Desafios Filosóficos da Doutrina da Expiação

#473

Desafios Filosóficos da Doutrina da Expiação

Obrigado por seu compromisso com a defesa filosófica da fé cristã. Eu vim para Cristo do budismo Theravada, em parte por causa de seus argumentos em "Em defesa de Cristo" e outros da série. Desde que me tornei um cristão seu trabalho e o de outros filósofos cristãos, teólogos e apologetas tem sido tanto um estímulo constante quanto uma importante força motriz nos meus esforços por conseguir um certificado avançado em teologia e filosofia. Assim, em muitos aspectos, sou grato a você pelo trabalho que tem feito.

Em sua Pergunta # 472, você mencionou "uma teoria da expiação que envolve como um aspecto essencial a satisfação da justiça de Deus encara fortes desafios filosóficos, o que eu espero falar sobre eles eventualmente". Eu imagino não ser o único a aguardar com animada antecipação a conclusão de sua pesquisa! Enquanto isso, você poderia resumir esses desafios? Estou certo de que isso seria de interesse significativo para todos os seus leitores, especialmente aqueles de nós que estão envolvidos em Teologia Filosófica.

Obrigado novamente por todo o seu trabalho. Que Deus continue a abençoar você e seu ministério.

Robert

United States

Tendo participado recentemente de um diálogo com um professor de estudos Budistas em Hong Kong, me alegro com seu testemunho maravilhoso, Robert. Você está certo em dizer que meus estudos sobre a doutrina da Expiação de Cristo tem repercutido entre os leitores da Reasonable Faith.

Há muitas objeções a qualquer doutrina da expiação que inclui como elemento essencial a satisfação da justiça de Deus através da morte de Cristo, que eu considero, francamente, como frívola, por exemplo, que a morte de Cristo é abuso infantil cósmico ou que a doutrina sansiona a violência religiosa. Pelo contrário, a meu ver, o desafio fundamental que enfrenta as chamadas teorias penais da expiação pode ser resumido em uma pergunta: a culpa por nossos pecados foi ou não foi imputada a Cristo?

Se não foi, então duas questões se leantam: como pode Cristo, uma pessoa inocente, ser justamente punido por nossos pecados? Parece injusto por parte de Deus punir um inocente pelo mal realizado por outros. Além disso, como pode o sofrimento infligido a Cristo ser verdadeiramente chamado punição, uma vez que a pena implica a culpabilidade da pessoa que carrega o sofrimento? Se Cristo não é culpado, então seu sofrimento no meu lugar não parece ser castigo.

Com relação à primeira pergunta, eu suspeito que a Moralidade do Comando Divino, adotada por razões totalmente independentes e, portanto, não ad hoc, pode vir para ao resgate. Porque, se os nossos deveres morais são constituídos por ordens de Deus, então, uma vez que Ele supostamente não emite comandos para si mesmo, Deus não tem deveres morais. Portanto, ele não pode ser acusado de agir injustamente em punir Cristo pelos nossos pecados, mesmo que Cristo fosse inocente. A Moralidade do Comando Divino exige somente que Deus aja de forma coerente com sua própria natureza moral. Mas, sem dúvida, a voluntariedade do Filho de Deus em levar o castigo pelo pecado que merecíamos é inteiramente consistente com a natureza de Deus, pois ele demonstra seu grande amor para os seres humanos caídos, de forma que Ele deveria carregar as conseqüências dos pecados que eles mereciam.

Eu não tenho certeza sobre o que dizer em relação à segunda pergunta. Às vezes teólogos fazem distinção entre as consequências do pecado e o castigo pelo pecado. A morte, por exemplo, pode ser vista tanto como consequência do pecado ou o castigo do pecado (ou ambos!). Assim, alguém pode dizer que na cruz Cristo sofre as conseqüências pelos pecados da humanidade sem que tecnicamente seja punido pelos nossos pecados. Ele carrega o sofrimento que, se aplicado a nós, seria punição, mas que no seu caso não é punição, uma vez que ele não era culpado. Talvez, no entanto, isso seja demais para os oponentes da substituição penal. Talvez punição não implica o grau de culpa da pessoa que sofre. Isso precisa de mais reflexão.

Suponha que alguém sinta a força das objeções anteriores e assim sustente que a nossa culpa foi imputada a Cristo. Dessa forma, os problemas acima referidos são resolvidos. Pois uma vez que Cristo é tido como culpado por Deus, a punição infligida a ele é totalmente justa. Além disso, uma vez que ele é considerado culpado, o sofrimento que ele carrega é verdadeiramente punição. Então, se não somente a pena do meu pecado, mas a culpa do meu pecado é carregada por Cristo, os problemas do primeiro tipo não surgem.

Mas então enfrento o dilema de como a minha culpa pode ser transferida para outra pessoa, de forma que ela se torna literalmente culpada pelo o que eu fiz. Eu vi teólogos discordando, dizendo que a culpa não pode ser transferida uma vez que é, e sempre será, o caso de que eu sou o único que fez a ação, não Cristo, de modo que nada pode mudar o fato de que eu sou culpado do pecado. No entanto, essa objeção é baseada em um entendimento inadequado de culpa e torna impossível com que a culpa seja removida. Ele faz com que a culpa seja simplesmente o fato de alguém ter cometido algum ato mal. Mas, como o nosso sistema jurídico reconhece, a culpa não é apenas a prática de uma má ação, pois pessoas podem ser consideradas sem culpa por razões de insanidade, por exemplo. Nesse caso, não há dúvidas de que a pessoa cometeu o ato, mas esta é considerada sem culpada do ato devido a circunstâncias atenuantes. A culpa não é só o fato de ter feito uma má ação, mas sim de ser censurável.

Assim, poderia a culpa que tenho por meus pecados ser transferida para Cristo? Aqui é crucial distinguirmos imputação de infusão. Para fazer uma analogia, os reformadores protestantes insistiram no contraste com os teólogos católicos de que a graça justificadora de Deus é imputada a mim, e não infundida em mim. É uma transação legal. Da mesma forma, o nosso pecado não deve ser entendido com infundido em Cristo, de forma que ele se torna uma pessoa egoísta, sem amor, cruel, etc. Ao invés disso, a culpa por meus crimes é legalmente imputada a Cristo, e assim ele é punido em meu lugar.

A questão, portanto, é se essa idéia de imputação de culpa faz sentido. Eu gostaria de estudar mais como a noção de imputação funciona no nosso sistema legal. Para dar um exemplo, as pessoas que violam a lei são declaradas culpadas, pois sabem que seus atos são contra a lei. Agora, em muitos casos, as pessoas de fato não conhecem bem a lei para saber que o que elas estão fazendo é contra a lei. Mas neste caso, o nosso sistema jurídico atribui a tais pessoas o conhecimento da lei, de modo que possam ser consideradas censurável! Acho isso bastante surpreendente. Uma pessoa que é de fato ignorante da lei é na verdade considera ser responsável por conhecer a lei, porque esse conhecimento é imputada a ela! Agora, se isso faz sentido, não é tão óbvio, me parece, que Deus não possa imputar a Cristo a culpa do meu pecado, mesmo que Cristo seja moralmente infalível.

Eu não tenho posições finais sobre estas e algumas outras questões, mas estas são apenas algumas das perguntas importantes que surgem na doutrina da expiação.

William Lane Craig