Seres necessários, mas dependentes?

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Seres necessários, mas dependentes?

Caro Dr. Craig,

Em seu trabalho sobre objetos abstratos, você mencionou que poderia existir seres necessários que existem “ab alio”, ou seja, que dependem de outros seres necessários para a sua existência.

A minha pergunta é: vamos supor, em prol do argumento, que tais seres necessários ab alio existam, a existência deles é uma exceção (ou relevante de alguma forma) para a premissa do argumento teleológico de acordo com a qual tudo o que existe, existe em virtude de uma necessidade da sua própria natureza ou em virtude de uma causa externa?

Eu pergunto isso porque tal premissa propõe uma bifurcação mutuamente exclusiva entre seres necessários por um lado, e seres contingentes por outro.

Mas seres necessários ab alio são tanto necessários quanto dependentes para a existência deles em uma causa externa, por isso fornecendo uma terceira categoria de seres aparentemente não inclusos na premissa do argumento teleológico.

Obrigado.

Carlos

Espanha

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Você é astuto em perceber a conexão entre objetos abstratos - que são necessários, mas dependentes em sua existência – e um argumento particular para a existência de Deus, Carlos. Você só usou o rótulo errado: é o Argumento de Leibniz a partir da Contingência, e não o argumento teleológico.

Parece estranho dizer que algo poderia existir dependentemente, mas apesar disso necessariamente. Mas os chamados criacionistas absolutos (que mantém que Deus criou objetos abstratos como números, conjuntos e outros objetos matemáticos) mantém que em todos os mundos possíveis Deus cria tais coisas através da Sua atividade intelectual. Portanto, embora essas coisas existam necessariamente, eles dependem de Deus para a sua existência. Essa afirmação talvez não concorde com uma doutrina bíblica da criação, que diz que nada existe eternamente junto com Deus, mas ainda assim a ideia de seres necessários, mas dependentes parece coerente filosoficamente.

Então quando consideramos o argumento de Leibniz a partir da contingência, nós precisamos dar espaço para seres que existem necessariamente, mas dependentemente. Geralmente essa distinção é encoberta para comunicar um argumento que já é difícil para um público popular. Mas eu uso a linguagem de “existir por uma necessidade da sua própria natureza” precisamente para indicar um ser que existe não só necessariamente, mas a se (independentemente) em vez de ab alio (dependentemente). Então, ao contrário de um ser que existe por uma necessidade da sua própria natureza, haverá seres dependentes, seres que existem por alguma causa externa.

Geralmente, esses seres dependentes são chamados de seres contingentes porque eles são contingentes sobre a existência de alguma causa. Mas o problema é que na lógica modal a “contingência” envolve a “não-necessidade” – seres contingentes só existem em alguns mundos, não em todos. Mas estamos lidando com seres que são contingentes em um senso da palavra, mas não contingentes em outro senso da palavra.

Eu tento evitar essa confusão terminológica dizendo que um ser existe por necessidade da sua própria natureza ou depende de uma causa externa para existir. Então, podemos explicar, se pressionado, que esses seres que não existem por uma necessidade da própria natureza existem contingentemente (somente em alguns mundos possíveis) ou necessariamente (em todos os mundos possíveis), mas em qualquer um dos casos ab alio (através de uma causa externa).

William Lane Craig