Os argumentos teístas provam a existência de Deus?

#461

Os argumentos teístas provam a existência de Deus?

Querido Dr. Craig,

O Argumento Moral tem uma falha. A Premissa 1 tem um problema semântico.

1. Se Deus não existe, valores morais objetivos não existem.

E se pudéssemos imaginar uma entidade como Deus, sobrenatural, que em algum sentido importante difere-se de Deus como tal, o qual também pudésse fundamentar valores morais objetivos? Talvez onibenevolente, mas não onipotente, digamos?

Talvez todas as propriedades de Deus são necessárias para fundamentar valores morais objetivos, mas isso me parece ser improvável. Algumas das propriedades de Deus aparentam não ter nenhuma relação com os valores morais objetivos.

Se eu identifiquei isso como uma falha, então o argumento moral é falho em si mesmo, pois os valores morais objetivos poderiam ter uma base possível, fora de Deus.

Esta questão aponta para um tema mais profundo. Qual é a relação entre um fenômeno explicado com argumentos teístas e o objeto que o explica? Nenhum dos argumentos provam Deus como tal, mas todos servem para acrescentar uma peça chave ao quebra-cabeça. Mas como podemos saber que estes argumentos se referem à mesma explicação, e como alguém pode oferecer ao incrédulo um único argumento que mostre que Deus exista, quando sempre há uma ambiguidade sobre o que esta palavra implica? O que você quer dizer quando fala que certo argumento leva a Deus?

Sinceramente,

Jarl

Estados Unidos

United States

Você está destacando um bom ponto sobre todos os argumentos teístas, Jarl, embora eu pense que isso mostra não uma falha, mas simplesmente os limites de cada argumento.

Assim como o argumento moral não prova a onipresença de Deus, o argumento cosmológico também não mostra que Deus é moralmente bom, nem o argumento teológico que Deus é onisciente ou eterno. A última palavra explicativa em cada caso não produz uma doutrina totalmente completa de Deus. O que o argumento moral nos fornece é a metafísica necessária, de Bondade pessoalmente encarnada. Este é um conceito rico o suficiente para ganhar o mérido de ser chamado “Deus”, penso eu, mas se você achar este termo muito raso teologicamente para chamar-lhe “Deus”, então eu simplesmente irei parar com a metafísica necessária, de Bondade pessoal encarnada.

Da mesma forma o argumento cosmológico Kalam nos dá um Criador pesoal do universo que não tem causa, começo, imutável, imaterial, atemporal, infinito, com poder inimaginável, um conceito rico o suficente, creio eu, para merecer o título “Deus”. Mas se você argumentar que tal ser não demonstra ser bom e, portanto, Deus, está bem – eu me contentarei com o ápice da descrição explanatória do argumento.

Como já mencionei, isso seria uma forma bizarra de ateísmo, uma que nem merece o nome, a qual, digamos, admite que exista uma Bondade pessoalmente encarnada, necessariamente metafísica, ou que exista um Criador pessoal transcendente do universo. Então, em resposta à sua pergunta: “O que você quer dizer quando fala que certo argumento leva a Deus?”, quero dizer que o argumento implica a existência de um ser o qual seja mais do que razoável que o identifiquemos como Deus.

O que a sua pergunta destaca é que o argumento teísta contitui um caso cumulativo, parecido com o que um advogado apresenta na corte, onde linhas de evidências independentes reforçam uma à outra para sustentar a conclusão geral que não é vista por nenhum argumento em separado. Isso levanta uma questão: “Como sabemos que estes argumentos se referem à mesma explicação?” Embora muito possa ser dito quanto a isso, penso que a resposta mais simples e totalmente adequada para esta pergunta é a Navalha de Ockham. Não deveríamos multiplicar causas além do necessário. É mais plausível pensar que o Criador do universo, comprovado pelo argumento cosmológico de Kalam, também seja o Criador do universo comprovado pelo argumento teológico do que pensar que estes são dois seres diferentes. Semelhantemente, é mais plausível pensar que o campo metafisicamente necessário do universo comprovado pelo argumento de contingência é também o mesmo campo metafisicamente necessário para a Bondade pessoalmente encarnada provada pelo argumento moral, do que pensar que estas sejam duas realidades diferentes. Uma das virtudes impressionantes do teísmo é seu escopo explanatório: ele une tantas coisas diversificadas debaixo de uma única explicação derradeira.

Você também pergunta: “Como alguém pode oferecer a um incrédulo um único argumento que prove a existência de Deus, quando sempre existe uma ambiguidade sobre o que esta palavra implica?” É exatamente esta pergunta que inquietava a Santo Anselmo. Ele queria encontrar um único argumento que comprovasse a existência de Deus em toda Sua grandeza. Ele estava prestes a desistir, quando descobriu seu argumento ontológico. Este argumento, caso bem sucedido, comprova a existência do maior ser concebível. Penso que o argumento ontológico é um argumento sólido a favor da existência de Deus. Mas não o vejo como um argumento isolado, ele também é parte do caso teísta cumulativo, pois outros argumentos teístas fornecem razão para pensar ser possível existir o maior ser concebível, a qual é a premissa chave do argumento ontológico.

William Lane Craig