Qual tem prioridade explanatória: propiciação ou expiação?

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Qual tem prioridade explanatória: propiciação ou expiação?

Caro Dr. Craig,

Estou seguindo sua série de vídeos em “Acompanhem meus estudos” sobre a doutrina da expiação. No segundo e terceiro vídeos, o senhor faz distinção entre duas funções dos sacrifícios levíticos: propiciação e expiação. Vejo aí um possível problema conceitual e gostaria de saber o que pensa. Parece que a expiação torna supérflua a propiciação. Se a expiação implica que o pecado de Israel foi expurgado, por que haveria necessidade de propiciação? A ira de Deus não será desencadeada pelos pecados do povo, pois já foram perdoados.

Um problema parecido pode surgir no sentido oposto também. Se a propiciação ocorre, por que haveria necessidade de expiação? Deus se satisfaz com os sacrifícios propiciatórios, apesar dos pecados não-perdoados do povo.

Obrigado, Dr. Craig.

Hayden

P.S.: Será que já cogitou mostrar seu escritório numa filmagem? Tenho certeza que muitos que aspiram à vida acadêmica (me incluo nisso) adorariam ver os hábitos de organização de um estudioso tão eficiente como o senhor.

Estados Unidos

United States

Obrigado, Hayden, por me dar a oportunidade de divulgar nosso último projeto em vídeo via Facebook, “Acompanhe meus estudos”! Recebi a sugestão de que talvez houvesse interessados em ver um vídeo semanal bem curto em que compartilho o que estou estudando no momento, e estou gostando muito desses vídeos informais e improvisados.

A sua pergunta também tem me deixado intrigado, em especial no que diz respeito à morte expiatória de Cristo. Na realidade, já vi estudiosos evangélicos adotar visões opostas quanto à questão: alguns dizem que, como Deus foi propiciado, nosso pecado é expiado; outros dizem que, como nosso pecado foi expiado, Deus é propiciado!

Minha inclinação inicial era considerar esses dois aspectos da expiação como dois lados da mesma moeda, e não como se fossem organizados hierarquicamente em ordem de prioridade explanatória. Não entendo que isso seja conceitualmente problemático. Do ponto de vista da prioridade explanatória, um não vem antes do outro; pelo contrário, estão no mesmo nível. A morte expiatória de Cristo expia nosso pecado e propicia Deus “simultaneamente”, por assim dizer.

Ultimamente, passei a pensar que, se entendemos a propiciação conforme costuma ser entendida, não como o afastamento da ira de Deus, mas como a satisfação da justiça divina, ao que me parece a propiciação tem, sim, prioridade explanatória à expiação de nosso pecado. Pergunte a si mesmo: o que é que anula minha culpa? Por que não sou mais culpado diante de Deus? A resposta é: a punição. Como uma pessoa culpada na justiça e sentenciada a, digamos, dez anos de prisão não é mais culpada depois de pagar sua sentença, porque foi punida por seu crime, assim também Cristo, ao morrer, pagou a punição que me era devida por meus pecados. Como a pena foi paga, a justiça foi satisfeita e, consequentemente, não carrego mais minha culpa. Minha culpa diante de Deus foi expiada pela punição. Assim, a propiciação tem prioridade explanatória à expiação.

A expiação não pode ter prioridade explanatória à satisfação da justiça divina, pois, sem a punição, nada ocorreu que cancelasse meu pecado. Pode-se dizer, com base na analogia da justiça criminal humana, que Deus simplesmente me perdoou e, assim, meu pecado foi expiado. No caso, porém, a morte de Cristo se torna irrelevante, e se desfaz a teoria cristã da expiação. Tampouco a expiação pode estar no mesmo nível explanatório da propiciação, pois é a punição que satisfaz às exigências da justiça divina e, consequentemente, minha culpa é removida.

Por isso, inclino-me a concordar com teólogos que dizem que a propiciação (satisfação da justiça divina) tem prioridade explanatória à expiação (a remoção de culpa).

Muito bem, em relação ao meu escritório, não pretendo mostrar muita coisa, pois não teria quase nenhuma utilidade, mas terei o prazer de dar um prêmio à primeira pessoa que conseguir identificar a coleção verde que decora a prateleira bem atrás de mim. Para responder, acesse: https://www.facebook.com/reasonablefaithorg/.

William Lane Craig