Em que sentido é impossível que o universo tenha surgido do nada?

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Em que sentido é impossível que o universo tenha surgido do nada?

Sou estudante de medicina da Noruega e quero primeiramente dizer o quanto sou grato por seu trabalho, que é muito significativo para mim tanto em relação ao meu interesse em filosofia quanto em relação a minha fé.

Semana passada, houve um pequeno debate em Oslo sobre o argumento cosmológico kalam em que um filósofo ateu afirmou que talvez seja possível que algo tenha começado a existir a partir do nada, pois a afirmação não envolve uma contradição e, portanto, é logicamente possível. Ao assistir aos seus debates e ler seus textos, entendo que o senhor concorda que isso seja logicamente possível, mas, por ser contra nossa intuição e experiência, é de algum modo impossível ou, no mínimo, uma visão irracional.

Ao discutir o debate num fórum de apologética, um professor de teologia sistemática disse que o filósofo ateu estava errado ao dizer que é logicamente possível que algo surja do nada, uma vez que, se nada existe, nenhuma possibilidade existe e, para que que algo (no caso, o universo) venha à existência a partir do nada, deve haver a possibilidade de que esse algo venha à existência. É logicamente impossível dizer que algo pode surgir do nada, pois isso implica dizer que possibilidades tanto existem quanto não existem.

Também chegamos à conclusão de que um estado de nada absoluto (que o filósofo ateu tentou imaginar ou conceber) é impossível, pois, se um estado desses fosse possível, seria um estado de coisas e, portanto, existiria, além de haver algo, e não nada.

Minha pergunta é a seguinte: o senhor acha que o professor está certo ao dizer que é logicamente impossível negar a primeira premissa do argumento kalam? O argumento dele é correto? Se for, o senhor acha que seria um argumento prático e poderoso para usar em defesa da primeira premissa em debates e outros contextos apologéticos?

Continue o bom trabalho. Deus abençoe.

David

Noruega

Norway

Sua pergunta é boa, David, por trazer à tona algumas distinções importantes.

Quando o professor ateu diz que “talvez seja possível que algo tenha começado a existir a partir do nada, pois a afirmação não envolve uma contradição”, ele está falando de possibilidade lógica estrita. Ele está certíssimo de que “o universo começou a existir do nada” não envolve nenhuma contradição lógica e é, portanto, estritamente possível do ponto de vista lógico. Ele erra ao pensar que isso tem qualquer relevância filosófica.

Também é estritamente possível do ponto de vista lógico que “João é um solteiro casado” ou que “o primeiro-ministro é um número primo”. E daí? Isso em nada mostra que solteiros casados sejam metafisicamente possíveis ou que é metafisicamente possível que o primeiro-ministro seja um número primo. O que queremos saber é se tais estados de coisas são realizáveis. Será que João poderia realmente ser um solteiro casado ou o primeiro-ministro, um número primo (ou de qualquer outro tipo)?

O que seu professor de teologia argumenta corretamente é que a vinda à existência do universo a partir do nada é metafisicamente impossível. Filósofos tipicamente denominam esse tipo de possibilidade de possibilidade lógica ampla, a fim de distingui-la de possibilidade lógica estrita. Falando a partir da possibilidade lógica (ou metafísica) ampla, afirmamos que vir à existência do nada é amplamente impossível do ponto de vista lógico, assim como é amplamente impossível do ponto de vista lógico que algo seja colorido, mas inextenso, ou que o ouro tenha o número atômico 13.

Eu concordaria com seu professor de teologia que é amplamente impossível do ponto de vista lógico que o universo tenha vindo a existir do nada, uma vez que, se o universo teve um começo, não havia nada (i. e., não havia coisa alguma) anterior a sua existência, nem mesmo a potencialidade de sua existência. Parece, porém, absurdo que o universo pudesse se tornar real, se não houvesse sequer a potencialidade de sua existência. Formulado desta forma, é um argumento que verá em alguns dos meus debates e publicações (p. ex., meu debate com Ansgar Beckermann).

Também concordo que é amplamente impossível do ponto de vista lógico que nada exista. Considero que esta seja a contribuição do argumento da contingência de Leibniz. A razão por que algo, em vez de nada, existe é que é logicamente impossível (amplamente falando) que nada exista. Deve existir um ser metafisicamente necessário, e a questão que resta é a seguinte: o que ou quem ele é?

William Lane Craig