Porventura o Universo é um objeto, e isso mporta?

#469

Porventura o Universo é um objeto, e isso mporta?

Dr. Craig,

A minha pergunta é baseada em sua formulação do argumento de contingência, especificamente sobre a sua versão restrita do PSR (Princípio da Razão Suficiente).

PSR restrito: tudo o que existe tem uma explicação para sua existência, seja na natureza de sua própria necessidade ou uma causa externa.

Há boas razões para preferir um PSR restrito do que sua versão mais pesada - ele evita a famosa objeção de Peter Van Inwagen, que argumenta que o PSR é falso porque tem a consequência absurda de fazer com que todos os fatos sejam necessários. Estou ciente de que você tem a obra de Alexander Prus sobre a defesa da versão mais pesada e estou em dúvida no momento sem saber se a objeção de Inwagen é bem sucedida.

Voltando à sua formulação, parece que existe um argumento de Van Inwagem contra a sua versão também! O argumento pode ser assim indicado:

1 PSR restrito: Para cada objeto, há uma razão suficiente para o porquê da existência desse objeto.

2 PSR restrito é plausível, mas não ajudará a demonstrar que existe um ser necessário.

2.1 Só podemos usar o PSR restrito para demonstrar que um ser necessário só existe se o universo como um todo é um objeto individual.

2.2 Mas o universo não pode ser plausivelmente considerado como sendo um objeto individual

2.3 Em vez disso, a única maneira plausível de se pensar no universo é como uma enorme coleção de objetos (veja o livro de Peter Van Inwagen, Seres Materiais, para os detalhes deste argumento).

2.4 Mas se assim for, então talvez haja uma infinidade de objetos no universo que se estende através de um passado sem começo, e a existência de cada membro da coleção pode ser explicada em termos de um ou mais membros da coleção.

2.5 E se assim for, então não precisamos postular um ser necessário para explicar a existência do universo.

3 Portanto, na versão restrita do PSR, o argumento cosmológico de Leibniz é falho.

Uma das razões pelas quais eu acho este argumento bastante preocupante, é que sempre concordei com 2.3, que o universo deve ser visto como uma coleção de objetos, em vez de um objeto único (e porque eu nunca fui persuadido pelo exemplo da bola na floresta, a qual é um objeto único).

Em primeiro lugar, eu gostaria de fazer a pergunta geral: você acha que o argumento é válido, se não, por quê?

Eu acho que o trabalho principal precisa ser feito com base nas premissas 2.1 e 2.4. Em relação à 2.4, estaria eu correto em pensar que ele é semelhante ao que Pruss chamou de princípio Hume-Edwards - o princípio de que um conjunto inteiro pode ser explicado ao explicar cada um dos componentes? Se assim for, isso pode (e creio que já foi) ser abordado e oferece uma derrota poderosa. Meu exemplo favorito é encontrado no livro de Anthony Flew, “There is a God” [Há um Deus], onde ele aborda brevemente o argumento cosmológico. Ele observa que Swinburne e Conway apresentaram argumentos persuasivos contra a objeção de Hume. Ele cita Conway: "as explicações causais das partes de qualquer todo em termos de outras partes não podem ser acrescentadas a uma explicação causal do todo, se os itens mencionados como causas são itens cuja própria existência necessitam de uma explicação causal”. Flew demonstra isso com o exemplo de um vírus de computador que se auto-envia infectando computadores conectados por uma rede. Poderíamos ter o fato de 100 computadores terem sido infectados com o vírus, mas não explicaria a existência do vírus. No entanto, isso só seria sustentável se eu houvesse entendido a premissa corretamente.

Porém, eu não tenho absolutamente nenhuma idéia de como abordar 2.1?!

Para resumir a minha pergunta da melhor maneira possível: você acha que o argumento dado é exitoso em tornar sua versão restrita do PSR mais implausível do que plausível? Você tem alguma idéia sobre como abordar a premissa 2.1? Eu abordei de forma adequada o 2.4 ou me confundi com algo que não era?

Eu realmente espero que você possa responder-me Dr. Craig, eu sempre pensei que este era o mais forte dos argumentos da teologia natural, mas agora está em sérias dúvidas.

Saudações,

Callum

Reino Unido

United Kingdom

Esta é uma pergunta muito boa, Callum, que incide, não apenas sobre a versão de Leibniz do argumento cosmológico, mas também sobre o argumento cosmológico kalam. Ela levanta questões metafísicas profundas, que o teólogo natural preferiria deixar em aberto, de modo a ampliar o apelo de seu argumento teísta, tanto quanto possível.

Estou inclinado, portanto, apenas a ficar com a minha própria versão restrita do Princípio da Razão Suficiente (PSR), a saber,

Tudo o que existe tem uma explicação para sua existência, seja na necessidade de sua própria natureza ou em uma causa externa.

e apenas deixar o PSR formulado na sua premissa (1) para os outros. Porque a premissa (1) limita-se a uma condição suficiente (e não a uma condição necessária) para que algo tenha uma explicação. Ela nos diz que se algo é um objeto, então ele tem uma explicação; ela não requer que algo seja um objeto a fim de que isso tenha uma explicação. Isso é bom. Há uma abundância de coisas que podem não ser contadas como objetos, por exemplo, um cardume de peixes, que plausivelmente têm explicações de sua existência. Então, a premissa (1) é uma versão ainda mais restrita da minha versão de PSR e sua verdade não é incompatível com a verdade da minha versão. Então, eu concordo que (1) é verdadeira e vou deixá-la de lado.

Sendo assim, uma vez que eu não estou usando o seu PSR restrito, a premissa (2) é indiferente para mim. É um problema apenas para aqueles que estão usando a sua versão, juntamente com a sua noção muito peculiar do que conta como um objeto. Se a premissa (3) é verdadeira, então tudo o que resta é que os defensores do argumento cosmológico de Leibniz não devem trocar a minha versão do PSR pela sua!

Mas o que pode ser dito do argumento em apoio à premissa (2)? Você não tem certeza de como lidar com a (2,1). Bem, que tipo de argumento supostamente deve ser visto aqui para um ser necessário? Presumivelmente, um que deduz que o universo seja um objeto contingente, o qual tem uma explicação. Uma vez que seu PSR restrito aplica-se apenas a objetos, é necessário presumir que o universo é um objeto, a fim de chegar à conclusão de que ele tem uma explicação. Pode haver outros tipos de argumentos para um ser necessário que empregam o seu PSR restrito, mas se estamos falando de um argumento que deduz que o universo seja um objeto condicionado à existência de um ser necessário, a premissa (2,1) parece ser inquestionável: ela apenas destaca o quão severamente restringido o seu PSR é.

O verdadeiro coração do argumento é (2.3) e sua implicação (2.2). Ao afirmar (2.3), eu não acho que você percebe quão radical é a visão de van Inwagen sobre objetos. Por que você diz, "Eu sempre pareço concordar com 2.3, que o universo deve ser visto como uma coleção de objetos, em vez de um único objeto (e porque eu nunca fui persuadido pelo exemplo da bola na floresta, a qual é um objeto único)”. Para a visão de van Inwagen a bola na floresta não é um único objeto. Na verdade, em sua opinião, não existe tal objeto como a bola na floresta; não é mais um objeto do que o universo é um objeto. Na visão de van Inwagen, a bola na floresta literalmente não existe. Então você não pode consistentemente dizer que a bola na floresta deve ter uma explicação, mas que o universo não precisa, pois a bola e o universo estão ontologicamente em pé de igualdade. Tais objetos não existem. Portanto eles não existem sem uma explicação, uma vez que não existem de forma nenhuma.

Agora, talvez você vai querer recuar da metafísica radical de van Inwagen e afirmar que a bola tem unidade suficiente nas partículas que a compõe para constituir um objeto, enquanto o universo não o faz. Eu acho que esta alegação poderia plausivelmente contestada: o universo tem todos os tipos de propriedades exclusivas a ele, como uma certa curvatura do espaço-tempo, uma certa densidade, uma determinada temperatura, uma certa taxa de expansão, e assim por diante, o suficiente para ele ser contado como um objeto, assim como a bola. Mas não importa: mesmo que o universo não seja agora um objeto, ele certamente foi no passado, quando era tão denso que foi encolhido para proporções subatômicas. Talvez uma vez tenha sido um objeto, o qual agora foi explodido em pedaços. Nesse caso (2.1) exige que ele tem uma explicação.

Eu prefiro evitar todo este enigma, usando a "existência" no mesmo sentido utilizado na linguagem comum. Mesmo que o universo não seja um objeto e por isso não exista em um sentido metafisicamente pesado, ainda assim o universo existe no mesmo sentido em que a Torre Eiffel existe. Então, se você acha que a Torre Eiffel precisa de uma explicação, o mesmo acontece com o universo. Esse é o ponto de minha versão do PSR. Não há nenhuma razão para restringir a nossa atenção aos "objetos" da forma metafisicamente pesada que van Inwagen está falando.

Então, em suma, "você acha que o argumento dado é exitoso em tornar sua versão restrita do PSR mais implausível do que plausível?" Exatamente o oposto! A lição da sua objeção não é basear um argumento da contingência Leibnizian em um mau PSR! A minha cheira à rosa se fizermos uma comparação. "Você tem alguma idéia sobre como abordar premissa 2.1?" Veja meu comentário acima. "Eu abordei de forma adequada o 2.4 ou me confundi com algo que não era?" Sua refutação (2.4) funciona muito com meu conceito leve sobre existência, pois ainda queremos saber por que existe um universo eterno. Agora, se ele funcionaria com seu sentido de metafísica pesado, isso é uma outra questão.

William Lane Craig