O ensino bíblico sobre Deus e o tempo

#495

O ensino bíblico sobre Deus e o tempo

Caro Dr. Craig,

Tenho algumas perguntas sobre a questão da eternidade e Deus. Entendo que o senhor adota a visão de Deus como atemporal “antes da” criação e no tempo desde então.

1. Existe alguma razão bíblica para supor que Deus era atemporal antes da criação (ou quando a criação não existia)? Pergunto porque acho que, na verdade, a Bíblia menciona o tempo “antes da criação”, p. ex. 1 Pedro 1.20 — o Messias conhecido antes da fundação do mundo e amado antes da fundação do mundo (João 17.24), ou a sabedoria existente antes da criação do mundo em Provérbios 8. Existe alguma razão para NÃO supor que a Bíblia entende Deus como existente no passado temporal eterno (i.e., que o tempo existia antes da criação, possivelmente para sempre, com Deus)?

2. Por outro lado, existe alguma razão bíblica para crer que, desde a criação, Deus está limitado pelo tempo (i.e., não “simultaneamente” no passado, presente e futuro)? Ou se trata mais de uma visão filosófica mesmo?

3. No seu ponto de vista, o que dizer do céu como morada permanente de Deus (de onde Jesus reina à destra do Pai)? Como “os mil anos como um dia” (2 Pedro 3.8) se encaixam nisso tudo? Existe apenas uma diferença entre a percepção do tempo por Deus e por nós, ou uma diferença real entre céu e o mundo/terra físico?

Chavoux

Namíbia

Namibia

Que alegria ver uma mensagem de um dos nossos leitores africanos, Chavoux! Abordei suas perguntas em meu livro Time and Eternity [Tempo e eternidade], que não lhe deve ser de fácil acesso.

1. Existe alguma razão bíblica para supor que Deus era atemporal antes da criação (ou quando a criação não existia)? Existe, sim! Johannes Schmidt defende uma doutrina bíblica da atemporalidade divina com base em textos da criação como Gênesis 1.1 e Provérbios 8.22-23.[1]

Gênesis 1.1 diz: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”. De acordo com James Barr, este começo absoluto, tomado em conjunto com a expressão “e houve tarde e manhã, o primeiro dia” (v. 5), indicando o primeiro dia, pode muito bem ter a intenção de ensinar que o começo não foi simplesmente o começo do universo físico, mas do próprio tempo, e que, consequentemente, pode-se pensar em Deus como sendo atemporal.[2] Pode-se considerar que alguns autores do Novo Testamento interpretem Gênesis 1.1 como referência ao começo do tempo. A reflexão mais impressionante do Novo Testamento sobre Gênesis 1.1 é, obviamente, João 1.1: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus; tudo foi feito por meio dele e, sem ele, nada do que foi feito se fez”. Aqui, o Verbo incriado (logos), a fonte de todas as coisas criadas, já estava com Deus e era Deus no momento da criação. Não é difícil interpretar esta passagem do ponto de vista da unidade atemporal do Verbo com Deus — e não seria anacrônico fazer isso, considerando a doutrina de Fílon, filósofo judeu do século I, sobre o Logos (Verbo) divino e sua afirmação de que o tempo começa com a criação.[3]

Quanto a Provérbios 8.22-23, a passagem com certeza pode ser lida no sentido de um começo do tempo. Aqui diz a Sabedoria, personificada como uma mulher:

“O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos,

desde então, e antes de suas obras.

Desde a eternidade fui ungida,

desde o princípio, antes do começo da terra”.

A passagem, que sem dúvida remete a Gênesis 1.1, está repleta de expressões temporais para um começo. R. N. Whybray comenta:

“Deve-se notar como o autor... tanto insistiu em enfatizar o fato da inimaginável antiguidade da Sabedoria que juntou todos sinônimos possíveis num dilúvio de tautologias: re’sît, princípio, qedem, a primeira, me’az, no passado, me‘olam, desde a eternidade, mero’s, a princípio ou ‘desde o princípio’ (comparar com Isaías 40.21; 41.4,26), miqqade me’ares, antes do começo da terra: a ênfase não é tanto no modo da vinda à existência da Sabedoria... mas no fato de sua antiguidade.”[4]

As expressões enfatizam, contudo, não apenas a antiguidade da Sabedoria, mas a existência de um começo, um ponto de partida, no qual ou antes do qual a Sabedoria existia. Foi o ponto de partida não apenas da terra, mas do tempo e das eras; simplesmente, foi o começo. Assim outros escritores antigos entendiam a passagem. A tradução grega do Antigo Testamento traduz me‘olam em Provérbios 8.23 por pro tou aionios (antes do tempo) e, em Eclesiástico 24.9, a Sabedoria diz: “Desde o início, antes de todos os séculos, ele me criou, e não deixarei de existir” (cf. 16.26; 23.20).

É significativo que algumas passagens do Novo Testamento parecem afirmar o começo do tempo. Por exemplo, lemos em Judas 25: “ao único Deus, nosso Salvador, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor, sejam glória, majestade, domínio e poder, antes de todos os séculos, agora e para todo o sempre” (pro pantos tou aionos kai nun kai eis pantas tous aionas). A passagem contempla uma duração futura eterna, mas afirma um começo do tempo passado e implica a existência de Deus, usando uma forma de falar quase inevitável de “antes” do tempo começar. Expressões parecidas se encontram em duas passagens intrigantes nas Epístolas Pastorais. Em Tito 1.2-3, num trecho carregado de linguagem temporal, lemos sobre os eleitos de Deus, “na esperança da vida eterna (zoes aioniou), a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos eternos (pro chronon aionion), e no tempo próprio manifestou a sua palavra (kairois idiois)”. Em 2 Timóteo 1.9, lemos do propósito e graça de Deus, “que nos foi concedida em Cristo Jesus antes dos tempos eternos (pro chronon aionion) e que agora se manifestou pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus”. Arndt e Gingrich traduzem pro chronon aionion como “antes do tempo começar”.[5] Da mesma forma, em 1 Coríntios 2.7, Paulo fala do mistério oculto da sabedoria de Deus, que “Deus preordenou antes dos séculos (pro ton aionon) para nossa glorificação”. Tais expressões se alinham com a Septuaginta, que descreve Deus como “aquele que existe antes dos séculos (ho hyparchon pro ton aionon)” (LXX Salmos 54.20 [55.19]). Que essas construções com pro devam ser levadas a sério, e não meramente como expressões idiomáticas conotando “desde os tempos antigos” (cf. Romanos 16.25: chronois aioniois), fica confirmado pelas diversas expressões parecidas relacionadas a Deus e Seus decretos “antes da fundação do mundo” (pro kataboles kosmou) (João 17.24; Efésios 1.4; 1 Pedro 1.20; cf. Apocalipse 13.8). É evidente que um entendimento comum da criação descrita em Gênesis 1.1 era que o começo do mundo coincidia com o começo do tempo ou dos séculos, mas, uma vez que Deus não começou a existir no momento da criação, Ele existia “antes” do começo do tempo. Deus, pelo menos “antes da” criação, deve, portanto, ser atemporal.

2. Por outro lado, existe alguma razão bíblica para crer que, desde a criação, Deus está limitado pelo tempo (i.e., não “simultaneamente” no passado, presente e futuro)? Existe, sim! Os autores bíblicos normalmente retratam Deus como se ele estivesse envolvido em atividades temporais, incluindo prever o futuro e lembrar o passado; quando falam diretamente da existência eterna de Deus, fazem-no do ponto de vista da ausência de começo e da duração temporal infindável: “Antes que os montes nascessem, ou que tivesses formado a terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, tu és Deus” (Salmos 90.2); “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-poderoso, aquele que era, que é e que há de vir” (Apocalipse 4.8b). Somente no contexto da doutrina da criação os autores bíblicos dão uma ideia de que Deus não está literalmente no tempo.

3. O que dizer do céu como morada permanente de Deus (de onde Jesus reina à destra do Pai)? Não vejo motivo para pensar que o céu seja atemporal. Pelo contrário, o fato de que Cristo pode ascender até lá mostra que não o é, pois havia um tempo em que ele ainda não ascendera e um tempo depois do qual ele ascendeu. Como “os mil anos como um dia” (2 Pedro 3.8) se encaixam nisso tudo? O versículo é neutro quanto à questão, significando apenas que, para um ser sem começo e sem fim, qualquer que seja o modo de Sua existência, a duração do tempo na terra é trivial. Existe apenas uma diferença entre a percepção do tempo por Deus e por nós, ou uma diferença real entre céu e o mundo/terra físico? Apenas uma diferença de percepção; a quantidade de tempo é irrelevante para um ser eterno.

Embora os autores bíblicos costumem falar de Deus como se ele fosse temporal e eterno, existem ao menos indícios de que, quando Deus é considerado em relação à criação, ele deve ser concebido como o criador transcendente do tempo e dos séculos e, portanto, como existente além do tempo. Pode muito bem ter acontecido que, no contexto da doutrina da criação, os autores bíblicos tenham sido levados a refletir na relação de Deus com o tempo e tenham escolhido afirmar sua transcendência. Não obstante, as informação não são claras, e somos forçados a concluir com Barr que, “se alguém quiser desenvolver algo como uma doutrina cristã do tempo, o trabalho de discuti-la e desenvolvê-la deve pertencer não à teologia bíblica, mas à teologia filosófica”.[6]



[1] Johannes Schmidt, Der Ewigkeitsbegriff im alten Testament, Alttestamentliche Abhandlungen 13/5 (Münster in Westfalen: Verlag des Aschendorffschen Verlagsbuchhandlung, 1940), pp. 31-32.

[2] James Barr, Biblical Words for Time (Londres: SCM Press, 1962), pp. 145-147.

[3] Sobre o começo do tempo com a criação, ver Fílon de Alexandria, De opifício mundi. Tradução inglesa em: On the Creation of the Cosmos according to Moses, com introdução e comentário de David T. Runia, Philo of Alexandria Commentary Series 1 (Leiden: E. J. Brill, 2005).

[4] R. N. Whybray, Proverbs, New Century Bible Commentary (Grand Rapids, Mich.: Wm. B. Eerdmans, 1994), pp. 131-132.

[5] A Greek-English Lexicon of the New Testament, de W. Bauer, trad. e ed. W. F. Arndt e F. W. Gingrich, s.v. “aionios”.

[6] Barr, Biblical Words for Time, p. 149.

William Lane Craig