Linguagem e Verdade Objetiva

#455

Linguagem e Verdade Objetiva

Olá, Dr. Craig,

Eu gostaria de agradecer a você e a sua equipe por todo o trabalho que vocês fazem. É incrível ver como Deus deu o dom a pessoas para articular e apresentar Sua verdade em ambientes acadêmicos rigorosos. Nos últimos anos, especialmente desde que entrei na pós-graduação, eu comecei a apreciar mais o seu trabalho e a sua abordagem.

Eu fiquei pensando sobre quando e como perguntar você a pergunta que tenho em minha mente. Provavelmente por causa do meu próprio desconforto com o assunto. No último ano, eu tive o prazer de conversar com um amigo meu que tragicamente deixou a fé. Em várias ocasiões, conversamos sobre seus receios filosóficos sobre o cristianismo e sobre qualquer outra fé que alegue valores morais absolutos. Ele expressou a sua desconfiança em derivadas absolutas que surgem da linguagem, um meio em constante evolução. Ele agora se considera um relativista moral que tem princípios e que toma posições morais. Talvez algo parecido com Harris.

Isso me leva a uma versão da questão levantada na conversa: Como pode a verdade absoluta ser comunicada por meio da linguagem?

Para esclarecer essa pergunta desesperada, eu creio que o que pergunta liga de forma correta a ideia da verdade com a linguagem. Ele talvez até suponha que o conceito de verdade é derivado a partir das ideias de pessoas em um contexto cultural (ideias como o sistema de castas, acreditar na reencarnação, pensar nas mulheres como propriedade, direito dos homossexuais ao casamento, etc.). Outra suposição, compondo a questão, é que a linguagem muda; as definições, as conotações, os coloquialismos e a gramática variam com o tempo em cada língua.

Eu não sei qual área de epistemologia tenta responder tal pergunta. (Como podemos confiar na linguagem para nos dar uma verdade absoluta?) Eu tentei responder essa questão apontando para o estudo da hermenêutica (ex. explicações bíblicas e teologia sistemática).

Eu agradeceria qualquer explicação, recurso ou conselho ao responder a pergunta: “Como podemos confiar na linguagem para nos dar uma verdade absoluta”? (Eu acho essa versão particular da pergunta mais aplicável.)

Eu estou empolgado para ouvir os seus debates da Alemanha.

Dem treuen Herrn befohlen.

Joel

Estados Unidos

United States

Você pergunta “Como pode a verdade absoluta ser comunicada por meio da linguagem”? O seu amigo cético aparentemente pensa que isso é impossível.

Essa pergunta me parece estranha. De que outra forma a verdade poderia ser comunicada? Pense: a comunicação parece, por natureza, envolver algum tipo de linguagem; mesmo sendo língua de sinais ou semáfora, essa língua seria o meio necessário para comunicar a verdade. E não vamos nos intimidar pelo bicho-papão “verdade absoluta”. Eu entendo que “verdade absoluta” simplesmente significa uma verdade que não é relativa de pessoa para pessoa, não é uma verdade que é só verdade para mim ou para você, mas uma verdade objetivamente verdadeira. Portanto, eu prefiro falar de verdade objetiva em vez de verdade absoluta, o que talvez tenha conotações enganosas.[1] Então, exemplos de verdades objetivas seriam “O Chicago Cubs não venceu World Series de 2015”, “George W. Bush era presidente dos Estados Unidos antes de Barack Obama” e “O PIB da China é maior que o do Tajiquistão”.

Agora você, e provavelmente o seu amigo, entenderam essas frases. Então eu não comuniquei a verdade objetiva por meio da linguagem? Se houvesse palavras nessas frases que você não entendesse, como PIB, você poderia me pedir para definir essas palavras em termos que você entende. Então qual é o problema? Claramente, o seu amigo tem uma ônus da prova muito grande se ele vai nos convencer que é impossível comunicar a verdade objetiva pela linguagem.

A dificuldade que ele enfrenta não é só produzir tal prova, mas nos comunica-la. Como ele faria isso sem a linguagem? Como ele nos mostrará que é impossível comunicar a verdade objetiva por meio da linguagem sem a linguagem? Ele diz coisas como “Não há morais absolutas”, “Linguagem é um meio sempre em evolução”, “O cristianismo não é verdadeiro” e assim por diante, e supõe que você o entende. Ele próprio é comprometido com a comunicação daquilo que ele considera verdade objetiva através da linguagem. Assim, ele puxa o próprio tapete.

Então que argumento ele dá para ser impossível comunicar as verdades objetivas pela linguagem? Você diz que ele pode supor “que o conceito de verdade é derivado a partir das ideias de pessoas em um contexto cultural”. Eu não tenho certeza do que isso significa. Claro, pessoas em diferentes contextos culturais tem diferentes ideias sobre as coisas, incluindo a verdade. E daí? Como isso justifica a conclusão de que algumas dessas pessoas não afirmaram ou não comunicaram verdades?

Da minha parte, eu acho que alguma versão da Teoria da Correspondência da Verdade é, em sua maioria, satisfatória. Essa teoria volta para Aristóteles e além. De acordo com Aristóteles, “Dizer do que é que ele não é e do que não é que ele é, é o falso; dizer do que é que ele é e do que não é que ele não é, é o verdadeiro”. Aqui, Aristóteles fornece as condições sob as quais algo é verdadeiramente afirmado, em vez de dar uma definição da própria verdade, e me parece que sua caracterização muito influenciável está correta. Durante a Idade Média, os filósofos falavam sobre a questão da verdade mais diretamente, Tomás de Aquino caracterizava a verdade como a correlação do intelecto e da realidade. Em outras palavras, se a realidade é como o intelecto julga que ela seja, então a verdade é uma qualidade inerente no julgamento e no próprio intelecto. Entre teóricos correspondentes contemporâneos, a verdade é concebida como uma propriedade de qualquer uma das frases ou proposições as quais correspondem ao mundo como é. Assim, por exemplo, uma frase como “A neve é branca” é verdade somente se a neve for branca. Nós precisamos entender a noção da verdade tão correspondente quanto “aquele S” que é verdade (ou corresponde à realidade) somente se S. Isso é tudo o que há sobre verdade como correspondente. Nós precisamos entender a noção de verdade como correspondência como nada mais que “aquele S” sendo verdadeiro (ou que corresponde à realidade) se e somente se S. Isso é tudo o que há sobre verdade como correspondência.

Outro problema que você menciona é que “a linguagem muda; as definições, as conotações, os coloquialismos e a gramática variam com o tempo em cada língua”. Isso é truísmo. Mas o que nos previne de aprender como as pessoas definem e usam as suas palavras para entendermos a verdade que eles comunicam? Se alguém diz para mim “La neige est blanche”, eu entendo perfeitamente o que ele diz, apesar do fato de que a língua dele não é a minha, já que eu separei um tempo para aprender francês.

Mesmo com a minha língua, eu posso aprender na linguagem da Bíblia do Rei Jaime que a palavra “maneira” tem um significado diferente que há hoje, então quando diz “sede vós também santos em todo o vosso procedimento” (1 Pedro 1:15), eu percebo que está falando sobre nosso comportamento, e não como alguém fala. Então, sim, uma frase que uma vez expressou uma verdade pode vir a expressar uma falsidade se os significados das palavras mudam suficientemente e alguém se prende às palavras originais. Mas a frase ainda é verdadeira já que suas palavras foram definidas originalmente. Agora nós usaremos palavras diferentes para comunicar a mesma verdade.

Então eu não acho que o seu amigo tenha, ou possa ter, qualquer boa razão para afirmar que a verdade objetiva não pode ser comunicada pela linguagem. De fato, não é a posição dele auto-referencialmente incoerente? Ele afirma, “a verdade objetiva não pode ser comunicada pela linguagem”. É essa uma verdade objetiva? Se não for, então não é verdade que a verdade objetiva não pode ser comunicada pela linguagem, e nós podemos parar de nos preocupar. Mas se é objetivamente verdadeira, então a própria afirmação se contradiz, já que diz que nenhuma verdade objetiva pode ser comunicada pela linguagem. Portanto, a posição do seu amigo é incoerente.

A subdisciplina de filosofia que lida com tais assuntos é primeiramente a filosofia da linguagem. Você pode olhar no livro de William Alston, A Realist Conception of Truth (Cornell University Press, 1996). Nesse site você pode olhar em português http://www.reasonablefaith.org/portuguese/existem-verdades-objetivas-sobre-deus e em inglês: http://www.reasonablefaith.org/propositional-truth-who-needs-it.

Notas



[1] Pelo mesmo motivo que eu sempre falo deveres e valores objetivos em vez de deveres e valores morais absolutos. O que é certo ou errado diferirá de uma pessoa para outra e de circunstância para circunstância, mas nas circunstâncias em que uma pessoa encara uma escolha moral, sempre haverá uma coisa objetivamente certa a fazer. Na verdade, relendo a sua explicação da sua conversa com o seu amigo, Joel, eu me pergunto se você talvez o entendeu. Talvez ele só esteja negando que as verdades morais objetivas não podem ser comunicadas pela linguagem. Pois a última afirmação é claramente contraditória e é difícil entender como alguém poderia afirma-la.

William Lane Craig