Mal Injustificado e o Ónus da Prova

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Mal Injustificado e o Ónus da Prova

Conforme estou transcrevendo suas últimas palestras dos Defensores, as quais tratam sobre o problema do mal, eu estava esperando que alguém fizesse a pergunta, mas não acho que ela tenha sido feita. Então, talvez você pode respondê-la na próxima semana?

Ao invés de argumentar que "apesar de alguns males parecerem injustificados, eles na verdade não são" (ou seja, não podemos discernir que bem maior virá como resultado de qualquer mal - este bem maior poderia ocorrer séculos mais tarde em outro país), por que não apresentar um argumento que diz, sim, mal injustificado existe (uma vez que parece mais óbvio do que dizer que não existe), mas que de alguma forma isso não refuta a existência de Deus?

Especificamente, você leu a resposta de Kirk MacGregor para o problema do mal? E quais são seus pensamentos? Refiro-me a isso:

Kirk R. MacGregor, "a existência e a Irrelevância do Mal Injustificado", Philosophia Christi, Vol. 14, No. 1, 2012. A cópia em PDF está aqui:

http://www.kirkmacgregor.org/uploads/pc_14-1_macgregor.pdf

Ele refuta a noção de que não existe mal injustificado, e ele diz que " dizer que mal injustificado não existe não é um resultado de qualquer improbabilidade lógica ou inescrutabilidade estatística do mal injustificado." Ele prossegue dizendo que a crença na existência do mal injustificado é satisfatoriamente básica (entre outras coisas), então por que lutar contra isso? Concordar que o mal injustificado existe "parece um caminho muito mais proveitoso a ser tomado pelos teístas cristãos em termos de táticas apologéticas, pois não coloca sobre os ombros dos teístas o fardo esmagador de ter que provar por demonstração que nenhum dos males do mundo é injustificado... Nem pede aos ouvintes de argumentos teístas para que abandonem a sua visão cognitiva de que o mal injustificado existe".

Mas o que ele sim questiona é que, se Deus existe e criou um universo, então o mal injustificado existe (ele dá vários argumentos para isso - é o que ele faz na segunda metade de seu trabalho). Na verdade, ele chega a dizer que para Deus criar o universo o mal injustificado deveria existir ("Todos esses males são, em si mesmos, injustificados e inúteis; a sua única razão de existir é a privação logicamente inevitável da necessidade ontológica exibida por entidades criadas"- presumo que aqui ele tenha como alvo os males naturais (terremotos, tsunamis, etc.) - no parágrafo seguinte ele entra nos males morais e a questão do liberalismo do livre-arbítrio).

Enfim, essa é a minha pergunta. Em suma, por que arcar com o pesado fardo de tentar provar que o mal injustificado não existe? Em vez disso, afirmar que ele existe, mas mostrar que não é incompatível com a existência de Deus (ou ir mais longe, como MacGregor o fez, e mostram que "se Deus existe, então existe mal injustificado").

John

Estados Unidos

United States

Você está se referindo a Parte 33 da nossa Dissertação em Teologia Natural, onde eu discuto a chamada versão de prova ou probabilística do problema do mal. Eu não li o artigo de Kirk, embora eu fique confuso com o fato de uma molinista pensar que exista mal injustificado (inútil ou sem fundamento). Eu li a defesa da realidade do mal injustificado de Peter van Inwagen, mas ele nega o conhecimento médio. Não me oponho à afirmação do princípio, mas eu não vou por este rumo porque isso se identificaria demais com o ateu, ou seja, reconher que existe o mal injustificado.

A mudança chave no problema probatório do mal é a inferência ateísta de que "Grande parte do mal no mundo parece ser inútil" para "Grande parte do mal no mundo é realmente inútil." Em vista de nossas inerentes limitações cognitivas, as quais descrevo em minha palestra, eu sou muito cético em crer que o ateu pode justificar esta inferência. Como enfatizei, minha resposta não "coloca sobre os ombros teístas o peso esmagador de ter que provar por demonstração que nenhum dos males do mundo é injustificado." Pelo contrário, o fardo é totalmente do ateu em provar que, pelo fato de alguns males parecem sem sentido, eles são realmente inúteis. Então, como expliquei em resposta a uma pergunta, não existe um "pesado fardo de tentar provar que o mal injustificado NÃO existe." O teísta não tem nada para provar aqui (daí, esta resposta é muitas vezes chamada de "teísmo cético").

Como resultado de ter lido a contribuição de Stephen Wykstra para um livro prestes a ser publicado sobre o problema do mal, no qual eu defendo uma perspectiva molinista, eu vim a perceber, no entanto, que não devemos argumentar, como eu fiz, que "embora alguns males pareçam injustificados, eles na verdade não são". Mas a razão é porque essa declaração também se identifica demais com o ateu! Realmente não é verdade, como eu havia dito, que alguns males pareçam injustificados.

A reivindicação de Wykstra parece, à primeira vista, ser ultrajante. Mas ele cuidadosamente diferencia entre (i) não ver que o mal tem um ponto e (ii) de ver que o mal não tem nenhum ponto. O âmbito da negação é crucial.[1]

Wystra dá a seguinte ilustração. Suponha que você está visitando o médico para obter uma vacina e a enfermeira deixa a agulha cair no chão. Ela pega, examina-a, e diz: "Parece que não há bactérias na agulha. Puxe sua manga para cima." Você iria em frente? Não, pois embora não pareça haver bactérias na agulha, você não diria que aparentemente não há bactérias na agulha.

Assim, no que diz respeito a alguns males do mundo, não parece que eles tenham uma razão; mas, em vista de nossas inerentes limitações cognitivas, é falsa a aparência de que eles não tenham nenhuma razão.

Assim, o argumento ateu acaba por ser ainda mais difícil de sustentar-se do que eu pensava. Ele não pode mostrar, a partir do fato de que os males parecem ser sem sentido, que eles são inúteis (o meu ponto), mas pior, ele não pode sequer mostrar que eles parecem ser sem sentido (ponto de Wystra).

A lição mais uma vez: Não deixe o ateu mudar o ónus da prova.



Notas:

[1] Por exemplo, tome a questão de saber se existe vida em outros planetas. É verdade que "não parece que exista vida em outros planetas", mas é falso dizer "Parece que não há vida em outros planetas." Se a negação tem um grande escopo - "NÃO (não parece haver vida em outros planetas) "- a afirmação é verdadeira, mas se a negação tem um escopo estreito - " parece que NÃO (há vida em outros planetas) "-, ela é falsa.

William Lane Craig