A vastidão do universo apoia o naturalismo?

#452

A vastidão do universo apoia o naturalismo?

Eu sou um cristão teísta e estou trabalhando para um doutorado em filosofia. Eu tenho uma pergunta que acredito ser relevante tanto para os leigos quanto para os acadêmicos, e eu agradeceria a sua opinião.

Eu me vejo frequentemente mudando entre as cosmovisões naturalistas e sobrenaturalistas (especialmente teísta). Quando eu considero certas coisas, o teísmo com o qual eu concordo parece eminentemente razoável; mas quando eu considero outras coisas, o naturalismo (ou pelo menos o não-teísmo) também parece plausível, e é compreensível para mim o porquê de muitos filósofos e cientistas serem naturalistas (ou pelo menos não-teístas).

Por um tempo eu tentei entender o que especificamente faz com que o naturalismo (ou pelo menos o não-teísmo) pareça plausível para mim (e para outros), e eu acho que parte disso é o seguinte.

Para ser breve, muito da história do universo e do nosso planeta parece arbitrário ou aleatório. Mais precisamente, muito da história natural parece não ter uma explicação racional. O universo tem bilhões de anos e a existência humana é um pequeno momento na escala de tempo cósmica.

Existe um número muito vasto de galáxias e, assim, um gigante número de estrelas, planetas e outras entidades astronômicas. Além disso, a própria Terra tem bilhões de anos, e os humanos existem por um período de tempo relativamente pequeno. Grandes números de outras espécies existiram, e muitos estão extintos há milhões de anos. Os humanos parecem “tão pequenos” em relação a vastidão do universo. Quando eu reflito sobre esses fatos e outros fatos como esse, eu me pergunto o porquê. Por que o universo e o nosso planeta são dessa maneira e não de outra? Parece que se o Deus do teísmo tradicional (cristão) existe, então deveria haver uma explicação racional para esses tipos de fatos. Deveria haver uma razão do porque Deus criou o universo dessa maneira, em vez de outra; esses estados do universo, em vez de outros estados. Mas muitos desses fatos parecem não ter uma explicação racional e são sem sentido.

Veja dessa forma, as ideias são retóricas, mas eu acredito que elas motivam um argumento preciso. O argumento pode ser visto da seguinte forma:

1. Se Deus existe, então cada estado do universo seria racionalmente explicável.

2. Não é o caso (ou pelo menos é provável que não seja o caso) de que cada estado do universo seja racionalmente explicável (como alternativa, alguns estados do universo não são racionalmente explicáveis).

3. Então, Deus não existe.

Algo importante para esse argumento é a diferença entre explicação racionais/pessoal e explicação natural/causal. Explicação natural/causal é o tipo de explicação fornecida quando, por exemplo, explica-se os padrões climáticos pela referência aos vários estados naturais e leis da natureza. Explicação racional/pessoal é o tipo de explicação fornecida quando se dá uma razão pessoal por acontecer tal ação. Por exemplo, o que explica eu comer um sanduíche de pasta de amendoim é o fato de eu gostar de sanduíches de pasta de amendoim; o que explica a criação dos seres humanos feita por Deus é o Seu amor magnânimo, etc. Parte da diferença é que as explicações naturais/casuais são necessárias (de certa forma), enquanto que as explicações racionais/pessoais não são.

Essa diferença é importante para a segunda premissa, porque a afirmação NÃO é de que há estados que não tem QUALQUER explicação. Em outras palavras, eu penso que o argumento é consistente com alguma forma do princípio da razão suficiente (como o que você usa no Argumento Cosmológico Leibiniziano).

Com isso em mente, deixe-me mencionar uma parte da análise racional para as premissas. O principal apoio para a premissa 1 é de que (a) Deus é soberano sobre todas as partes do universo, e (b) Deus não é frívolo. Soberania implica que Deus tem controle do universo e do seu curso (exceto, talvez, das ações livres pessoais). Deus não sendo frívolo implica que Deus age por bons motivos e não arbitrariamente. Mas juntos eles sugerem que Deus tem controle dos estados do universo (i.e., os estados são, em última análise, ou pelo menos parcialmente, explicados pelas ações de Deus), e Deus age para trazer esses estados por bons motivos. A premissa 1 parece deduzir-se a partir dessas considerações. Isso não é tão preciso quanto poderia, mas eu acredito que você consegue ver o impulso dessas afirmações em apoio a premissa 1.

O principal apoio para a premissa 2 é a de que nós humanos não podemos ver uma explicação racional para os vários estados (como os exemplos dados anteriormente). E se nós não podemos ver uma explicação racional, então é provável que não haja uma. Alguém pode questionar a mudança de “nós não sabemos uma explicação” para ”não há nenhuma explicação”, mas essa mudança é justificável em alguns casos. Alguém pode fazer a objeção de que não é justificável nesse caso (i.e., pegar uma visão teísta cética em relação ao problema do mal). Isso não é inadmissível, mas me parece que nós deveríamos pelo menos esperar poder “conceber” algumas boas razões para os vários estados do universo, e eu tenho dificuldade em conceber boas razões em muitos casos.

Há muito mais que poderia, ou deveria ser dito; mas essa pergunta está ficando longa. Já que eu sou cristão, eu obviamente não acho que esse pensamento seja conclusivo. Mas merece uma reflexão séria, e eu acho isso plausível. Eu suspeito também que algo como esse raciocínio é o motivo de muitos (especialmente cientistas e filósofos) acharem que o teísmo não seja plausível. Talvez eles sejam influenciados mais pelas ideias retóricas do que pelo argumento preciso. Mas eu agradeceria a sua opinião.

Obrigado pelo seu trabalho.

Saudações,

D

Estados Unidos

United States

D, essa mesma pergunta surgiu em um Seminário sobre a Sintonia Fina do universo que eu participei no verão passado na Universidade de Saint Thomas, e eu quero compartilhar com você as lições que aprendi lá.

David Manley estava explicando que na cosmologia confortável, pré-copernicana, que C. S. Lewis chamou de “imagem descartada” do cosmo, o teísmo pareceu bem mais provável que o ateísmo. Assim como o ovo Fabergé, o pequeno universo centrado na Terra, com as esferas dos planetas e as estrelas fixas circulando-a, clamava por uma explicação em termos de um Designer Cósmico. Mas se você concorda que, nessa visão, o teísmo é mais provável que o ateísmo, então, Manley argumenta, que você também deve concordar que um cosmo vasto, como o que observamos, conta contra a existência de Deus.

Eu já li literaturas filosóficas e científicas o suficiente sobre a sintonia fina para saber que a vastidão do cosmo não é surpreendente sobre o teísmo. Por exemplo, John Barrow e Frank Tipler em seu importante livro, The Anthropic Cosmological Principle [O Princípio Antrópico Cosmológico] (Universidade de Oxford, 1985), enfatizam que o tamanho e a idade do universo são o que nós deveríamos esperar observar. Pois o carbono que compõe o nosso corpo foi sintetizado no interior das estrelas e depois distribuído em todo o universo através das supernovas. Leva um longo período de tempo para formar as galáxias de estrelas e ainda mais tempo para o requisito do carbono para a vida ser espalhado para se tornar a fundação da vida biológica. Nenhum outro elemento poderia substituir o carbono nesse papel. Então o universo tem que ser tão velho quanto agora para a vida existir e, por isso, tão grande como é, já que o universo está em um estado de expansão cósmica desde a sua origem com o Big Bang há 13.7 bilhões de anos atrás. Então o tamanho e a idade do universo são o que se deve esperar dada a sintonia fina das condições iniciais do universo, as quais, muitos argumentaram, ser melhor explicada através do Design [desenho].

Agora, claro que alguém pode perguntar por que o Designer Cósmico escolheu criar o universo dessa maneira em vez de produzir as estrelas e os planetas milagrosamente em um instante. Mas me parece que se o Criador prefere fazer um universo dotado de condições iniciais e leis naturais que formam naturalmente as estruturas com o tempo, em vez de produzir um mundo com a aparência de idade (como a luz estelar que nunca viajou das estrelas até nós ou depósitos de combustíveis fósseis que não são realmente vestígios de florestas primárias), dificilmente ele pode ser culpado por preferir tal mundo em vez de um mundo com um passado ilusório. De fato, uma vez que especulamos sobre universos operando de acordo com as diferentes leis da natureza, então nós perdemos completamente a nossa corrente e não temos ideia se tais mundos seriam preferíveis em relação a um mundo como o nosso, especialmente ao perceber os propósitos redentores de Deus para as criaturas criadas a Sua imagem.

Às vezes as pessoas reclamam que um cosmo vasto é uma perda de espaço e então questionariam a eficiência de Deus como Criador e Designer. Mas aqui eu sou persuadido pela explicação de Thomas Morris de que a eficiência é um valor somente para alguém que tem tempo e/ou recursos limitados, uma condição que não se aplica a Deus. Por isso eu penso que aqueles que concordam com a objeção da eficiência estão errados ao pensar em Deus como um engenheiro organizando os seus recursos, em vez de pensar Nele como um artista que gosta de espalhar cores deslumbrantes e Suas criações em Sua tela cósmica. Eu fico surpreso quando vejo as estruturas cósmicas e galácticas fotografadas pelo telescópio Hubble. A vastidão e beleza do universo fala para mim da grande majestade de Deus e a Sua maravilhosa condescendência em amar e cuidar de nós.

Claro, a escolha de Deus para criar o cosmo dessa forma levanta o problema do mal natural, o sofrimento que resulta do viver em um cosmo governado pelas leis naturais. Você está ciente da relevância das discussões do mal natural para a sua questão, e eu não vou repetir o que já escrevi sobre esse assunto em outro lugar (ex. Filosofia e Cosmovisão Cristã). É suficiente dizer que eu penso que nós não estamos em posição de fazer julgamentos de que é provável que Deus não tenha boas razões para as deficiências perceptíveis deste mundo. Eu concordo com William Dembski de que um mundo como o nosso é um lugar adequado para pessoas caídas e pecaminosas como nós e para o cumprimento do plano redentor de Deus para a raça humana. Então rejeito a sua premissa 2 sem reservas, assim como eu rejeito as sugestões similares em relação ao mal natural.

Então, como eu digo, eu achei a explicação de Manley inquietante. Mas uma conversa pessoal com Nevin Climenhaga, um antigo estudante de Tim McGrew na Universidade Western Michigan e um gênio da teoria da probabilidade, provou ser reveladora. Nevin explicou que Manley estava certo de que se você concorda que a existência de um universo pequeno é mais provável no teísmo que no ateísmo, ou seja, P (Universo Pequeno | Teísmo) > P (Universo Pequeno | Ateísmo), então você deve concordar que assim como a pequenez do universo apoia o teísmo, a vastidão do universo apoia o ateísmo. Mas (e aqui está o problema) não no mesmo grau!

Isso pode ser visto através do Teorema de Bayes sobre a Probabilidade. (Nós deixaremos de fora a informação k em prol da simplicidade).

IIIIIIIIMMMAAAAAAAAAAAAAAAAGEEEEEEMMMMMMM (Há uma imagem aqui. Não dá para ver.)

Vamos supor que P (Universo Pequeno | Teísmo) = 0,01 e P (Universo Pequeno | Ateísmo) = 0,0001. Isso reflete a nossa convicção que dado um universo pequeno, pré-copernicano; a existência de Deus é muito mais provável que o ateísmo. Isso supõe que a probabilidade anterior ou intrínseca do teísmo ou ateísmo é exatamente a mesma; caso contrário, o argumento de Manley entra em colapso. Então vamos supor, para o bem do argumento, que P (Teísmo) = 0,5.

Agora para calcular a probabilidade de um universo vasto (ou seja, um universo que não é pequeno) no teísmo, você subtrai a probabilidade de um universo pequeno no teísmo de 1,0; isto é:

P (Universo Vasto | Teísmo) = 1,0 – P (Universo Pequeno | Teísmo)

Então segue que a probabilidade do teísmo em um universo vasto comparado com a probabilidade do ateísmo em um universo vasto é:

Aqui 1,0 – P (Universo Pequeno | Teísmo) = 0,99; e 1,0 – P (Universo Pequeno | Ateísmo) = 0,9999. Em outras palavras, o grau em que a vastidão do universo aumenta a probabilidade do ateísmo é marginal! Quase não muda as probabilidades. Então, enquanto a pequenez do universo aumentaria muito a probabilidade do teísmo, a vastidão do universo só aumenta a probabilidade do ateísmo de forma insuficiente. Essa diferença insignificante é facilmente superada quando se calcula em outra informação além da do tamanho do universo, como a sua existência, sua afinação, e assim por diante. Então o tamanho do universo pode se tornar virtualmente irrelevante.

D, Eu acredito que isso possa ajudar as suas intuições. O isolamento da vastidão do cosmo conta contra o teísmo até certo grau, mas não de forma decisiva; de fato, dada todas as evidências que temos, eu deveria dizer de forma insignificante.[1]



[1] Eu agradeço a Nevin por seus comentários sobre o primeiro rascunho dessa Pergunta da Semana. É encorajador ver filósofos cristãos jovens e talentosos chegando através do sistema.

William Lane Craig