Como responder a objeções: um exemplo perfeito

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Como responder a objeções: um exemplo perfeito

Dr. Craig,

Estou muito incomodado com uma possível objeção ao argumento cosmológico kalam, que, creio eu, é um dos argumentos mais fortes a favor do teísmo. Em que sentido se pode pensar que Deus existe como entidade atemporal? A própria noção de existência não implica tempo? Não estou convencido de que é possível que algo “exista” sem ou fora do tempo.

Se alguém do outro lado oferecer esta objeção, acho que será muito difícil refutar. Gostaria de saber como o senhor responderia a essa objeção.

Rahul

Índia

India

Embora eu muitas vezes já tenha abordado questões relacionadas à atemporalidade de Deus (ver, p. ex., as perguntas 364, 391), acho que sua pergunta, Rahul, serve para destacar alguns pontos importantes.

Em primeiro lugar, ao lidar com uma objeção proposta, é sempre útil antes considerar a pior das hipóteses, ou seja, que a objeção está correta e, em seguida, avaliar o prejuízo. Em muitos casos, ele é mínimo ou inexistente. Essa objeção é um exemplo perfeito.

Conforme argumentei em outros lugares, o argumento cosmológico kalam não implica que o tempo teve um começo. O que ele requer é que o tempo métrico, isto é, o tempo composto de subintervalos independentes da mente, tenha tido um começo. No entanto, ele é perfeitamente compatível com o ponto de vista de que Deus existe literalmente antes da criação num tempo não-métrico em que intervalos não podem ser distinguidos, como defendido por filósofos do que denomino a escola de pensamento de Oxford sobre o assunto, como John Lucas, Richard Swinburne e Alan Padgett. Assim, a objeção é insignificante, uma vez que o argumento kalam não implica atemporalidade divina (ainda que esta seja minha preferência).

Em segundo lugar, é sempre preciso perguntar que garantia há para a objeção. Faça que o objetor leve consigo uma boa dose do ônus da prova. Uma objeção não tem nenhuma autoridade, a não ser que tenha alguma garantia. Neste caso, é preciso perguntar por que deveríamos pensar que é impossível a algo existir atemporalmente. Trata-se, afinal, de uma afirmação muito radical. Impossível? Por que pensar assim? Não consigo pensar absolutamente em nenhuma razão para pensar que a existência atemporal seja impossível. A menos que o objetor consiga nos apresentar um argumento, não precisamos ficar minimamente incomodados com sua objeção infundada. É preciso fazer que o objetor carregue sozinho seu ônus da prova.

Em terceiro lugar, busque contraexemplos plausíveis à afirmação do objetor. Às vezes, são apenas experimentos mentais, e não algo que realmente existe. Note bem: num caso desse tipo, tudo o que você tem de fazer é pensar em algo que possivelmente existe atemporalmente.

Quem quer que pense que a existência atemporal é impossível sofre não apenas de pobreza de imaginação, mas também de falta de entendimento científico. Pense em objetos matemáticos, como números. Os platonistas tipicamente pensam que esses objetos existem atemporalmente. Não é como se o número 2 existisse ontem e fosse continuar a perpassar o tempo amanhã. Esta visão da condição temporal de números não apenas é plausível, mas é também sustentada por muitos filósofos e matemáticos brilhantes. Assim, nosso objetor deve se levantar não só contra todos que sustentam essa visão, mas também contra todos que pensam que ela é sequer coerente.

Além disso, o ceticismo do objetor é anticientífico. Muitíssimos físicos, sem contar filósofos, pensam que o espaço-tempo é real. Era a visão de Albert Einstein, por exemplo. Segundo esta perspectiva, o tempo é meramente uma dimensão interna que ordena o contínuo de espaço-tempo. O múltiplo de espaço-tempo quadridimensional não existe por si mesmo no tempo. Ele não está inserido num hipertempo dimensional superior. (Por isso, é sem sentido perguntar por que o Big Bang não ocorreu antes.) O múltiplo de espaço-tempo existe por si mesmo, portanto, atemporalmente. Mesmo que não sejamos realistas quanto ao espaço-tempo, a posição realista ainda é coerente.

Por último, em quarto lugar, podemos tentar refutar a objeção propondo um argumento a favor daquilo que ela nega. É muito comum os cristãos, ao deparar com uma objeção, recorrerem imediatamente a esse tipo de resposta, carregando desnecessariamente, então, o ônus da prova que, na realidade, pertence ao objetor. (Frequentemente vemos isso acontecer em discussões sobre o problema do mal, em que o crente é desafiado a demonstrar a compatibilidade de Deus com o sofrimento.) Este quarto tipo de resposta é um ato exagerado por parte dos cristãos, não se tratando de algo necessário para refutar a objeção proposta.

Mesmo assim, neste caso, acho que temos boas razões para pensar que Deus, sem a criação, existe atemporalmente. Pela visão relacional do tempo, este é parasita da mudança. Na total ausência de eventos, o tempo não existiria; tudo que haveria seria um estado atemporal. Pense num mundo possível em que Deus deixa de criar algo, mas existe sozinho imutavelmente. Num mundo assim, não haveria nenhum tempo; ergo, Deus existiria atemporalmente. Portanto, é possível que Deus exista atemporalmente, Q.E.D. Nosso objetor terá de mostrar que uma visão relacional do tempo é impossível. Boa sorte!

Ao confrontar objeções, é preciso ter muito bem esses quatro passos em mente. Em muitos casos, como este, acontece que a objeção não é tão formidável quanto se pensava.

William Lane Craig