Perguntas de um mulçumano sobre a Trindade

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Perguntas de um mulçumano sobre a Trindade

Saudações Dr. Craig,

Eu sou um muçulmano iemenita, nascido e criado na Arábia Saudita, atualmente estudando por um curto período no Canadá. Eu encontrei o seu trabalho e aprecio muito as suas contribuições para a modernização e o polimento, a bolsa de estudos de grandes homens como ImãAl Ghazali e Tomás de Aquino. Como um mulçumano bastante conservador (talvez por causa dos meus preconceitos?), eu acho os seus argumentos, especificamente em favor da fé cristã, fracos em relação àqueles gerais em favor do monoteísmo.

Eu, pessoalmente, acredito que a maior diferença entre o Islamismo e o Cristianismo ortodoxo é o conceito da Trindade. Em resumo, minhas perguntas são:

1. Como você concilia filosoficamente a trindade com o monoteísmo?

2. Há argumentos filosóficos para a trindade (como aquelas para a existência de um só Deus) ou argumentos baseados nas Escrituras?

3. Se são baseados nas Escrituras, não haveria a necessidade de acreditar que as Escrituras são infalíveis (por que confiar nelas quando trata-se da trindade, mas não quando trata-se de outros assuntos)?

Para expandir a primeira pergunta:

Você afirma que uma pessoa é divina somente quando essa pessoa é maximamente perfeita. Na minha opinião, isso é muito razoável, então eu estou disposto a aceitar. No entanto, o Novo Testamento não mostra as outras pessoas da trindade como subordinadas, pelo menos em alguns aspectos, ao Pai?

Nos termos do conhecimento, por exemplo, Mateus 24:36 declara que ninguém além do Pai possui o conhecimento do tempo. De acordo com o argumento de perfeição máxima, isso não significaria que as outras pessoas (inclusive Filho e o Espirito Santo) não possuem conhecimento máximo e, por causa disso, não são qualificados para serem considerados divinos?

Para expandir a segunda pergunta:

Se você apresenta argumentos filosóficos para a trindade, você pode apresentar um argumento para somente uma trindade? Os mesmos argumentos não serviriam se fomos supor quatro, cinco ou seis pessoas na Divindade? Você pode argumentar filosoficamente em favor de um Deus necessariamente trino?

Para expandir a terceira questão:

Como você concilia a infalibilidade das Escrituras com os vários erros presentes nela, como contradições numéricas ou erros científicos?

Obrigado pelo seu tempo.

Mohamed

Arábia Saudita

Saudi Arabia

Obrigado pelas suas gentis observações! Eu tenho ensinado na minha aula de Defenders [Defensores] sobre o argumento cosmológico de Ghazali.

Eu respondi as suas perguntas nos capítulos sobre a Trindade e Encarnação no meu livro Filosofia e Cosmovisão Cristã, então a minhas respostas aqui terão um caráter resumido. Eu espero que você olhe com mais detalhes o que eu já escrevi sobre essas questões.

Certamente, a diferença entre o conceito Trinitário e unitário de Deus é um problema maior que divide o Islamismo e o Cristianismo. Mas, como eu já argumentei em meus debates e artigos, eu acredito que as deficiências da concepção islâmica de Deus são ainda mais sérias que isso.

Agora sobre as suas perguntas:

1. “Como você concilia filosoficamente a trindade com o monoteísmo? No capítulo sobre a Trindade ao qual me referi anteriormente, eu forneço um modelo da Trindade que nos permite fazer isso. Em poucas palavras, o modelo é de que Deus é uma alma equipada com três conjuntos de faculdades racionais, cada um suficiente para a pessoalidade [personhood]. Esse modelo produz o monoteísmo (há somente uma alma que é Deus) e uma pluralidade de pessoas (essa alma tem três centros de autoconsciência).

Sim, cada pessoa na Trindade é perfeita ao máximo. “No entanto, o Novo Testamento não mostra as outras pessoas da trindade como subordinadas, pelo menos em alguns aspectos, ao Pai?” Nesse caso, teólogos distinguiram a Trindade ontológica e a Trindade econômica. No meu modelo, os membros da Trindade considerados ontologicamente (na abstração das suas relações com o mundo) são igualmente e maximamente perfeitos. Mas, nessa economia divina, em prol da nossa salvação, os membros da Trindade assumem diferentes papeis no plano da salvação. O Pai envia o Filho para o mundo; o Filho assume a natureza humana e morre uma morte sacrificial; o Espírito vem em nome do Filho para continuar o seu trabalho até a volta dele. A submissão voluntária do Filho ao Pai não implica a inferioridade dele ao Pai, assim como a submissão da minha esposa a mim, na economia da família, não implica a inferioridade dela a mim.

É verdade que muitos cristãos pensam que há relações de subordinação, não só na Trindade econômica, mas também na Trindade ontológica. Mas, eruditos bíblicos concordam que essa visão não é ensinada no Novo Testamento, o qual era a preocupação da sua pergunta. E até esses cristãos insistiriam dizendo que subordinação não quer dizer inferioridade ou imperfeição.

No caso do seu exemplo, eu concordo que Cristo, como a segunda pessoa da Trindade, sabia o dia da sua segunda vinda. Mas, como eu explico no meu capítulo sobre a Encarnação no livro de Filosofia e Cosmovisão Cristã, nem tudo conhecido por Cristo em seu estado de encarnação era conscientemente conhecido por ele. A maioria era subconsciente. Então, em sua natureza humana ele não sabia o dia da sua volta; assim, isso não fazia parte do seu conhecimento consciente e não estava disponível para ele.

2. “Há argumentos filosóficos para a trindade (como aquelas para a existência de um só Deus) ou argumentos baseados nas Escrituras?” A doutrina da Trindade vem dos ensinamentos de Jesus e das Escrituras.

Eu acredito que um argumento filosófico plausível pode ser dado contra um conceito unitário de Deus, como os que encontramos no islã. Como eu argumento em Filosofia e Cosmovisão, Deus, como o maior ser concebível, deve ser perfeito.

Agora, um ser perfeito tem que ser um ser amoroso. Pois o amor é uma perfeição moral; é melhor que uma pessoa seja amorosa que não sê-lo. Portanto, Deus tem que ser um ser perfeitamente amoroso. É da natureza do amor renunciar a se mesmo. O amor alcança outra pessoa em vez de se concentrar totalmente em si. Então se Deus é perfeitamente amoroso pela Sua própria natureza, Ele deve se dar por amor a outro. Mas quem é esse outro? Não pode ser qualquer outra pessoa já criada, já que a criação é um resultado do livre arbítrio de Deus e não um resultado da Sua natureza. Amar pertence á essência de Deus, mas não pertence à Sua essência de criar. Assim podemos imaginar um mundo no qual Deus é perfeitamente amoroso e ainda assim nenhuma pessoa criada exista. Então pessoas criadas não podem explicar o suficiente a quem Deus ama. Portanto, deduz-se que o outro a quem o amor de Deus é direcionado deve ser interno ao próprio Deus.

Em outras palavras, Deus não é uma pessoa única e isolada, como em formas unitárias do teísmo como a do Islã; em vez disso, Deus é uma pluralidade de pessoas, como a doutrina cristã da Trindade afirma. Na visão unitária, Deus é uma pessoa que não se dá essencialmente por amor a outro; Ele se concentra essencialmente em Si. Assim, ele não pode ser o ser mais perfeito. Mas na visão cristã, Deus é uma tríade de pessoas em relações eternas de doações de amor. Deste modo, já que Deus é essencialmente amoroso, a doutrina da Trindade é mais plausível que qualquer doutrina unitária de Deus.

Como você vê, esse argumento não nos dará exatamente três pessoas – mas ei, quem está reclamando? É o suficiente para fazer o conceito cristão de Deus mais plausível que a concepção do Islã.

3. “Se são baseados nas Escrituras, não haveria a necessidade de acreditar que as Escrituras são infalíveis (por que confiar nelas quando trata-se da trindade, mas não quando trata-se de outros assuntos)?”Minha resposta acima requer que nós pensemos que Jesus seja um mestre confiável e autoritário sobre os assuntos Deus, seu Pai Celestial, e que as Escrituras também sejam confiáveis e autoritárias quando se trata da doutrina teológica.

Você pergunta “Como você concilia a infalibilidade das Escrituras com os vários erros presentes nela, como contradições numéricas ou erros científicos?” Essa é a mesma pergunta que os mulçumanos encaram em relação aos erros e contradições do Alcorão. Alguém pode tentar resolver as contradições e mostrar que os erros são simplesmente aparentes. Mas, na minha opinião, não há necessidade de tais heróis.

Primeiro, mesmo tratando os documentos do Novo Testamento como fontes falhas, pode-se fazer um caso plausível para a ressureição de Jesus em razão como vindicação de suas afirmações pessoais radicais pelas quais ele foi sentenciado à morte pelo Sinédrio judaico. Isso mostra que Jesus era quem ele afirmava ser, o Filho único de Deus e Filho do Homem e que, portanto, podemos confiar nele em relação a nossa doutrina de Deus.

Segundo, quando se trata das inspirações e infalibilidade das Escrituras, nós precisamos aprender humildemente das próprias Escrituras o que implica a inspiração divina. A Bíblia não tem porobjetivo ensinarciência, e a biografia antiga não almejava alcançar a precisão de um relatório policial. Muitos dos autores das Escrituras podem ter acreditado no geocentrismo, por exemplo, mas eles não ensinaram o geocentrismo. Os autores dos Evangelhos se surpreenderiam em saber dos modernos que suas atividades editoriais, em que recontam a vida de Jesus de diferentes formas, seriam vistas como erros por eles. Nós confiamos nos autores das Escrituras para nos entregar a doutrina correta sobre Deus sem exigir ou esperar deles informações sobre ciência e relatos históricos modernos.

William Lane Craig