Cristo foi um ser contingente?

#445

Cristo foi um ser contingente?

Caro Dr. Craig,

Obrigado por todo o seu trabalho sobre a Filosofia Cristã e Apologética, pois tem influenciado tremendamente a minha caminhada com Cristo. Você é a razão de eu ter decidido estudar Filosofia na minha universidade (Universidade Miami de Ohio para ser exato!)

Minha pergunta para você é sobre o seu modelo proposto da encarnação. O modelo que você propõe concorda com o princípio de que “O que não é assumido, não é salvo”. Então, o Logos (Verbo) assume a natureza humana e tudo que ela envolve. Mas eu estou um pouco confuso, porque me parece que uma parte essencial de ser humano também é ser contingente. É literalmente uma parte da própria essência do humano ser contingente. Se isso é verdade, então parece que Cristo também deve assumir uma contingência para poder nos redimir, já que isso também é uma parte de “O que não é assumido, não é salvo”. Mas isso obviamente parece incompatível com a natureza de Deus a qual é que ele seja necessário. Assim, como exatamente o Logos assume contingência? Meus pensamentos iniciais são que a contingência que Ele assume é o corpo físico de Jesus. O corpo é contingente, mas a alma de Jesus não. Isso parece ser uma explicação fraca, já que as nossas almas também são contingentes. O que pareceria com que o Logos também teria que assumir uma alma contingente (o que é incompatível com o seu modelo porque ele diz que a alma de Jesus era somente o Logos) já que ser humano é ser contingente em todos os aspectos de nós mesmos, inclusive das nossas almas. Como você lida com essa questão?

Também uma observação. Eu estou lutando para entender o papel da teologia filosófica ou apologética na minha vida. Em questões como essa, eu posso me assegurar que mesmo que eu não tenha uma resposta apropriada para o problema, então eu posso descansar no testemunho direto do Espirito Santo de que Jesus era Deus e que Ele morreu na cruz pelos meus pecados e ressuscitou dos mortos. Me parece que a testemunha interior do Espírito de Deus aqui elimina a possibilidade de estudar uma questão como essa. É como se quando eu encaro objeções, eu posso sempre responder “O cristianismo ainda é verdadeiro. A Bíblia declara essas verdades, então não há razão para me preocupar”. Por que não usar esse tipo de resposta para cada objeção que encontro? “Acredite nas escrituras e não se incomode em pensar sobre questões triviais que Deus decidiu não nos revelar!” Isso me parece deter o exercício da apologética e da filosofia no cristianismo. O que você acha?

Austin

Estados Unidos

United States

Me parece que a chave para a sua pergunta, Austin, está em manter claramente em mente a diferença entre a pessoa de Cristo e a natureza humana de Cristo. A pessoa Jesus Cristo é a segunda pessoa da Trindade e é, portanto, divina. Teólogos medievais foram cuidadosos em se referir à encarnação de Cristo como uma pessoa divina, não uma pessoa humana. Sugerir que há uma pessoa humana de Jesus Cristo é dividir a pessoa de Cristo e cair no erro do Nestorianismo, pensar que há duas pessoas, uma humana e uma divina. Não, Cristo é uma pessoa e essa pessoa é divina. Como tal, ele tem todos os atributos da divindade, inclusive a existência necessária.

Mas essa pessoa tem, em virtude da encarnação, duas naturezas: uma humana e uma divina. A ortodoxia requer que nós afirmemos que Cristo teve uma natureza humana completa composta de corpo e alma. A natureza humana individual de Cristo é aquela composição corpo/alma que viveu no primeiro século em Israel, morreu por crucificação e ressuscitou dos mortos. Essa entidade composta não é divina, mas sim humana e, assim, contingente. Essa natureza humana em algum momento ainda não existiu, e há mundos possíveis nos quais nunca existe.

Essa verdade não é negada pela minha sugestão de que a alma da natureza humana era divina. A entidade composta feita de corpo e alma ainda é contingente. Eu discordo que “ser humano é ser contingente em todos os aspectos de nós mesmos, inclusive das nossas almas”. Como eu explico em Filosofia e Cosmovisão Cristã, a Segunda Pessoa da Trindade traz para o corpo de Jesus precisamente essas propriedades, como autoconsciência, racionalidade e vontade livre; isso o permite ter uma verdadeira natureza humana. Claro, minha sugestão implica que enquanto Jesus era verdadeiramente humano, como as crenças afirmam, ele não era meramente humano. Mas todos nós afirmamos isso.

Em relação a sua última preocupação, Austin, todos nós teremos perguntas sem respostas enquanto vivermos. A chave para uma vida cristã vitoriosa não é ter todas as suas perguntas respondidas, mas aprender a viver com as perguntas sem respostas. Devido a presença ou testemunha interno do Espírito Santo, as perguntas sem respostas não precisam se tornar dúvidas destrutivas.

Mas a testemunha do Espírito não leva, de maneira alguma, a uma preguiça intelectual e apatia! Em primeiro lugar, como discípulos de Jesus, nós devemos amar a Deus com toda a nossa mente. Como Santo Anselmo disse, a nossa fé é uma fé que busca entendimento (fides quaerens intellectum). Ninguém que ama a verdade de Deus pode exibir o tipo de indiferença intelectual que você descreve. Uma das maiores vitórias espirituais da vida é buscar persistentemente uma questão que está te perturbando—como, por exemplo, a relação de Deus com o tempo; a encarnação; ou o problema do mal—até que você alcance uma resposta satisfatória. Eu posso testemunhar o quanto isso é uma experiência libertadora.

Em segundo lugar, o engajamento intelectual com nossa fé é vital para o nosso testemunho em uma cultura secular e, algumas vezes, hostil. Os “desprezadores cultos do cristianismo”, como Schleirmacher os chamava, com frequência zombam de cristãos chamando-os de idiotas intelectuais e palhaços. Por isso eu engajo em um ministério de debate com os melhores eruditos seculares dos nossos dias em universidades para pode acabar com essa caricatura e expor a superficialidade de suas críticas. É muito importante, em prol da próxima geração, que os pais articulem com seus filhos sobre o que eles acreditam e o porquê do que eles acreditam, senão nós os perderemos.

Você talvez goste do desafio da minha conversa “Em Neutro Intelectual” http://www.reasonablefaith.org/media/in-intellectual-neutral-johnson-ferry-baptist-church, que encoraja o cristão a engajar intelectualmente com a sua fé.

William Lane Craig