Consequencialismo e o problema do mal

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Consequencialismo e o problema do mal

Caro William Craig,

Imagine que estamos no sul da Alemanha cem anos antes do nascimento de Jesus. Um certo bandido, Richard, perdido na história, invadiu uma vila e matou todos os seus habitantes, menos uma. Essa sobrevivente, uma mulher grávida chamada Angie, ele encontra (escondida) em uma casa que está prestes a ser queimada. Em um momento de compaixão, ele manda que a vida dela seja poupada.

Mas talvez, ele não deveria ter feito isso. Pois vamos supor que Angie fosse a tatatatatatatatatatatatataravó de Aldolf Hitler. Assim, as milhões de vítimas de Hitler foram também vítimas de Richard devido a que ele poupou a vida de Angie.

Talvez, se Richard tivesse matado Angie; o filho dela, Peter, teria se vingado dele, fazendo com que a viúva de Richard, Samantha, se casasse com Francis. E talvez, se isso tudo tivesse acontecido, Francis e Samantha tivessem tido um descendente 115 gerações depois, Malcolm, o Verdadeiramente Terrível, que teria conquistado o mundo, e assim cometido crimes maiores e mais terríveis que aqueles cometidos por Hitler. Então, as consequências imediatas de uma ação, como a de matar um aldeão inocente, podem ser cobertas pelas consequências de milhares de anos no futuro, as quais ninguém poderia prever. Talvez eu tenha conhecido alguém em um bar a semana passada e que a sua progênie daqui a 2000 anos irá causar a extinção humana. Isso implicaria que a pior coisa que eu já fiz foi não matar aquele conhecido do bar. Isso parece implicar que basicamente não há como saber se você está tomando as decisões éticas certas.

Então como você saberá se está tomando as decisões éticas certas? Parece ser um pouco problemático saber se você cometeu um pecado já que o seu pecado (como o assassinato, por exemplo) pode ser o maior bem para a humanidade.

Obrigado.

John

Federação Russa

Russian Federation

Eu selecionei a sua pergunta pensativa, John, porque tem uma influência em dois assuntos: a teoria ética e o problema do mal.

Primeiro, a sua pergunta expõe uma falha fatal nas teorias éticas consequencialistas como o utilitarismo, que diz que o nosso dever moral é fazer as ações que trará maior felicidade para o maior número de pessoas. Sam Harris, por exemplo, é um consequencialista que diz que nós devemos agir para trazer o maior florescimento da vida consciente.

Como a sua ilustração mostra, isso é uma prescrição impossível que não tem nenhuma esperança, já que devido às nossas limitações inerentes, nós simplesmente não estamos em posição para fazer tais avaliações. Então você está certo que em uma visão consequencialista, “basicamente não há como saber se você está tomando as decisões éticas certas”.

Em contraste, sobre o que é na chamada de visão deontológica, as nossas decisões devem ser guiadas por certos princípios morais, as quais nós podemos saber que são verdadeiras sem precisar olhar para o futuro e ver os resultados das nossas escolhas. Uma versão teísta de tal teoria verá esses princípios como constituídos pelos mandamentos de Deus para o comportamento moral. Por exemplo, em resposta à pergunta de Albert Camus em A Peste, nós deveríamos trabalhar para aliviar o sofrimento causado pela doença porque isso é o que nos foi comandado a fazer, sem especular os propósitos de Deus em permitir a peste.

Agora, claro que às vezes a aplicação desses princípios morais irá requerer que nós consideremos as consequências dos nossos atos (por exemplo, quem devemos tratar primeiro na peste?), mas isso ainda não é consequencialismo porque o certo ou errado dessas ações não é determinado somente pelas conseqüências delas. Mesmo se pelas vicissitudes da história deliberadamente infectar alguém com a doença fosse um grande benefício para a humanidade, ainda assim seria moralmente errado cometer tal atrocidade.

Então um teísta não teria problema em saber “se você cometeu um pecado já que o seu pecado (como o assassinato, por exemplo) pode ser o maior bem para a humanidade”.Se você assassina uma pessoa inocente, você quebrou o mandamento de Deus e, assim, pecou; não importa o bem maior que virá disso.

Isso tem relevância para o problema do mal porque assim como não estamos em posição de avaliar os resultados das nossas escolhas, também não estamos em boa posição de julgar que Deus não tem razões morais o suficiente para permitir tal exemplo de sofrimento no mundo. Deus vê o fim da história do seu começo e providencialmente direciona um mundo de pessoas livres para o Seu final previsto através das escolhas livre que eles fazem. Para usar (tomando aprestado) o seu exemplo, ao permitir que alguém seja assassinado no bar a semana passada, Deus talvez tenha prevenido a extinção da raça humana daqui a 2000 mil anos. Perceba que isso não é consequencialismo: isso não quer dizer que você deveria ter matado aquela pessoa no bar ou que o assassinato dele não foi um mal e um pecado. Isso quer dizer que Deus pode ter razões moralmente justificadoras para permitir que o mal aconteça. Elas são más, mas elas são justamente permitidas. A suposição daqueles que não veem isso é a de que “O que não deveria acontecer, não deveria ser permitido”. Esse princípio é falso. Pode haver ações genuinamente más, coisas que não deveriam acontecer, e ainda assim nós e Deus podemos ser moralmente justificados por permitir que elas aconteçam.

Quando pensamos na providência de Deus sobre a história humana inteira, podemos ver o quão impossível é especular se Deus não tem razões morais o suficiente para permitir que o mal aconteça. Nós não estamos em uma boa posição para fazer tais julgamentos, assim como não podemos julgar os resultados finais das nossas escolhas.

William Lane Craig