Onipotência e a habilidade de fazer o mal

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Onipotência e a habilidade de fazer o mal

Caro, Dr. Craig,

Primeiramente, eu gostaria de dizer o quando eu gostei de assistir os seus debates e discursos por todos esses anos; você é uma pessoa que tem contribuído definitivamente para eu me tornar profundamente interessado em filosofia, e eu queria agradecer por isso. Embora eu me considere agnóstico, eu concordo com muitas coisas que você diz.

Enfim, a minha pergunta é em relação a um argumento contra a existência de Deus que você com certeza já ouviu; entretanto, eu não vi o argumento articulado de nenhuma forma que eu ache satisfatória.

O argumento é, essencialmente, sobre o problema de Deus poder ou não cometer maus atos (ou até mesmo se isso é um problema).

Se Deus é todo-poderoso, e a habilidade de fazer isso que é objetivamente errado está contido dentro do conceito de um ser todo-poderoso, então deve haver alguns mundos possíveis nos quais Deus, de fato, comete maus atos.

No entanto, isso parece minar a bondade moral perfeita de Deus, já que um ser que somente faz aquilo que é moralmente bom em qualquer mundo possível é concebível e, assim, para que haja alguns mundos possíveis no qual Deus comete maus atos sugeriria que Deus não é o maior ser concebível.

A resposta típica de cristãos para isso parece ser a de que Deus não pode fazer o mal porque Deus tem uma natureza perfeita e, por isso, seria incoerente para Deus fazer o mal.

Dada esse tipo de resposta, eu acho que a pergunta deve ser se a habilidade de fazer o mal está contida dentro do conceito de um ser todo-poderoso ou não. Se está contida, então claramente dizer que Deus não pode cometer maus atos por causa da Sua boa natureza intrínseca é admitir que Deus é um conceito incoerente; o Seu poder absoluto sugeriria a possibilidade do mal, e Sua natureza perfeita sugeriria a impossibilidade do mal.

Mas me parece incoerente afirmar que nós deveríamos compreender da onisciência como não conter, pelo menos, a possibilidade do mal, já que obviamente sabemos a partir da experiência que é logicamente possível para seres em geral fazer maus atos. Então por que, dado que meros humanos podem fazer o mal, seria impossível para um Deus todo-poderoso cometer maus atos também? A única razão parece ser a natureza intrínseca perfeita Dele. Isso concede que, por causa de outra propriedade a qual Deus deve ter, Ele não pode ser verdadeiramente todo-poderoso; duas de Suas propriedades estariam em conflito.

Supõe-se que há um ser que tenha a propriedade da onipotência, mas não tem a propriedade da bondade perfeita. Esse ser claramente teria a habilidade de cometer ações imorais, pois ações imorais são atos logicamente possíveis para seres cometerem. Portanto, o conceito de onipotência por si só deve conter, pelo menos, a possibilidade do mal. É somente quando se adiciona a proposição de que Deus é também intrinsicamente bom que o mal se torna uma impossibilidade. Isso parece criar uma contradição óbvia.

A onipotência sem a bondade intrínseca perfeita sugere a possibilidade do mal, mas a bondade perfeita intrínseca sugere a impossibilidade do mal.

Eu estou muito interessado no que você tem a dizer sobre isso; especialmente a parte sobre a ideia de um ser que é onipotente, mas não tem bondade perfeita. Parece óbvio que esse ser teria a habilidade de cometer maus atos, e isso significaria que a habilidade de cometer maus atos é uma condição necessária para a onipotência e, assim, um Deus que não tem a habilidade de cometer maus atos por causa da propriedade da bondade intrínseca perfeita não pode certamente ser dito que tenha a propriedade da onipotência, pois logicamente não pode haver mais de um conceito possível de onipotência, e o conceito que inclui mais atos logicamente possíveis, me parece, deve ser aceito como o conceito mais preciso.

Saudações,

LB

United States

United States

Obrigado pelas suas gentis palavras, LB! A sua pergunta é respondida no impressionante tratamento da onipotência de Thomas Flint e Alfred Freddoso, “Maximal Power” [Poder Máximo], que você pode achar reimpresso na minha antologia Philosophy of Religion: a Reader and Guide [Filosofia da Religião: um Leitor e Guia] (Edinburgh: Edinburgh University Press, 2002). Eu realmente o encorajaria a ler o artigo deles por você, assim como eu tenho certeza que você achará útil e interessante.

O que Flint e Freddoso mostram é que essa onipotência não deve ser definida em termos da habilidade de certas tarefas. Essa é a pressuposição da sua pergunta. Em vez disso, a onipotência deve ser definida em termos da habilidade de realizar estados de coisas. Sob essa concepção, a sua pergunta então é se a onipotência engloba a habilidade de realizar os estados das coisas Deus fazendo o mal.

Obviamente, por causa da bondade essencial de Deus, tal estado das coisas é amplamente e logicamente impossível. Portanto, a inabilidade de trazer tal estado de coisas não é uma infração [violação] da onipotência.

Perceba que Flint e Freddoso não estão oferecendo uma justificativa da onipotência divina ou do que é ser onipotente para Deus, mas uma justificativa geral da propriedade da onipotência como tal. Um ser onipotente, não importa quem ele seja, não pode ser esperado poder realizar o estado das coisas Deus fazendo o mal. Então, um ser onipotente que não tem uma bondade perfeita, tal qual você pergunta, enquanto ele mesmo consegue fazer o mal, não pode ser esperado trazer um estado das coisas logicamente impossível como Deus fazendo o mal. Assim, a inabilidade dele de realizar tais estados das coisas não fala contra a onipotência dele.

William Lane Craig