisão no qual nós, criaturas mortais, determinamos pelas nossas respostas às iniciativas de Deus, nosso destino eterno. Sofrimento e morte talvez não sejam o resultado do pecado do homem, mas talvez antecipe o pecado do homem.

Muito mais pode e já foi dito sobre isso. Você não mostra ter familiaridade com a vasta literatura dos filósofos cristãos sobre a questão do mal e do sofrimento. Por que não dá uma olhada, para começar, no meu capítulo em Filosofia e Cosmovisão Cristã?

Finalmente, eu sinto que tenho que repreendê-lo pela sua metodologia. Você diz que porque você “queria mostrar que cristãos não são cientificamente ignorantes”, você começou a ler livros de Stephen Hawking, Carl Sagan e Richard Dawkins! O que você estava pensando? Por que você não leu os trabalhos de cientistas cristãos eminentes como George Ellis, Christopher Isham ou Francis Collins, ou melhor, os trabalhos de filósofos cristãos eminentes como Alvin Plantinga, Robin Collins ou Del Ratsch sobre ciência? Esses são os lugares em que você deveria ter aprendido sobre a alfabetização científica dos cristãos, e não a partir dos ataques de seus detratores.

William Lane Craig