Deus leva as pessoas a praticar o mal?

#498

Deus leva as pessoas a praticar o mal?

Dr. Craig,

Obrigado por tudo que o senhor faz para nos ajudar a entender o Deus da Bíblia diante das questões difíceis que todos enfrentamos. Como seguidora de Jesus, fico incomodada com algumas passagens na Bíblia que parecem indicar que Deus não apenas permite o mal (algo que o senhor já abordou muitas vezes), mas, o que é ainda mais problemático, que Deus na verdade CAUSA o mal. Refiro-me aos relatos no AT e NT: do endurecimento do coração do faraó em Gênesis, a João 13.27b, quando jesus diz a Judas: “O que tens de fazer, faze-o depressa” (parece não haver outra escolha ao pobre Judas), ao relato em Apocalipse 17.15-17 — em especial, a primeira parte dos versos 16-17: “Os dez chifres e a besta que viste odiarão a prostituta. Eles a deixarão desolada e nua e comerão sua carne e a queimarão no fogo. PORQUE DEUS LHES PÔS NO CORAÇÃO que executassem o intento dele, chegassem a um acordo e entregassem seu reino à besta, até que se cumpram as palavras de Deus”. Será que a parte que destaquei se refere a todas as coisas horríveis que praticam — odiar, desolar, comer carne e queimar no fogo?

Como é que concilio um Deus BOM (no sentido de perfeição moral e padrão para toda moralidade) com Seus atos deliberados de causar o mal — ou levar outros a fazer coisas malignas? Será que algo está me fugindo da mente? Quando discuto a questão com outros crentes, há quem pense que Ele pode fazer qualquer coisa em Sua soberania que sirva a Seus propósitos, o que inclui fazer coisas ruins diretamente ou levar outros a cometê-las. Fico aterrorizada com esta ideia e não consigo conciliar as palavras das Escrituras que citei acima com o caráter de Deus que há tanto aceitei.

Não quero enfiar minha cabeça na areia e ignorar essas questões. Quero ter uma resposta mais robusta em relação a esses versículos e conceitos tão difíceis. Gostaria de ouvir o que pensa a esse respeito. Obrigada!

Kathy

Reino Unido

United Kingdom

Seus exemplos, Kathy, são bem heterogêneos. Não há nenhum determinismo na palavra de Jesus a Judas. Simplesmente saber o que alguém fará de forma alguma limita esse alguém causalmente a fazê-lo. Entendo, então, Jesus dizendo a Judas: “Vamos, continue” (isso me traz à lembrança a velha canção de Patsy Cline, “Hurt Me Now, Get It Over!” Nenhum determinismo causal está envolvido). Quanto a Apocalipse 17, ali se descreve simbolicamente a justa ira de Deus sobre o pecado. Não se trata de indivíduos, mas de cidades, nações e alianças. Um exemplo melhor seria Deus incitando a Babilônia no Antigo Testamento a invadir Israel, o que envolveu ações injustas, que constituíram, porém, o julgamento divino sobre Israel por seu pecado. Embora o que os governantes babilônicos fizeram tenha sido injusto, os israelitas mereciam o duro tratamento que tiveram por punição. Seu castigo é, na verdade, algo bom, mesmo que executado por intermédio de homens malignos.

Ainda assim, você talvez tropece no fato de Deus colocar nos corações de certas pessoas que cometam atos malignos, mesmo que tais atos constituam o juízo de Deus sobre pecadores. Da mesma forma, com o faraó, você fica incomodada pelo fato de Deus endurecer seu coração. Concordo que não podemos dizer que Deus levou as pessoas a fazer o mal, pois isso vai de encontro à natureza de Deus.

Para abordar estas situações, é preciso uma teoria satisfatória da providência divina, que afirma tanto a soberania divina sobre todas as coisas quanto a liberdade libertária humana. Uma explicação assim é proposta pelo molinismo, fundamentado na doutrina do conhecimento médio (ver minha participação em Four Views on Divine Providence, ed. Dennis W. Jowers [Grand Rapids, Mich.: Zondervan, 2011]). De acordo com o molinismo, existem dois modos pelos quais Deus realiza estados de coisas (i.e., pelos quais ele faz as coisas acontecerem). Primeiro, vem a realização forte, pela qual Deus produz causalmente algum efeito diretamente por Sua ação. Segundo, vem a realização fraca, pela qual Deus coloca alguém num conjunto de circunstâncias com o conhecimento de que a pessoa livremente decidirá produzir um efeito.

De imediato, deve ter ficado evidente que a realização fraca de um evento maligno não envolve o mal sendo causado por Deus. No máximo, ele leva um agente livre a estar em certo conjunto de circunstâncias, e é o agente que livremente produz o mal. Além disso, segundo o molinismo, Deus deseja absolutamente todo o bem, mas não deseja absolutamente que agentes façam o mal. Ele os permite fazer o mal, sabendo que Ele pode tirar algo de bom disso. Assim, atos maus praticados por agentes livres são, no máximo, desejados condicionalmente por Deus.

O tipo de soberania divina sobre os pensamentos maus do homem que a incomoda permeia a Bíblia e é bem explicado pela perspectivo molinista da providência divina. Pense na declaração de José aos seus irmãos o Egito: “Agora, não vos entristeçais, nem guardeis remorso por me terdes vendido para cá; pois foi para preservar vidas que Deus me enviou adiante de vós... Certamente planejastes o mal contra mim. Porém Deus o transformou em bem, para fazer o que se vê neste dia” (Gênesis 45.5; 50.20). A traição e mentira dos irmãos não podem ter sido causadas por Deus; todavia, Deus soberanamente direcionou os eventos para seu fim previsto de salvar Israel da fome.

Ou considere as seguintes passagens sobre a crucificação de Jesus:

Ele, que foi entregue pelo conselho determinado e pela presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o pelas mãos de ímpios. (Atos 2.23)

Pois, nesta cidade, eles de fato se aliaram contra o teu santo Servo Jesus, a quem ungiste; não só Herodes, mas também Pôncio Pilatos com os gentios e os povos de Israel; para fazer tudo o que a tua mão e a tua vontade predeterminaram que se fizesse. (Atos 4.27-28)

Temos aí uma afirmação impressionante da soberania divina sobre os assuntos dos homens. Fica entendido que a conspiração para crucificar Jesus, envolvendo não apenas os romanos e os judeus em Jerusalém àquela época, mas, de modo mais particular, Pilatos e Herodes, que julgaram Jesus, aconteceu segundo o plano de Deus baseado em sua presciência e preordenação.

Se considerarmos que a palavra bíblica “presciência” envolve o conhecimento médio, podemos muito bem entender essas passagens. Por meio de Seu conhecimento médio, Deus sabia exatamente quais pessoas, se membros do Sinédrio, livremente votariam a favor da condenação de Jesus; quais pessoas, se em Jerusalém, livremente exigiriam a morte de Cristo, favorecendo a libertação de Barrabás; o que Herodes, se rei, livremente faria em reação a Jesus e ao pedido de Pilatos para julgá-lo; e o que o próprio Pilatos, se tivesse encarregado da prefeitura da Palestina em 30 d.C., livremente faria sob a pressão dos líderes judaicos e da multidão. Conhecendo todas as possíveis circunstâncias, pessoas e suas permutações, Deus decretou criar justamente aquelas circunstâncias e justamente aquelas pessoas que livremente fariam o que Deus desejava acontecer. Assim, todo o cenário, conforme insiste Lucas, desdobrou-se de acordo com o plano de Deus.

Deus pode pôr algo no coração da pessoa, realizando-o de forma fraca, e não o causando. Pode-se dizer que ele endureceu o coração do faraó, colocando faraó em circunstâncias em que sabia que ele livremente endureceria seu coração. De fato, o texto diz que o faraó endureceu seu próprio coração! Igualmente, Deus sabia que os agentes simbolicamente retratados no livro de Apocalipse, em determinadas circunstâncias, livremente conceberiam e fariam coisas terríveis, trazendo, assim, o juízo divino sobre a prostituta.

Deus, então, nem causa o mal nem leva os outros a fazer o mal. Entretanto, ele realiza de forma fraca estados de coisas malignos, colocando agentes livres em circunstâncias nas quais Ele sabia que livremente escolheriam o mal. Assim, tudo que acontece se dá pela vontade direta de Deus ou por sua permissão.

William Lane Craig