Evangelhos com letras vermelhas

#489

Evangelhos com letras vermelhas

Como sabemos que as letras vermelhas no Novo Testamento são o que Jesus realmente afirmou e ensinou?

Lane

Estados Unidos

United States

O que sabemos, Lane, é que Jesus, na verdade, jamais expressou as palavras impressas em vermelho nas edições dos evangelhos com letras vermelhas. Isso é evidente porque essas edições com letras vermelhas estão no vernáculo, e Jesus não falou nem ensinou em nossa língua!

Bom, estou só brincando, mas há um quê de seriedade no que disse. Os evangelhos foram escritos em grego, mas Jesus ensinou em aramaico. Portanto, mesmo uma edição do Novo Testamento em grego com letras vermelhas não nos daria as verdadeiras palavras de Jesus.

É de se admitir que Jesus provavelmente falava grego, pelo menos o bastante para se virar em seu ofício de carpinteiro, uma vez que o grego era a língua comum do Império Romano, em decorrência das conquistas pré-romanas por Alexandre Magno. Embora os romanos falassem latim, em suas interações com os palestinos eles provavelmente conversavam em grego — daí, a pergunta surpreendente do centurião a Paulo: “Sabes o grego?” (Atos 21.37).

Porém, ao instruir seus patrícios judeus, Jesus teria naturalmente falado aramaico. Assim, o que temos nos evangelhos são traduções gregas do que Jesus afirmou e ensinou. Muito raramente temos vislumbres das palavras aramaicas originais faladas por Jesus, como, por exemplo, suas palavras proferidas da cruz e registradas em Marcos: “à hora nona, Jesus exclamou com grande voz, dizendo: ‘Eloí, Eloí, lamá sabactâni?’ que, traduzido, é: ‘Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?’” (Marcos 15.34).

Além disso, devemos ter em mente que, numa cultura que não dispunha sequer do recurso das aspas para citações, a distinção entre discurso direto e indireto pode ser confusa. Leia a narrativa da conversa de Jesus com Nicodemos no evangelho de João 3.10-21, ignorando as aspas inseridas pelos tradutores, e pergunte-se onde a citação direta que João faz de Jesus termina e onde o comentário de João começa. Ou leia Gálatas 2.11-21, acerca da discussão pública de Paulo com Pedro, e pergunte-se onde Paulo para de registrar o que ele dissera na ocasião e começa suas reflexões atuais sobre o que se passou. Não está nada claro. Assim, numa cultura em que a distinção entre discurso direto e indireto nem sempre é clara, dar uma paráfrase ou a essência do que alguém disse, em vez de suas palavras exatas, é perfeitamente aceitável.

Os evangelistas empregaram técnicas comuns de sua época ao transmitir os ensinos de Jesus, como paráfrase, resumo, omissão, explicação, contextualização e assim por diante.

Por isso, é muito equivocado imprimir as palavras de Jesus em vermelho, como se tivéssemos as palavras originais de Jesus ali registradas.

O que queremos mostrar é que os evangelistas deram uma representação precisa do que Jesus de Nazaré disse e ensinou. É aí que a pesquisa histórico-crítica do Novo Testamento pode ajudar. Os estudiosos às vezes dizem que, num ensino específico atribuído a Jesus, ouvimos a própria voz de Jesus (ipsissima vox), ou seja, algo que transmite muito perto (em grego) o que Jesus disse. Seu ensino sobre o reino de Deus seria um bom exemplo. Todos reconhecem que a proclamação do reino ou reinado vindouro de Deus está no cerne do ensino de Jesus. Em outras ocasiões, os estudiosos pensam que temos as próprias palavras (ipsissima verba) de Jesus, ou seja, uma expressão grega que traduz quase palavra por palavra o que Jesus disse. Seu uso da expressão “o Filho do Homem” como termo de autorreferência seria um bom exemplo. São casos desse tipo que teriam mais crédito para ser impressos em vermelho; porém, com esse recurso estaríamos artificialmente deteriorando os evangelhos.

Na verdade, muitos anos atrás, um grupo de críticos radicais autodenominados de “Seminário Jesus” saiu nas manchetes por parodiar edições dos evangelhos com letras vermelhas ao imprimir certas passagens consideradas autênticas em vermelho, passagens que soavam como Jesus em rosa, passagens dubiamente proferidas por Jesus em cinza e passagens inautênticas em preto. Menos de 20% das palavras atribuídas a Jesus nos evangelhos foram impressas em vermelho na edição que produziram dos evangelhos, refletindo seu ceticismo.

Para uma crítica das pressuposições e presunções do “Seminário Jesus”, ver http://www.reasonablefaith.org/portuguese/redescobrindo-o-jesus-historico-pressuposicoes-e-pretensoes-do-jesus. O que é significativo na pesquisa contemporânea é que se pode fazer uma defesa muito forte da autocompreensão divino-humana de Jesus com base em expressões comumente reconhecidas como autênticas, conforme mostro em meu capítulo sobre o entendimento que Jesus tinha de si em Apologética contemporânea.

O uso de edições dos evangelhos com letras vermelhas deveria ser evitado por estudiosos sérios dos evangelhos, uma vez que o recurso é fundamentalmente equivocado quanto à natureza dos relatos dos evangelhos.

William Lane Craig