Deus ama os que praticam o mal?

#456

Deus ama os que praticam o mal?

Talvez eu esteja escrevendo para o email errado. Eu li e sei que o Dr. William Lane Craig não pode responder nossas perguntas, e não o culpo. Sei que ele é um homem ocupado, mas eu realmente gostaria que minha pergunta chegasse até ele.

Eu tenho 15 anos de idade, mas tenho sido atraído à filosofia e à lógica por sua grande capacidade de provar coisas imateriais. Por exemplo, 1+1=2, esta é uma resposta completamente lógica e o legal disso é que não há outras possibilidades. É claro que isso não se aplica a todas as conclusões lógicas, mas deduz-se.

Eu compreendi o argumento cosmológico Kalam, a teoria da evolução, o big-bang, e várias outras teorias e argumentos lógicos e científicos. Isso se deu porque eu nunca quis acreditar em algo que eu não podia provar 100% por mim mesmo. Até cheguei ao ponto em que pensei que tudo era possível, certamente nada pode ser 100% provado. No entanto, naquele momento, a matemática veio e explicou muita coisa pra mim. Como mencionei anteriormente, 1+1=2, este é um exemplo de resposta absoluta. Em outras palavras, 100% comprovada. Daí comecei a pensar em vários outros cenários da vida real. A partir de toda esta informação pensei sobre o ambiente ao meu redor e cheguei a um sistema de pensamento o qual sempre sigo.

Me desculpe pela longa introdução, mas indo direto para minha pergunta:

Provar logicamente que Deus é todo-poderoso é lógico e simples, o mesmo sobre Deus sendo todo-sapiente, entretanto, encontrei um problema em provar que Deus é todo-amoroso, pois isso não deduz-se de forma direta. A ideia de um Deus amoroso é compreensível, mas o problema é com Deus ser todo-amoroso. Deus é totalmente inteligente, portanto ele é justo. Ser justo significa que ele é reto com os humanos, logo ele deve amar pessoas e repugnar pessoas. No entanto, aqueles por quem ele sente antipatia ele os repugna desde um tipo diferente de amor. Como Deus ama sua criação, ele ama a todos, quer você seja pecador ou não. Porém, para que Deus seja justo, ele deve ter um conceito diferente de amor por aqueles que creem e seguem sua mensagem.

Meu ponto é, ao assistir bastante os pontos do Dr. William Lane Craig contra o Islã (a propósito, estou realmente impressionado com o trabalho do Dr. Craig. De fato, eu o respeito e aprecio seu trabalho e forma de chegar ao conhecimento através da lógica). Eu descobri que o conceito dos muçulmanos sobre Deus é de que ele não é todo-amoroso, portanto, está mais distante do onibenevolente Deus. Vejo que o Islã tem sido um pouco mal compreendido.

Em árabe existem mais de 10 palavras diferentes para amor. Sim, diz que Deus não ama os agressores, etc., mas ele usa uma das 10 palavras diferentes em árabe para amor.

Há outras palavras que têm sido usadas para representar o amor de Deus por sua criação, as quais aparecem bem no começo do Corão “Em nome de Alá, o clemente e misericordioso”. Em árabe é “bismillahir rahmanir Rahim”. No árabe, quando você se aprofunda no uso e no contexto das palavras “benevolente” e “misericordioso” descobre que ‘benevolente’ tem sido usada para demonstrar o cuidado e amor de Deus por toda sua Criação. Enquanto a palavra ‘misericordioso’ tem sido usada para representar o amor e cuidado de Deus para com os que creem. Nisso eu vejo justiça e é isso que eu espero que Deus seja. No Corão diz, e eu cito: “Poderá, acaso, equiparar-se ao fiel o ímpio? Jamais se equipararão!” – capítulo 32, verso 18. Nisso posso ver justiça, a qual praticamente perdemos nesta nova definição de Deus, embora deva ser a mais importante de todas.

Eu realmente espero que o Dr. Craig possa ler meu ponto e dizer-me se este é possível ou não. No final não estou buscando provar o Islamismo ou o Cristianismo, tudo o que quero é seguir a verdade, seja ela qual for, Cristianismo, Islamismo, etc., e estou absolutamente certo de que o Dr. Craig é alguém que pode me aconselhar.

Muito obrigado por ler minha carta, e realmente sinto muito pelo texto tão longo e pela possibilidade de estar enviando-a para o email errado.

Mohammed

- país não especificado

- country not specified

Mohammed, estou tão feliz por sua busca pela verdade com uma mente aberta através de suas perguntas! É um prazer interagir com você.

Uma vez que os pontos de sua introdução não estão relacionados com a questão, permita-me saltá-los e retornar a eles mais tarde, ao final da minha resposta.

A mim parece ser bastante simples provar que Deus, no caso de que Ele exista, seja todo-amoroso. Deus, por definição, é o maior ser concebível. Se houvesse qualquer coisa que você pode imaginar que fosse maior que Deus, então isso seria Deus! Portanto, muçulmanos e cristãos concordam que, necessariamente, Deus é o maior ser concebível. Agora, além de ser todo-poderoso, onisciente, o maior ser concebível também deve ser moralmente perfeito. Isso faz com que Deus seja todo-amoroso, pois certamente é moralmente melhor ser todo-amoroso do que não ser. Especialmente é melhor amar a outros incondicionalmente, imparcialmente e universalmente, do que amar meramente de forma condicional, parcial ou seletiva. O que você pensaria de um pai ou uma mãe que dissesse a seus filhos, “Se você alcançar os meus padrões, e fizer o que eu digo, então (e somente então) eu lhes amarei?”. Pessoas que tiveram pais assim, os quais não os amaram incondicionalmente, conhecem as cicatrizes emocionais que carregam como resultado. Sendo o maior ser concebível, o ser mais perfeito, o qual é a fonte de toda bondade e amor, o amor de Deus deve ser incondicional, imparcial e universal. Portanto, Deus, como o ser perfeito deve ser todo-amoroso.

E é exatamente isso o que a Bíblia afirma. A Bíblia diz:

“Deus é amor... Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados.” (1 João 4:8,10).

Ou, novamente diz:

“Mas Deus demonstra o seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores.” (Romanos 5:8).

Jesus ensinou sobre o amor incondicional de Deus pelos pecadores. Vemos isso na parábola do filho pródigo e da ovelha perdida, em suas ações ao redor da mesa da comunhão com imorais e impuros, e em seus discursos, como o do Sermão do Monte. Ele disse, por exemplo:

“Vocês ouviram que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o sol sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam,...o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês.” (Mateus 5:43-48).

O amor do Pai Celestial é imparcial, universal e incondicional. Que contraste ao lermos o que o Corão tem a dizer sobre a atitude de Deus em relação aos pecadores! De acordo com o Corão Deus não ama os pecadores. Este fato é enfatizado repetidamente e constantemente como uma batida de tambor através das páginas do Corão. Apenas considere as seguintes passagens:

“Deus não ama os incrédulos” (III. 25)

“Deus não ama os que praticam o mal” (III. 30)

“Deus não ama o orgulhoso” (IV. 40)

“Deus não ama o transgressor” (V. 85)

“Deus não ama o pródigo” (VI. 140)

“Deus não ama o traiçoeiro” (VIII. 60)

“Deus é inimgo dos descrentes” (II. 90)

Vez após outra o Corão declara que Deus não ama as próprias pessoas a quem a Bíblia diz que Deus ama tanto, ao ponto de enviar Seu Filho para morrer por elas!

Agora, como você destacou, há diferentes palavras em árabe relacionadas a Alá no Corão que aparentam expresssar seu amor, por exemplo, o Corão chama Alá de “al-Rahman al-Rahim” – o Todo-Misericordioso, o Todo-Clemente – até que você se dá conta de que, de acordo com o Corão, a misericórdia de Alá e sua compaixão devem ser pagas. Ao chamar Deus de clemente e misericordioso o que o Corão quer dizer é que se você crer e fazer boas obras, então Deus é alguém com quem você pode contar para dar o que você mereceu, e mais um bônus. Desta forma o Corão promete:

Trabalhe e Deus certamente verá seu trabalho. (IX. 105)

Toda alma deve pagar na íntegra pelo que fez. (II. 280)

Aqueles que creem e fazem obras de justiça, realizam oração e pagam esmolas – seu galardão espera por eles com o Senhor. (II. 275)

Este é o tamanho da misericórdia e da compaixão de Alá: você ganha o que merece, e mais um bônus. Isso não é amor.

De acordo com o Corão, o amor de Deus é reservado somente para aqueles que o merecem. Ele diz,

Para aqueles que creem e praticam justiça Deus concederá amor. (XIX. 95)

Desta forma o Corão nos assegura o amor de Deus por aqueles que temem a Deus e fazem o bem, mas Ele não tem amor por pecadores e incrédulos. Assim, no conceito islâmico, Deus não é todo amoroso. Seu amor é parcial e deve ser merecido. O Deus islâmico apenas ama aqueles que primeiro O amam. Seu amor não excede o amor ao qual Jesus disse que até os cobradores de impostos e incrédulos demonstram.

Agora, você levantou questões sobre a justiça de Deus. Muçulmanos com quem já falei acham inconcebível a idéia de que Deus possa amar incrédulos e aqueles que praticam o mal, da mesma forma com que ela ama aos que crentes. Mas gostei da forma como você colocou: “Ser justo significa que ele é reto com os humanos, logo ele deve amar pessoas e repugnar pessoas”. Ah, perceba que você não disse que Deus amaria (algumas) pessoas e não amaria (algumas) pessoas. Não, Deus como um ser todo amoroso ama a todos de igual maneira. Mas Ele pode repugnar algumas pessoas no que diz respeito a seus pecados. Há pessoas que eu repugno, elas podem me deixar loucas, mas isso não significa que eu não as ame. Gostar de pessoas claramente não é a mesma coisa que amá-las. Na verdade, ser capaz de amar pessoas repugnantes é uma forma de medir quão grande é amor daquela pessoa!

Ao contrário do Corão, o Deus da Bíblia ama até mesmo aqueles que são Seus inimigos e que desta forma são colocados sob sua justiça. No livro de Ezequiel Deus diz:

“Terei eu algum prazer na morte do ímpio? Palavra do Soberano, o Senhor. Ao contrário, acaso não me agrada vê-lo desviar-se dos seus caminhos e viver?...Juro pela minha vida, palavra do Soberano, o Senhor, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem dos seus caminhos e vivam! Voltem! Voltem dos seus maus caminhos! Por que o povo haveria de morrer?” (Ezequiel 18:23; 33:11-12)

Aqui Deus literalmente implora ao povo para que voltem de seus maus caminhos e assim Ele não tenha que julgá-los. Ele ama os incrédulos e pecadores e quer salvá-los.

Portanto, não estou convencido de que os muçulmanos podem sustentar que Deus é todo amoroso e, consequentemente, a grandeza de Deus, ao apelar á afirmação do Corão de que Alá é todo-clemente e todo-compassivo, pois o que estas declarações realmente querem dizer é que o amor que Alá tem é condicional, parcial e seletivo para com aqueles que conquistam o seu favor. Alá não ama pecadores, mas reserva seu amor para aqueles que o conquistam. Desta forma concluo que este conceito de Deus é moralmente defeituoso.

Finalmente, permita-me dizer algo breve sobre seus comentários introdutórios.

Em primeiro lugar, seu desejo de nunca “acreditar em algo que não pode provar 100% por si mesmo” é uma receita para o desespero, a qual o levará ao ceticismo sobre quase todas as coisas, o que é insuportável e injustificável. Melhor seria que você decidisse crer somente naquilo que tem uma boa razão para pensar ser verdadeiro, ainda que estas razões não fossem 100% convincentes.

Quando você diz, “Até cheguei ao ponto em que pensei que tudo era possível, certamente nada pode ser 100% provado”, você deve estar confundindo possibilidade epistêmica com possibilidade lógica ampla. Dizer que algo é epistemicamente possível é dizer que, até onde sei, isso é verdadeiro. Diante de sua postura irrealística recém mencionada, você poderia no máximo concluir que, uma vez que não se pode provar 100%, tudo é epistemicamente possível.

Mas se é isso o que você quer dizer, então matemática não irá salvá-lo. Pois embora a verdade matemática seja necessariamente verdadeira, nem sempre temos 100% de prova desta verdade. Por exemplo, a conjectura de Goldbach (isto é, todo inteiro par maior que 2 é a soma de dois números primos) não é necessariamente verdadeiro nem necessariamente falso, mas continua sem provas qual das duas respostas está correta. Ainda que a conjectura de Goldbach seja epistemicamente possível, isso não significa que seja logicamente possível.

Portanto, quando você diz, “1+1=2 [...] este é um exemplo de resposta absoluta. Em outras palavras, 100% comprovada,” você está erroneamente equiparando asoluto com probabilidade. A conjectura de Goldbach também é uma resposta absoluta, mas não é comprovável.

Talvez tudo o que você queira dizer é que a comprovação de certas verdades matemáticas o salvaram do completo ceticismo. Isso é bom, mas o ponto ainda mais fundamental é que não temos razão para concordar com o cético de que o conhecimento deva ser equiparado com 100% de comprovação, o que é uma posição contraproducente e insustentável.

William Lane Craig