A Teoria B do tempo exclui a liberdade humana?

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A Teoria B do tempo exclui a liberdade humana?

Caro, Dr. Craig,

Obrigado pelos seus trabalhos e estudos persistentes para comunicar a verdade para o mundo. Você impactou a minha fé mais do que qualquer outro seguidor de Cristo no mundo hoje. No entanto, eu estou tendo problemas com uma das suas recentes afirmações. Em seu blog de perguntas e respostas recente, você fez um comentário que eu relutantemente discordo. Em relação a visão aflexiva (Teoria B) do tempo e o livre arbítrio libertário você escreveu o seguinte:

“Eu não acho que a teoria aflexiva do tempo é incompatível com o livre arbítrio. Enquanto o determinismo causal seja falso, não parece importar até agora já que a liberdade libertária está preocupada se as escolhas futuras de alguém existem ou não. Isso nos leva para uma discussão interessante da presciência divina de futuras escolhas livres”.

Minha discordância é em relação a afirmação de que se a Teoria B do tempo é verdadeira, então o determinismo causal NÃO é falso. Isso quer dizer que, se a Teoria B é real, então o determinismo causal é verdadeiro. Na verdade, assim como o formato e a estrutura de um tobogã em um parque aquático determina o movimento da pessoa que desce no tobogã, o formato e a estrutura do bloco 4D do espaço-temporal causalmente determina as crenças e comportamentos da “ilusão da autoconsciência” descendo a “minhoca” congelada no bloco estático. Meu argumento é que essas “escolhas” são puramente ilusórias em um modelo naturalista da Teoria B.

Dr. Craig, você corretamente traz a questão da presciência divina e das futuras escolhas livres. No entanto, eu penso que essa analogia é diferente. Como você me ensinou, o conhecimento (possuído por Deus ou não) não tem ou entra uma relação causal com nada. Por exemplo, um infalível barômetro do tempo que soubesse, com 100 por cento de certeza, que irá chover na Espanha amanhã não causa a chuva na Espanha amanhã.

No entanto, no modelo da Teoria B (o formato e a estrutura do bloco eterno e estático) causalmente determina as crenças e os comportamentos da “pessoa” que é nada mais além do que um pedaço da minhoca congelada no bloco estático. Considere a minha analogia do parque aquático de novo: se o formato do tobogã desviar para a esquerda, você não poderia ir para a direita mesmo que quisesse. Do mesmo modo, se a minhoca congelada no bloco estático desvia para a esquerda, a ilusão da autoconsciência vai para a esquerda de todo jeito. Portanto, essa “escolha” é nada mais que uma ilusão se a Teoria B do tempo é verdadeira (isso incluiria a “escolha” de acreditar que a Teoria B é verdadeira).

Se o bloco eterno do espaço-tempo 4-D é real, então não só a evolução não explica a complexidade biológica dos primatas “hoje” (primatas complexos são tão eternos quanto o bloco eterno), mas as “escolhas” que se faz não foram realmente baseadas na deliberação e no processo da razão. Na verdade, a “escolha” que o pedaço de minhoca congelada fez foi congelado e estático da eternidade passada e é tão velha, intemporal (ou sem idade) ou eterna quanto o próprio bloco do espaço-tempo 4D.

Além disso, na eterna e estática Teoria B, os supostos eventos indeterminados como o decaimento de partículas, apesar de não determinado devido à moção causal antecedente, são causalmente determinadas devido a sua eterna permanência inevitavelmente construída no estrato tempo-parte do bloco B. Me parece que esses “eventos indeterminados” não “acontecem” no eterno mas, em vez disso, o evento é tão eterno quanto o próprio bloco eterno.

Dr. Craig, você é meu herói e se não fosse pelos seus ensinamentos sobre a teoria do tempo, eu não discordaria com você nessa questão. No entanto, talvez nós não discordamos porque você disse “Enquanto o determinismo causal seja falso [...]” minha discordância é simplesmente que se o modelo naturalista da Teoria B do tempo é verdadeiro, então o determinismo causal também é.

Aqui está um artigo que eu escrevi sobre minhas visões sobre este assunto: http://freakengministries.com/the-b-theory-of-time-rationality-knowledge/

Eu estou ansioso para vê-lo na conferência da Sociedade Filosófica Evangélica (SFE) em alguns dias!

Somente em Cristo,

Tim

Estados Unidos

United States

Foi muito bom te ver na SFE, Tim! Obrigada pela sua participação em nossa reunião do Capítulo Local dos Diretores no Reasonable Faith!

É compreensível que alguém pensaria que a Teoria B do tempo é incompatível com a liberdade humana. Afinal, se as suas futuras escolhas livres existem (atemporalmente) tão reais quanto as suas escolhas passadas e presentes atuais, então elas não são, de algum modo, fixas e além do seu controle? Você realmente tem a habilidade de escolher de forma diferente?

So to think, however, is to commit the same error as the theological fatalist, who thinks that God’s foreknowing what you will do is incompatible with human free choices.

No entanto, pensar assim é cometer o mesmo erro que os teólogos fatalistas, que pensam que Deus saber antes o que você vai fazer é incompatível com a liberdade humana.

Primeiro, vamos nos livrar da ideia de que a Teoria B do tempo sugere o determinismo causal e, desse modo, é incompatível com a liberdade humana. Como o extraordinário teórico B, Adolf Grünbaum, enfatizou um tempo atrás, a Teoria B não sugere que os eventos que estão no nosso futuro sejam são causalmente determinados com respeito aos eventos antecedentes.[1] De fato, alguns desses tais eventos podem ser completamente indeterminados pelas causas antecedentes. Assim, em qualquer definição padrão da liberdade libertária, tal evento poderia ser genuinamente uma escolha livre.

Sua afirmação de que “assim como o formato e a estrutura de um tobogã em um parque aquático determina o movimento da pessoa que desce no tobogã, o formato e a estrutura do bloco 4D do espaço-tempo causalmente determina as crenças e comportamentos da ‘ilusão da autoconsciência’ descendo a ‘minhoca’ congelada no bloco estático” entende as coisas ao contrário. Sou eu que, pelas minhas escolhas livres, determino o formato e a estrutura do bloco 4D do espaço-tempo—pelo menos nas minhas proximidades. Por exemplo, ao escolher livremente de forma apressada sair de um tráfego cheio, eu determino que a minha minhoca do espaço-tempo tem um fim abrupto quando intersecta a minhoca do espaço-tempo de um caminhão. Eu determino para que caminho a minhoca vai e, desse modo, a sua analogia do tobogã é falha.

Agora, claro que se você pensar da autoconsciência como um epifenômeno causalmente impotente que segue ao longo de seus estados cerebrais físicos, então você está certo em dizer que nós não podemos determinar livremente nossos pedaços/partes temporais futuros. Mas aí, o real culpado é a filosofia da mente da pessoa, e eu não vejo o porquê do teórico B não poder ser um dualista de substância que pensa que cada parte temporal da minhoca 4D pode livremente determinar partes futuras. Reconhecidamente, isso levanta os problemas de identidade pessoal com o tempo, como eu argumentei, mas isso é outro problema.

Segundo, quando você afirma que “o pedaço de minhoca congelada fez foi congelado e estático da eternidade passada e é tão velha, intemporal (ou sem idade) ou eterna quanto o próprio bloco do espaço-tempo 4D” e que “os supostos eventos indeterminados como o decaimento de partículas, apesar de não determinado devido à moção causal antecedente, são causalmente determinadas devido a sua eterna permanência inevitavelmente construída no estrato tempo-parte do bloco B”, você corre o perigo de cair no fatalismo. Você está certo de que a escolha ou evento quântico é tão imutável e eterno quanto o próprio bloco 4D, de fato eles fazem parte desse bloco, mas quando você supõe que eles são “inevitáveis”, você cometeu o mesmo erro da pessoa que pensa que as nossas escolhas futuras são inevitáveis porque Deus tem infalivelmente sabido delas desde a eternidade passada. A presciência de Deus é, assim, análoga com a Teoria B do tempo. É eterna e imutável e, nesse sentido, “congelada”; mas isso não torna as escolhas humanas, já sabidas por Deus, inevitáveis. Pois, embora nós não podemos, por definição, mudar o futuro, mesmo assim, nós podemos agir de tal maneira que se nós fôssemos agir dessa maneira, a presciência de Deus teria sido diferente.

Da mesma forma, numa Teoria B do tempo, embora nós não podemos mudar o futuro, nós podemos agir de tal maneira que se nós fôssemos agir dessa maneira, o futuro seria diferente. Por exemplo, quando chegasse a hora, eu poderia decidir não sair do tráfego apressadamente, mas esperar por um espaço quando seria seguro prosseguir. Embora, por hipótese, eu não farei essa escolha, mesmo assim eu tenho a habilidade de fazer essa escolha e se assim fizesse, minha minhoca do espaço-tempo não teria terminado onde terminou. Assim, enquanto eu não tenho a habilidade de mudar o futuro, eu tenho a habilidade de livremente determinar o futuro.

Então, não deduz-se a partir da existência aflexiva/atemporal dos eventos em nosso futuro que tais eventos são inevitáveis ou necessários ou de nenhuma maneira, não livres. E não pense que porque os eventos futuros existem, eles são determinados causalmente pela estrutura do espaço-tempo 4D. Pelo contrário, você, pelas suas escolhas livres determinaria, de maneira pequena, a estrutura do espaço-tempo 4D.

A Teoria B do tempo é envolvida por problemas, mas eu não acho que negar a liberdade humana é um deles.

Notas:



[1] Adolf Grünbaum, “Há um ‘Fluir’ do Tempo ou Tornar-se Temporal [Temporal Becoming]?” Problemas Filosóficos do Espaço e Tempo, 2ª ed. Estudos de Boston na Filosofia da Ciência 12 (Dordrecht, Holland: D. Reidel Publishing Company, 1973), p. 321-2 (na versão em inglês).

William Lane Craig