Confundindo os argumentos cosmológicos leibniziano e kalam

#497

Confundindo os argumentos cosmológicos leibniziano e kalam

Caro Dr. Craig,

Como ex-neoateu e estudante de filosofia no Reino Unido, achei fascinantes e persuasivos seus argumentos para uma mente criativa inteligente por trás da origem do universo. No entanto, tenho diversos dilemas insolúveis e gostaria de saber se o senhor poderia desfazê-los e explicá-los.

Em primeiro lugar, o senhor invoca o argumento cosmológico kalam como sua premissa inicial para a crença em Deus (um Deus que criou algo, em vez de nada). Creio que seu argumento é válido, mas, no seu debate com o Dr. Lawrence Krauss, ouvi de sua parte algumas coisas interessantes que, por sua vez, poderiam se tornar um problema para o ACK e, de fato, para seu argumento a partir de Leibniz.

Sua resposta à pergunta: “Por que existe algo, em vez de nada?” foi essencialmente o ACK ou, em outras palavras, Deus é a explicação da pergunta.

O Dr. Krauss, então, tentou responder à mesma pergunta postulando um multiverso eterno em que nosso universo é apenas um de uma possível quantidade infinita de universos.

Sua resposta foi dizer que, com ou sem o multiverso, isso não faz nenhuma diferença no argumento de Leibniz, podendo-se facilmente perguntar: “Por que existe um multiverso eterno em que nosso universo é um deles, em vez de nada?” Concordo que isso não faz nenhuma diferença, de modo que a validade de seu argumento continua intacta.

Mas eis o meu problema: o próprio Deus não seria também “algo”? Se reformularmos a pergunta de “um universo” (algo) para “um multiverso eterno” (ainda algo), não estaria correto perguntar: “Por que Deus existe, em vez de nada?” Se o nada é a ausência de alguma coisa (qualquer entidade possível com quaisquer propriedades possíveis), certamente Deus deve também estar ausente, não importando se ele está fora do espaço e tempo em que um universo ou multiverso pudesse existir.

O professor John Lennox, pelo que entendi, tenta explicar dizendo que Deus não vem do nada e nunca começou a existir, como aconteceu com nosso universo. Ainda assim, seria possível que nosso multiverso eterno nunca tivesse tido um começo e sempre estivesse presente. Com que base se pode distinguir um Deus eterno de um multiverso eterno em que nosso universo é um, de modo a diferenciar estas duas questões, que parecem as mesmas? Um multiverso eterno e um Deus eterno parecem mais ou menos sinônimos, o que não nos levaria além do panteísmo.

Deus também não estaria limitado pela possibilidade de que Ele mesmo nunca tivesse existido para criar um universo (ou multiverso), para começo de conversa?

Obrigado pela atenção.

John-Paul

Reino Unido

United Kingdom

Parece haver uma tentação quase irresistível de combinar o argumento cosmológico leibniziano da contingência com o argumento cosmológico kalam do começo do universo. O resultado inevitável é confusão. Objeções são feitas ao híbrido imaginário que não se aplicam às versões puras de nenhum dos argumentos.

Para deixar claros os dois argumentos, vamos esboçá-los aqui;

O argumento leibniziano da contingência

1. Tudo que existe tem uma explicação para sua existência (quer na necessidade de sua própria natureza, quer numa causa externa).

2. Se o universo tem uma explicação para sua existência, tal explicação é Deus.

3. O universo existe.

4. Logo, o universo tem uma explicação para sua existência.

5. Logo, a explicação para a existência do universo é Deus.

O argumento cosmológico kalam

1. Tudo que começa a existir tem uma causa.

2. O universo começou a existir.

3. Logo, o universo tem uma causa.

Com muita frequência, a confusão decorrente da combinação dos dois argumentos é pensar que o argumento afirma que Tudo que existe tem uma causa, o que leva, obviamente, à pergunta: “Qual é a causa de Deus?” Porém, nenhum dos argumentos faz essa afirmação. O argumento cosmológico kalam afirma somente que tudo que começa a existir tem uma causa, enquanto o argumento leibniziano afirma que somente aquilo que não existe por necessidade de sua natureza tem uma causa. Os dois argumentos são compatíveis com a existência de um ser eterno, incausado e metafisicamente necessário.

Se você ouvir meu diálogo com Lawrence Krauss sobre a questão “Por que existe algo, em vez de nada?”, notará que minha resposta é totalmente relacionada ao argumento leibniziano da contingência. Não tem nada a ver com o argumento cosmológico kalam (que aparece em nosso diálogo “É razoável crer que Deus existe?”). Creio que você consegue enxergar como é inadequado tentar responder a Leibniz apelando para a existência de um multiverso eterno, uma vez que permanece a pergunta: “Por que existe um multiverso eterno, em vez de nada?”

Como você observou, Deus também é algo e, portanto, se Ele existe, deve também ter uma explicação para sua existência. Leibniz não comete a falácia do táxi (dispensando o Princípio da Razão Suficiente como se faz com um táxi ao chegar ao destino desejado). Pelo contrário, segundo a visão de Leibniz, Deus não é nenhuma exceção ao Princípio da Razão Suficiente. A explicação da existência de Deus é que Ele existe por uma necessidade de Sua própria natureza. O argumento de Leibniz, portanto, termina na existência de um ser metafisicamente necessário.

Daí, a pergunta: “Com que base se pode distinguir um Deus eterno de um multiverso eterno em que nosso universo é um, de modo a diferenciar estas duas questões, que parecem as mesmas?” é confusa. Você está pensando no argumento cosmológico kalam, para o qual postular um multiverso eterno seria uma resposta relevante. Porém, a existência de um universo eterno pode ser aceita por Leibniz com serenidade, pois ele é irrelevante ao seu argumento.

Antes, relevante é se o universo (ou multiverso) existe por necessidade de sua própria natureza. Não conheço nenhum filósofo ou cientista contemporâneo que creia em algo assim. Nas minhas publicações, é possível encontrar argumentos contra a existência do universo por necessidade de sua própria natureza.[1] É a contingência do universo — eterno ou não — que o distingue de Deus, que, como o ser último, não pode ter uma causa.



[1] Reasonable Faith (Wheaton, Ill.: Crossway, 2008), pp. 108-10 [publicado em português com o título Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 2012].

William Lane Craig