Somos justificados por acreditar em valores e deveres morais objetivos?

#449

Somos justificados por acreditar em valores e deveres morais objetivos?

Olá, Dr. Craig,

Eu queria agradecer por todos os seus trabalhos! Eu me tornei recentemente um parceiro de sustentação do Reasonable Faith porque eu tenho sentimentos fortes pelo seu ministério. Obrigado! Em relação a minha pergunta, eu queria perguntar sobre a segunda premissa do argumento moral. Eu tentei entender isso e sinto que eu possa não estar vendo algo. Eu li as suas Perguntas da Semana sobre a base da segunda premissa do argumento moral e eu entendi que nós não estamos apelando para Deus como o fundamento dos valores morais nessa premissa. Mas estamos apelando para a experiência moral. Agora, o ateísta talvez dê um derrotador (ou defeater) para a nossa experiência porque ele diz que a evolução nos arraigou essa “moralidade de manada”. Mas claro que essa é a falácia genética. Então, ele talvez diga que os nossos valores morais não têm justificativas mesmo que eles sejam verdadeiros, porque a evolução visa a sobrevivência e não a verdade. É aqui que eu fico confuso. Eu entendo que sob o naturalismo, todas as nossas crenças visam a sobrevivência e, assim, você não pode acreditar no paradigma naturalístico.

Mas, outro argumento contra eles, em seus trabalhos publicados, é que é muito provável que Deus queira que nós tenhamos uma apreensão correta da moralidade. Essa segunda objeção aos ateístas não sugere que a única maneira de chegar à conclusão “valores e deveres morais existem” é essencialmente acreditar que Deus existe? E isso não é um argumento circular? Parece que seria muito melhor dizer aos ateístas que a objeção é contraproducente e deixar assim. Com essa objeção, você está simplesmente dizendo que há uma “possibilidade” que Deus exista, e portanto, está dizendo que é possível que ele queira que nós tenhamos crenças corretas se ele de fato existe?

Caso contrário, o raciocínio para acreditar na segunda premissa parece ser é assim:

1) Se Deus existe, então Ele quer que nós tenhamos apreensões morais corretas.

2) Se Ele quer que tenhamos apreensões morais corretas, então minhas apreensões morais (não importa a fonte) são plausivelmente corretas.

3) Deus existe.

4) Portanto, minhas apreensões são plausivelmente corretas.

5) Portanto, meus deveres e valores morais existem

Isso é obviamente [um argumento] circular porque nós já acreditamos em Deus para chegar à conclusão de que os valores e deveres morais existem. Então, eu estava me perguntando como você responderia um ateísta que dissesse que nós estamos justificando a segunda premissa ao acreditar que Deus existe? A segunda objeção para a explicação sócio biológica parece ser circular a não ser que você diga, por exemplo, que:

1) É possível que Deus exista.

2) Se é possível que Deus exista, então é possível que Deus queira que nós tenhamos apreensões morais corretas

3) Portanto, é possível que minhas apreensões estejam corretas.

Esse é um argumento mais conservador, mas pelo menos deixa aberta a possibilidade de nossas apreensões morais estarem corretas. Então, eu estou entendendo isso de forma correta e que nós estamos meramente tentando deixar aberta a possibilidade de que as nossas crenças morais possam estar certas para poder superar a objeção ateísta de que nós não podemos acreditar nelas segundo o naturalismo? Eu espero que isso faça sentido!

Obrigado, novamente, pelo seu trabalho!

Austin

Estados Unidos

United States

Obrigado, Austin, pelo seu comprometimento com Reasonable Faith! Deixe-me pegar a sua pergunta de quando você começa a ficar “um pouco confuso”. A pergunta diante de nós não é sobre a verdade da premissa

2. Deveres e valores morais existem.

mas sobre a nossa justificativa por acreditar nela.

Minha afirmação é de que nós somos justificados por acreditar na segunda premissa sobre a base de nossa experiência moral até (ou a não ser) que nós tenhamos um derrotador (ou defeater) dessa experiência, assim como estamos justificados em acreditar que há um mundo de objetos físicos a nossa volta, sobre a base de nosso senso da experiência até (ou a não ser) que nós tenhamos um derrotador (defeater) dessa experiência. Tal derrotador (defeater) não teria que mostrar meramente que a nossa experiência moral seja falível ou anulável, mas que é completamente duvidosa, que poderíamos no apreender nenhum valor ou dever moral objetivo. No entanto, nossa experiência moral é tão poderosa que tal defeater teria que ser muito incrivelmente poderoso para superar nossa experiência, assim como a nossa experiência sensorial é tão poderosa que um deafeater da minha crença em um mundo de objetos físicos que percebo teria que ser incrivelmente poderoso para eu acreditar que eu não tenha uma boa razão para pensar que eu não sou um cérebro em uma cuba cheia de produtos químicos ou um corpo jazendo numa Matrix. Como Louise Antony disse em nosso debate, qualquer argumento para o ceticismo moral será baseado em premissas que são menos óbvias que a experiência dos próprios valores e deveres morais objetivos, isto é, menos óbvias que a própria segunda premissa.

Então que defeater poderoso é esse da segunda premissa que mostra que minha experiência moral é totalmente duvidosa? Somente o de que as nossas crenças morais são o resultado do desenvolvimento evolucionário e, portanto, visam a sobrevivência e não a verdade? É isso? Bem, que evidência há para isso?

In fact, there is no compelling evidence that our moral beliefs are the product of biological evolution. In a complex survey of contemporary work on evolutionary theories of morality, biologist Jeff Schloss reports, “not only do we currently lack a fully adequate evolutionary account of morality, but the manifold accounts we do have are also disparate and are often represented by prominent exegetes as having resolved issues that are still in dispute.”[1] In personal correspondence Schloss wrote,

De fato, não uma evidência persuasiva de que nossas crenças morais são o produto da evolução biológica. Em uma pesquisa complexa do trabalho contemporâneo sobre as teorias evolucionárias da moralidade, o biólogo Jeff Schloss afirma: “na atualidade não só não temos uma explicação evolucionária completamente adequada da moralidade, mas as várias explicações que temos são também díspares e frequentemente representadas por exegetas eminentes que dizem ter resolvido questões que ainda estão em controvérsia”.[1] Em uma carta pessoal, Schloss escreveu:

o argumento ridicularizador da evolução [...]supõe assume que crenças morais são, de fato, explicadas adequadamente pela seleção natural [...] há poucos questionamentos que elas não são. Disposições que tendem para certos comportamentos [...] (reciprocidade, cuidado parental, etc.) tem explicações evolucionárias bastantes persuasivas. Mas na atualidade [...] nós não temos uma proposta evolucionária plausível para a associação das crenças morais com esses comportamentos. Eu fiz uma revisão recente da literatura [...] e eu não consigo achar nenhuma explicação coerente para as crenças morais ou até para as intuições normativas”.[2]

Ainda assim, nós facilmente permitimos que os ridicularizadores se livrem com um mero aceno e generalizações vagas como supostos defeaters da nossa experiência moral! O deafeater poderoso não existe.

Além disso (e esse é o ponto que você pergunta), a afirmação de que, por terem evoluído, as nossas crenças morais visam a sobrevivência e não a verdade, pressupõe o ateísmo. Pois, se Deus existe, então as nossas crenças morais plausivelmente, embora evoluídas, serão geralmente confiáveis. Então o defeater pressupõe que o naturalismo é verdadeiro, o qual é circular. É a ridicularizarão da nossa experiência moral que tem o fardo da prova aqui para fornecer um defeater da nossa experiência moral. Então ele precisa provar que nossas crenças não visam a verdade se elas evoluíram. Mas, claramente, isso não é verdadeiro, a não ser que alguém pressuponha ateísmo.

Então a sua pergunta, “Essa segunda objeção aos ateístas não sugere que a única maneira de chegar à conclusão ‘valores e deveres morais existem’ é essencialmente acreditar que Deus existe? E isso não é um argumento circular?”, mostra que você não entendeu a dialética aqui. O teísta oferece uma defesa teologicamente neutra da segunda premissa, a qual é, na verdade, compartilhada pela maioria dos eticistas hoje. O ridicularizador oferece um defeater da experiência moral afirmando que porque nossas crenças evoluíram, elas visam a sobrevivência e não a verdade, e por isso são duvidosas. Agora o teísta mina esse defeater dizendo “Que justificativa você tem para o seu defeater? Qual é a evidência de que porque nossas crenças evoluíram elas visam a sobrevivência e não a verdade?” É fútil nesse momento para o ridicularizador dizer que a inferência dele é uma consequência do naturalismo, pois o teísta concorda com isso! De fato, ele disse exatamente que em defender a primeira premissa, que se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos não existem. Então aqui não é o teísta, mas o ridicularizador que está argumentando em um ciclo.

Sua reconstrução do meu argumento mostra que você erroneamente pensa que o teísta está oferecendo outro argumento para a segunda premissa, quando, na verdade, ele está oferecendo um defeater para o defeater do ridicularizador.

Finalmente, o teísta oferece um defeater adicional ao defeater do ridicularizador mostrando que o defeater derrota a si mesmo, ou mostrando que o naturalismo é contraproducente (ou auto derrotador), um ponto que você não desfia.

Uma vez que você entende a dialética, você pode ver que não há problema.

Notas:



[1] Jeffrey P. Schloss, “Darwinian Explanations of Morality: Accounting for the Normal but not the Normative,” [Explicações Darwinistas da Moralidade: Explicações para o Normal, mas não para o Normativo] em Hilary Putnam, Susan Nieman e Jeffrey, ed. Apreensão dos Sentimentos Morais: Perspectivas Darwinistas? (Piscataway, N. J.: Transaction Publishers, 2014), p. 83 (versão em inglês).

[2] Jeffrey Schloss para WmLC, 17-22 de setembro de 2015.

William Lane Craig