A necessidade de uma doutrina multifacetada da expiação

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A necessidade de uma doutrina multifacetada da expiação

Dr. Craig,

Obrigado por tudo o que faz em filosofia e apologética. Aprendo muito com o senhor. Fico contente de saber que atualmente está estudando a doutrina da expiação!

Parece-me que nenhuma teoria ainda foi articulada que seja suficiente para lidar com todos os aspectos da expiação. Por exemplo, a teoria da substituição penal (TSP) parece necessária, mas não suficiente para uma teoria completa da expiação. TSP explica (1) a morte de Cristo no lugar de humanos pecadores e (2) a satisfação da exigência por justiça. TSP, porém, não lida suficientemente com a vida, obra e ensino de Cristo, nem tampouco lida suficientemente com a importância da santificação como parte da expiação. Além disso, uma vez que TSP sustenta que Cristo levou a pena que merecíamos por nosso pecado, a pena que teríamos sofrido caso Cristo não tivesse se entregado voluntariamente em nosso lugar, TSP parece sugerir que a pena justamente merecida pelo pecado não é meramente a morte, mas, sim, a morte por crucificação. A teoria da influência moral (TIM) lida com a vida, obra e ensino de Cristo e é relevante para a santificação, mas parece insuficiente em relação aos pontos (1) e (2) acima. E assim por diante.

Dito isto, aqui vai minha pergunta: por que Jesus morreu por crucificação?

Tentativas de explicar, como a TSP e a teoria governamental, dão conta da morte expiatória de Jesus, mas não parecem fornecer uma razão adequada para a crucificação como o meio de morte. Crucificação (precedida por flagelo, espancamento, zombaria, etc.) é uma das formas mais brutais de morte. Jesus poderia ter morrido de outras maneiras, muitas das quais são menos brutais.

Teorias como TIM, Christus victor e da recapitulação parecem fornecer recursos explanatórios para responder à questão. Estas teorias podem ser combinadas com a TSP para proporcionar uma teoria completa da expiação. (Passagens como Colossenses 2.14-15 parecem lidar tanto com o aspecto substitutivo quanto com o aspecto crucicêntrico/vitorioso da morte de Cristo.)

Em sua pesquisa, já chegou a considerar a razão para a crucificação como a forma da morte de Cristo?

Elliott

Estados Unidos

United States

Quem quer que estude o ensinamento bíblico sobre a expiação fica impressionado com a multiplicidade de metáforas e motivos empregados pelos autores bíblicos para caracterizar a expiação: oferta sacrificial, o sofredor Servo do Senhor, justificação, resgate, redenção, representação e assim por diante. Não há nenhum motivo para que nossa teoria da expiação não reflita tal diversidade; pelo contrário, uma teoria que busca reduzir a doutrina a apenas um desses motivos necessariamente omitirá características de uma doutrina global da expiação.

Por isso mesmo, a doutrina da expiação foi comparada de modo muito adequado com uma joia multifacetada. Aspectos da doutrina, como substituição penal ou influência moral, não devem ser consideradas teorias completas e independentes, mas, sim, partes de uma teoria mais rica e multifacetada. Não há, portanto, nenhum motivo para condenar uma faceta específica da expiação que não explique determinados dados bíblicos tão bem quanto o fazem outras facetas, pois os dados bíblicos devem ser explicados pela teoria inteira, e não por um aspecto dela tido isoladamente.

Dito isto, uma gema belamente lapidada costuma ter uma face central dominante (chamada de “mesa” pelos gemólogos), e o mesmo se dá com a doutrina da expiação. Tenho convicção de que uma teoria multifacetada da expiação, para ser adequada, deva incluir a substituição penal como sua mesa, pois a substituição pena é fundamental para tantos outros aspectos da expiação, como a redenção do pecado, a satisfação da justiça divina e a influência moral do exemplo de Cristo. Ainda assim, a característica que serve como a mesa não tem a intenção de explicar tudo.

Grandes teóricos da expiação, como Anselmo e Hugo Grócio, entenderam esse fato com clareza. Embora a satisfação seja a mesa da teoria de Anselmo, sua abrangente teoria da expiação incorpora elementos importantes da teoria do resgate, incluindo a vitória de Deus sobre Satanás (Cur Deus homo I.23; II.19), bem como elementos do que veio a ser conhecido como teoria da influência moral, incluindo o exemplo dado a nós do corajoso sofrimento de tortura e morte (Cur Deus homo II.11,18b). Do mesmo modo, ainda que, para Grócio, a mesa de sua teoria seja a substituição penal, uma faceta importante de sua teoria é a determinação divina de “empregar as torturas e morte de Cristo para estabelecer um solene exemplo” a nós acerca da hediondez do pecado e de Seu grande amor pela humanidade (Defesa da fé católica IV).

Dada a substituição penal, a influência moral exercida pelo exemplo de sofrimento e morte de Cristo fazem todo o sentido. Tomada isoladamente da substituição penal, a teoria da influência moral se torna bizarra. Em sua obra clássica The Atonement [A expiação], o filósofo-teólogo R. W. Dale contemplou: “Se meu irmão conseguisse entrar numa casa incendiada para salvar meu filho das chamas e viesse a perecer em sua atitude heroica, seu destino seria incrível prova de sua afeição por mim e pelos meus; se, porém, não houvesse nenhuma criança na casa e me fosse dito que ele entrou ali e pereceu sem nenhum objetivo, senão mostrar seu amor por mim, a explicação seria de uma ininteligibilidade absurda”.[1] A morte de Cristo por nossos pecados é a fonte de tamanha influência moral na humanidade que ajuda a atrair as pessoas à fé em Cristo e a perseverar na fé em meio a provações e até mesmo o martírio.

A influência moral do sofrimento e crucificação de Jesus na humanidade é verdadeiramente inestimável. Repetidas vezes representada figuradamente na literatura e explicitamente na arte, a morte de Cristo fez de Jesus de Nazaré, muito mais do que seu ensino, muito mais do que seu caráter, uma pessoa arrebatadora e cativante para centenas de milhões, senão bilhões, de pessoas e inspirou incontáveis números de pessoas a suportar com coragem e fé a dor terrível e até mesmo a morte. Como faceta de uma teoria multifacetada e abrangente da expiação que inclui a substituição penal como sua mesa, a teoria da influência moral faz, assim, uma contribuição valiosa à compreensão do modo como os benefícios conquistados pela morte de Cristo passam a ser apropriados pela humanidade.



[1] R. W. Dale, The Atonement, 9. ed. (Londres: Hodder & Stoughton, 1884), liv. Cf. James Denney, The Death of Christ: Its Place and Interpretation in the New Testament (Londres: Hodder and Stoughton, 1907), p. 177.

William Lane Craig