Muçulmanos e Cristãos adoram o mesmo Deus?

#459

Muçulmanos e Cristãos adoram o mesmo Deus?

Dr. Craig,

Agradeço por seu trabalho diligente para o Reino de Deus. Espero que saiba e aprecie a forma pela qual seu trabalho tem impactado a fé de um incontável número de pessoas ao redor do mundo.

Minha pergunta está relacionada com o conceito de Deus no cristianismo, islmamismo e judaísmo. Estou certo de que está ciente da atual controvérsia sobre os comentários do “mesmo Deus” feitos pelo professor do Colégio Wheaton. Como pode imaginar isso gerou uma série de debates incandecentes entre teólogos, pastores e pregadores. Pelo que entendo de seu trabalho você diria que embora muçulmanos e cristãos possa adorar o mesmo Deus histórico (o Deus de Abraão e Moisés), seus conceitos sobre Deus são fundamentalmente diferentes (por favor, corrija-me caso tenha me equivocado sobre sua visão). Isso refuta a idéia do “mesmo Deus”, pois na essência adoramos um Deus muito diferente, ainda que as religiões compartilhem um histórico em comum.

No entanto, várias das pessoas que defenderam o conceito do “mesmo Deus”, trouxeram à tona o fato de que os judeus negam o conceito de trindade e deidade de Jesus, e também que a maioria dos cristãos diriam que tanto judeus como cristãos adoram o mesmo Deus. Concordo que isso soa hipócrita. Você diria que judeus e cristãos adoram o mesmo Deus, ainda que sua idéia de Deus (ex: a trindade) seja fundamentalmente diferente? Se eles negam a trindade isso parece ser uma diferença fundamental suficiente para dizer que, de fato, não adoramos o mesmo Deus. Para mim este parece ser o único argumento convincente para defender a idéia do “mesmo Deus” entre islmamismo e cristianismo. Se aceitarmos isso, então também teremos que dizer que cristãos, judeus e muçulmanos, todos adoram o mesmo Deus ou que todos adoram um Deus completamente diferente, independente do contexto histórico.

Sinceramente,

Nathan

Estados Unidos

United States

A pergunta se muçulmanos e cristãos adoram o mesmo Deus levanta, talvez de forma inesperada, uma gama de dificuldades filosóficas, ao ponto que, no final creio não ser realmente a pergunta correta a ser feita.

Considere, por exemplo, a tentativa de meu amigo e colega Frank Beckwith em responder a questão

(http://www.thecatholicthing.org/2015/12/17/do-muslims-and-christians-worship-the-same-god/). Beckwith tenta responder a pergunta ao apelar para a noção de referência. Ele quer criar a condição sob a qual diferentes termos singulares (como nomes próprios) fazem co-referência (referem à mesma coisa). Assim, ele pergunta, “o que significa ter dois termos referindo-se à mesma coisa? Tome como exemplo os nomes ‘Muhammed Ali’ e ‘Cassius Clay’. Embora sejam termos diferentes, eles se referem à mesma coisa, pois ambos tem propriedades idênticas“. Aqui Beckwith estabelece condição suficiente para que dois termos sejam co-referentes:

1. Caso as referências de dois termos tenham propriedades idênticas, então os termos se referem à mesma coisa.

Então Beckwith aplica esta condição ao termo para Deus: “Então o fato dos cristãos chamarem Deus de ‘Yahweh’ e os muçulmanos chamarem Deus de ‘Alá’ não faz diferença se ambos ‘Deus’ tem propriedade idêntica”. Assim,

1*. Se as referências de “Yahweh” e “Alá” têm propriedades idênticas, então os termos se referem à mesma coisa.

Uma vez que os muçulmanos, cristãos e judeus são teístas clássicos, Beckwith declara que a condição para a co-referência é suficiente para ser aplicada.

Mas isso é rápido demais, pois o problema óbvio é que Yahweh e Alá não têm as mesmas propriedades. Sim, muçulmanos e cristãos adotam o teísmo clássico, um tipo de monoteísmo genérico. Porém, o conceito muçulmano de Deus e o conceito cristão de Deus são bem diferentes. Não consiste apenas no fato de que o cristianismo adota o trinitarianismo com respeito a Deus enquanto o islamismo é unitarianista, mas também em que o conceito de Deus no islamismo é moralmente defeituoso, como já argumentei em meus debates com teólogos muçulmanos e apologistas. O Deus da Bíblia é um Deus todo amoroso, cujo amor é universal, imparcial e incondicional, enquanto que o Deus do Islã não é todo amoroso, mas ama apenas os muçulmanos, cujo amor é portanto seletivo, parcial e condicional. Sendo assim, a condição suficiente declarada em (1*) não é completa.

Então Beckwith apela para um fenômeno muito debatido por filósofos da linguagem, ou seja, referindo-se com sucesso a algo por meio de uma falsa descrição. Por exemplo, suponhamos observar um casal caminhando no parque e que, ao notar seu comportamento, eu diga a você: “O marido dela é gentil com ela”. Ambos entendemos de quem estamos falando. Suponha, porém, que você saiba que o homem com quem ela está caminhando não é, de fato, marido dela, e ainda mais, que seu marido é desagradável e mau com ela. Neste caso eu disse algo verdadeiro a respeito do homem a quem me referia sem nem pensar que minha declaração era literalmente falsa. Então, Beckwith diz: “O fato de alguém ter conhecimento imcompleto ou sustentar falsa crença a respeito de outra pessoa – seja humana ou divina – não significa que aquele que tem melhor ou verdadeiro conhecimento sobre aquela pessoa não esteja pensando na mesma pessoa”.

Concedido! Mas isso não implica em que todos os casos envolvendo falsa descrição eles estejam pensando na mesma pessoa! Em alguns casos seus conceitos podem ser tão fundamentalmente diferentes que seus termos sequer co-referem. Tome o próprio exemplo de Beckwith do Nascimento Virginal e da Imaculada Concepção. Imagine um protestante ignorante que pensa que estes termos referem-se à mesma coisa, ou seja, a Jesus nascendo de uma virgem. Ele pode dizer que ele e os católicos creem na mesma coisa, mas que os católicos simplesmente usam um termo diferente para dizer que Jesus nasceu de uma virgem. Suponha que depois ele descubra que quando os católicos usam o termo “Imaculada Concepção” eles estão se referindo a Maria ter nascido sem o pecado original. Iria o protestante continuar dizendo que ele e os católicos estão se referindo à mesma coisa com seus respectivos termos? Não. Agora ele diria que os católicos estão se referindo à outra coisa, uma vez que ambos têm conceitos diferentes sobre a que se refere estes termos. Então o que dizer do Deus da Bíblia e o Deus do Corão? Será apenas uma questão de referir-se ao mesmo Deus baixo uma falsa descrição ou refere-se a duas deidades diferentes?

O problema é que Beckwith não nos dá as condições necessárias nem suficientes para termos de co-referência. Ele não nos diz quais condições devem ser atendidas para que dois termos sejam co-referentes. Então seu argumento de que “Yahweh” e “Alá” são co-referentes, apesar dos conceitos diferentes involvidos sobre Deus, não avança, e seu artigo termina muito abruptamente.

Este é apenas o início das dificuldades. Um outro problema é que “adorar x” é o que filósofos chamam de contexto intensional (como oposto à extensional), onde o termo “x” não precisa se referir a absolutamente nada (como, por exemplo, “Jason adora Zeus”).[1] Em um contexto intensional, os termos co-referentes não podem ser substituídos sem impactar o valor verdadeiro de uma frase. Por exemplo, apesar de “Júpiter” poder referir-se ao mesmo deus como “Zeus”, ainda assim Jason, um grego, não adora Júpiter e talvez jamais tenha ouvido sobre o deus romano. Desta forma uma pessoa não pode dizer que Abdul, um muçulmano, adora Yahweh, ainda que “Yahweh” e “Alá” fossem termos co-referentes.

Diante destas dificuldades eu prefiro evitar problemas com qualquer tipo de referência ao perguntar, em vez disso, sobre os conceitos por parte de muçulmanos e cristãos a respeito de Deus. Os conceitos de Deus no cristianismo e no islamismo são tão fundamentalmente diferentes que não se tratam do mesmo Deus. Miroslav Volf, um teólogo evangélico que, assim como Beckwith, defendem a afirmação de que muçulmanos e cristãos adoram o mesmo Deus, reconhece,

Além de contestar a trindade e encarnação, os muçulmanos também contestam a afirmação dos cristãos de que Deus é amor – amor incondicional e indiscriminado. Não há afirmação no Islã de que Deus ‘justifica o ímpio’ e nenhuma ordenança para amar seus inimigos. Porém estas são afirmações peculiares ao cristianismo. Retire a redenção do ímpio e o amor pelos inimigos da fé cristã e você a estará des-cristianizando.

Eu gostaria que aqueles que insistem que os crstãos adoram um Deus totalmente diferente do Deus dos muçulmanos se agarrassem a esta diferença – que ao invés de querer ‘dar fim’ aos muçulmanos que os considerassem seus inimigos em nome de Deus, que procurassem abraçá-los em nome de Cristo. Se o fizessem, teriam que mostrar como lutar com seus inimigos é uma maneira de amá-los – um argumento que vários grandes teólogos do passado estavam dispostos a fazer (https://www.washingtonpost.com/news/acts-of-faith/wp/2015/12/16/do-muslims-and-christians-worship-the-same-god-college-suspends-professor-who-said-yes/).

Volf discerne corretamente como o conceito islâmico de Deus é moralmente defeituoso. Eu, por exemplo, tenho enfatizado este ponto, como ele recomenda, em meus debates com pensadores muçulmanos. Porém eu não os considero, como Volf impiedosamente sugere, como inimigos. Eles têm sido enganados por Satanás, o qual é o verdadeiro inimigo aqui. Uma maneira de amar os muçulmanos é explicando honestamente nossas diferenças, ao invés de esquivar-se em diálogos com falsidade inter-religiosa, e defender nosso ponto de vista, assim como os grandes teólogos do passado fizeram. Tenho descoberto que tal abordagem conquista o respeito e até a admiração dos muçulmanos.

Um ultimo ponto: e sobre os conceitos judaicos e cristãos de Deus? São eles tão diferentes ao ponto de não serem o mesmo Deus? Isso depende de sua perspectiva. O cristão não rejeita o conceito judaico de Deus como o muçulmano rejeita o conceito cristão de Deus. O cristão encontra o mesmo Deus do Antigo Testamento mais amplamente revelado no Novo Testamento e busca com antecipação o Filho e o Espírito no Antigo Testamento. Em contrapartida, o muçulmano explicitamente repudia o conceito de Deus encontrado no Novo Testamento.

Mas se eu fosse um judeu ortodoxo, então eu diria que os cristãos têm um conceito diferente de Deus e que estão adorando um Deus diferente. Se eu fosse um judeu ortodoxo eu consideraria o Deus do cristianismo como um Deus diferente. Olhe como certos judeus trataram o apóstolo Paulo. Eles o consideraram como herético e o perseguiram de cidade em cidade pelo Mediterrâneo na tentativa de assassiná-lo. Eventualmente os cristãos eram expulsos da sinagoga. Uma vez que a doutrina da trindade emergiu entre os primeiros pais da igreja primitiva o rompimento com o judaísmo se tornou, desde a perspectiva judaica, intransponível.

Então, se é possível dizer que muçulmanos e cristãos adoram o mesmo Deus não é a pergunta pertinente. A questão é, qual conceito de Deus é verdadeiro?



[1] Por esta razão não devemos dizer que os muçulmanos são idólatras pelo fato de não adorarem o Deus verdadeiro, mas sim que “Alá” não tem referência no mundo real; o que eles adoram simplesmente não existe, assim como Zeus.

William Lane Craig