O amor e a justiça de Deus em contradição?

#472

O amor e a justiça de Deus em contradição?

Dr. Craig,

O seu ministério mudou radicalmente a minha vida. Como um resultado direto dos seus argumentos e debates, eu passei de um niilista para um cristão leal. No entanto, eu tive um problema com o argumento ontológico.

Há uma contradição entre a justiça perfeita e a misericórdia perfeita em um ser maximamente grande? A maneira que eu vejo essa objeção apresentada é que o Deus cristão é justo e misericordioso. A misericórdia é definida como a suspensão da justiça. Assim, há uma contradição. Eu também vi o argumento sendo colocado como a justiça perfeita está dando a todos o que lhes é devido, e a misericórdia perfeita está dando à algumas pessoas menos do que lhes é devido.

Essa objeção é tão esmagadora quanto os seus proponentes a fazer ser?

Estados Unidos

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Eu estou feliz pela sua pergunta, Tom, já que me dá a oportunidade de dar lugar ao foco da minha nova pesquisa, agora que o meu longo estudo sobre a asseidade (ou existência própria) de Deus está completo, ou seja, a doutrina da expiação.

A morte de Cristo na cruz é a maneira de Deus de reconciliar com Ele uma humanidade pecadora e afastada. O falecido erudito do Novo Testamento, I. Howard Marshall, argumentou com persuasão que o tema central ou mensagem do Novo Testamento é a reconciliação com Deus.[1] Mesmo tais temas grandes como a inauguração do Reino de Deus, ou o estabelecimento de uma nova aliança, são subservientes ao objetivo predominante da reconciliação do homem com Deus. “Reconciliação” é somente outra palavra para expiação (“ex-pia-ção”). A morte de Cristo, de alguma forma, serve para fazer de nós um com Deus, não em um sentido metafísico, mas em um sentido relacional de ser reconciliado com Deus.

Por muitos anos, eu estive insatisfeito com a teorias anêmicas e biblicamente inadequadas da expiação articuladas e defendidas pelos filósofos cristãos hoje. No geral, essas teorias não são fundamentadas em interpretações sérias, mas são baseadas em experiências humanas de reconciliação, o que pode ser fundamentalmente inadequadas para um relação divina-humana. Nós precisamos de uma teoria da expiação que seja filosoficamente coerente e fiel à Bíblia.

A sua pergunta é realmente sobre a doutrina da expiação, não sobre o argumento ontológico. Como pode Deus ser perfeitamente justo e, ainda assim, amoroso? Como pode Ele conceder misericórdia para pessoas pecadoras sem comprometer a Sua justiça? Isso é somente uma das perguntas as quais a doutrina da expiação procura falar.

A pergunta mais fundamental aqui é a necessidade da morte expiatória de Cristo. Cristo precisava morrer para que seres humanos pecadores se reconciliassem com Deus, ou Deus poderia ter simplesmente escolhido perdoar todos de seus pecados sem a necessidade de Cristo morrer? As pessoas que têm segunda visão, apontam que quando alguém perdoa uma pessoa que agiu errado com ele, nós não pensamos que ele comprometeu a sua integridade de alguma forma e se tornou injusto (perceba o apelo aos modelos humanos de reconciliação!). Deus livremente, seja lá por qual razão, escolheu alcançar a reconciliação pela morte de Cristo, mas se Ele quisesse, poderia ter perdoado os pecados das pessoas sem Cristo morrer. Mesmo dada a vontade de Deus de que todos os homens fossem salvos, tal visão não precisa ser universal em sua doutrina da salvação. Alguém poderia afirmar que o perdão de Deus ainda precisaria ser livremente recebido pela fé para poder ser apropriado.

Nessa visão, não há tensão entre a justiça e a misericórdia de Deus. Deus pode ser misericordioso para com os pecadores sem comprometer Sua justiça. O problema simplesmente evapora (ou talvez mude para outro lugar!).

Aqueles que foram educados na teologia protestante talvez fiquem surpresos em aprender que a maioria dos Pais das Igrejas, de fato, tinham a visão de que a morte expiatória de Cristo foi desnecessária. Na visão deles, um ser onipotente como Deus tem o poder para perdoar pecados sem a necessidade de qualquer meio de expiação. Não foi até Anselmo (o criador do argumento ontológico!), no século XI, que a necessidade da morte de Cristo recebeu forte articulação e defesa. Para Anselmo, foi a honra de Deus, manchada por homens pecadores, que precisava ser satisfeita. Um Deus que simplesmente perdoou pecados sem satisfação pelas ofensas não preservaria a sua honra desse modo, o que é impossível. A teoria de Anselmo da expiação conecta poderosamente com a cultura de honra/vergonha do Oriente Antigo e então teria ressonado entre os judeus do primeiro século.

Os protestantes escolásticos durante a era da Reforma foram mais afundo que Anselmo em ver que não foi simplesmente a honra de Deus que precisava ser satisfeita, mas a Sua justiça.[2] Teólogos, como François Turretin, argumentaram que Deus é fundamentalmente diferente de qualquer ser humano, posto que Ele é o Governador Moral do mundo. Ele é o doador da lei moral e o Juiz das suas infrações. Em sua capacidade como Juiz, Ele não pode falhar em enforcar a justiça. Portanto, a morte de Cristo é necessária se a justiça de Deus é deve ser satisfeita, mas os seres humanos poupados da misericórdia de Deus. A morte de Cristo mostra tanto o amor quanto a justiça de Deus, e nenhum dos dois é comprometido.

Estou convencido de que Turriten captou de forma precisa um aspecto essencial do ensino do Novo Testamento sobre a expiação. A ênfase na ira de Deus devido ao pecado nos capítulos iniciais da carta de Paulo aos Romanos exige que seja feita a satisfação pelos pecados. Então, no capítulo 3, Paulo pode dizer que Deus, ao ignorar os pecados cometidos nas gerações anteriores, não comprometeu Sua justiça, mas, por causa da morte expiatória de Cristo, ele se mostra ser “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:26). A morte de Cristo resolve a tensão entre a justiça e a misericórdia de Deus enquanto satisfaz a Sua justiça.

Em seu livro clássico sobre a expiação, George Smeaton reflete sobre o porquê dos Pais da Igrejas falharam em ver a necessidade da morte expiatória de Cristo para que as exigências da justiça de Deus fossem satisfeitas.[3] Ele sugere, penso que de maneira plausível, que a razão é de que a teoria do resgate da expiação, tão prevalente entre os Pais das Igrejas, focou em lidar com as consequências do pecado, principalmente da morte em vez de lidar com o pecado em si. A ênfase estava no poder de Deus de conquistar os inimigos da humanidade, e não na Sua justiça. Por causa desse foco, a encarnação em vez da morte de Cristo tendeu a ter lugar. Unindo-se com a nossa natureza na encarnação, Cristo trouxe imortalidade e nos permitiu compartilhar na natureza divina.

Essa ênfase na encarnação de Cristo em vez na morte é, obviamente, inadequada em várias leituras sérias do Novo Testamento. No Novo Testamento é a cruz de Cristo que predomina, não só nos evangelhos, mas nas epístolas. Claro, a encarnação e a vida de Cristo têm um papel vital, mas é a cruz que é central em alcançar a expiação com Deus. [Enredado] Envolvidos em disputas como eles estavam sobre a pessoa de Cristo, os Pais das Igrejas não refletiram profundamente sobre o trabalho de Cristo, mas permaneceram contentes com os relatos superficiais de resgate.

Agora eu estou muito ciente que uma teoria da expiação que envolve como um aspecto essencial a satisfação da justiça de Deus encara fortes desafios filosóficos, o que eu espero falar sobre eles eventualmente. Mas espero que o suficiente tenha sido dito para mostrar que dada a doutrina da expiação, o conceito de Deus como perfeitamente justo e amoroso é logicamente coerente.

Notas



[1] Howard Marshall, Aspects of the Atonement: Cross and Resurrection in the Reconciling of God and Humanity [Aspectos da Expiação: A Cruz e a Ressureição na Reconciliação de Deus e Humanidade] (London: Paternoster, 2007), chap. 4. (versão em inglês).

[2] Francis Turretin, Institutes of Elenctic Theology [Instituto da Teologia Elêntica], 3 vols., trans. George Musgrave Giger, ed. James T. Dennison (Phillipsburg, N. J.: Presbyterian and Reformed, 1992), tópico 14, Questão x (versão em inglês).

[3] George Smeaton, The Doctrine of the Atonement, as Taught by the Apostles [A Doutrina da Expiação Ensinada pelos Apóstolos] (Edinburgh: T.& T. Clark, 1870); reimpresso. ed.: The Apostles’ Doctrine of the Atonement [A Doutrina da Expiação dos Apóstolos] (Grand Rapids, Mich.: Zondervan, 1957), p. 508 (versão em inglês). Smeaton também observa que se a morte expiatória de Cristo não fosse necessária, então seria incorreto para o autor de Hebreus dizer “é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire os pecados”. (Hebreus 10:4). Deus poderia ter redimido os pecados se Ele tivesse escolhido.

William Lane Craig