Encontrar o cadáver de Jesus demonstraria que o cristianismo é falso?

#501

Encontrar o cadáver de Jesus demonstraria que o cristianismo é falso?

Dr. Craig, minha pergunta tem duas partes.

Primeira, o senhor concordaria que, se o corpo de Cristo fosse encontrado, haveria uma boa razão para pensar que o cristianismo é falso (supondo, obviamente, que pudéssemos saber que o corpo fosse, de fato, o corpo de Cristo)? Ao meu ver, esta me parece uma proposição razoável.

Pois bem, a questão com que estou lutando agora é a seguinte: o senhor examina e refuta inúmeras explicações naturais para a ressurreição de Cristo e para os fatos em torno do evento. No entanto, se acontecesse de arqueólogos encontrarem o corpo de Cristo amanhã de manhã, uma dessas explicações naturais para a ressurreição de Cristo teria de ser verdadeira! Todavia, o senhor defende ardorosamente que elas não podem ser verdadeiras. Será que isso é problemático, filosoficamente falando?

Obrigado.

Tom

Akrotiri

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Em resposta a sua primeira pergunta, Tom, a descoberta dos restos mortais de Jesus daria, obviamente, uma boa razão para pensar que o cristianismo é falso. Paulo disse aos coríntios: “E, se Cristo não ressuscitou, então a nossa pregação é inútil e também a vossa fé” (1 Coríntios 15.14). A ressurreição de Jesus é essencial ao cristianismo.

Além disso, argumentei exaustivamente que a ressurreição de Jesus implica que o corpo de Jesus que foi crucificado e colocado no túmulo se levantou dentre os mortos. A palavra “ressurreição” significava um cadáver se levantar dentre os mortos. Dale C. Allison Jr., destacado estudioso de Novo Testamento, é enfático:

em lugar algum na Bíblia ou na literatura judaica ou cristã antiga a linguagem da ressurreição se refere a um corpo materialmente novo, fisicamente desconectado do antigo. Um corpo ressurreto é sempre o corpo antigo ou uma parte dele de volta à vida e/ou transformado... Ressurreição significava corpos no chão voltando à vida. Levantar-se dos mortos era levantar-se do sepulcro.[1]

O entendimento de Paulo acerca da ressurreição é que ela envolve uma transformação do corpo mortal terreno num corpo sobrenatural, e não uma troca do corpo mortal por outro corpo. Menciono aqui quatro razões para pensar que Paulo acreditava na transformação do corpo terreno no corpo da ressurreição.

1. Em 1 Coríntios 15.51-52, Paulo fala claramente da mudança intrínseca no corpo, e não da troca de corpos. O verbo grego allaso tem a mesma gama de significados que nosso “mudar”. Normalmente, significa mudança intrínseca num único sujeito. Por exemplo, dizemos a um velho amigo: “Puxa, como você mudou!” Às vezes, significa troca, como quando dizemos: “Mudamos de aparelho de celular”. Quando allaso é usado no sentido de “troca”, o verbo é normalmente ativo e rege um objeto direto ou uma locução prepositiva. Por exemplo, em Romanos 1.23, Paulo diz: “e substituíram [mudaram] a glória de Deus por imagens”. Porém, em 1 Coríntios 15, Paulo nunca diz: “Mudaremos de corpos”. Pelo contrário, ele diz: “A trombeta soará, e seremos mudados [transformados]”. A passagem só faz sentido como mudança intrínseca.

2. Os verbos de Paulo para semear e ressuscitar em 1 Coríntios 15.42-44 têm o mesmo sujeito implícito. “semeia-se… ressuscita…”. Paulo o repete quatro vezes. Para evitar a implicação de identidade numérica, seria preciso traduzir erroneamente a passagem, de modo que os verbos tivessem sujeitos diferentes: “Um é semeado, um [i.e., outro] ressuscita...”.

3. O uso de Paulo de “o que” em 1 Coríntios 15.53 aponta para nossos corpos mortais ou natureza que precisa ser mudada. Ele afirma quatro vezes que o que é perecível precisa revestir-se do imperecível; o que é mortal precisa revestir-se de imortalidade, indicando a transformação que precisa ocorrer em nossos corpos mortais.

4. Em outros lugares, Paulo fala da mudança que nossos corpos mortais sofrerão na ressurreição. Por exemplo, “[ele] transformará o corpo da nossa humilhação, para ser semelhante ao corpo da sua glória” (Filipenses 3.21). Novamente, “aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos há de dar vida também aos vossos corpos mortais” (Romanos 8.11). E mais uma vez: “[aguardamos] ansiosamente nossa adoção, a redenção do nosso corpo” (Romanos 8.23).

Por estas e outras razões, a grande maioria dos comentaristas contemporâneos concorda que, na ressurreição, Paulo contempla a transformação do corpo terreno. Do mesmo modo, podemos dizer em relação à ressurreição: “nenhum cadáver é deixado para trás”. Assim, caso um cadáver fosse descoberto, nenhuma ressurreição teria acontecido.

Pois bem, como você observa muito bem, isso ainda deixa aberta a questão da possibilidade que “pudéssemos saber que o corpo [encontrado por arqueólogos] fosse, de fato, o corpo de Cristo”. Duvido que pudéssemos, diante do que sabemos. Mas isso fica para outro dia.

Quanto a sua segunda pergunta, “se acontecesse de arqueólogos encontrarem o corpo de Cristo amanhã”, disso não seguiria que uma daquelas explicações naturais para a ressurreição que eu examinei e refutei deveria ser verdadeira. A implicação seria que alguma explicação natural para a ressurreição teria de ser verdadeira, talvez uma que não examinei (p. ex., alienígenas?). Em todo caso, nunca aleguei que essas explicações naturalistas “não podem ser verdadeiras”. Você incorreu aqui em hipérbole retórica. O que sustento claramente é que essas explicações naturalistas não passam pelos critérios para ser a melhor explicação dos indícios. Elas ficam aquém em força explanatória ou escopo explanatório, são implausíveis ou forçadas, e assim por diante. É assim que hipóteses históricas (e, pode-se acrescentar, científicas) costumam ser avaliadas. Se fossem impossíveis, não estariam sequer no grupo de opções explanatórias viáveis, mas seriam descartadas como “malucas”. Portanto, são explicações possíveis dos fatos, mas, como argumentei, não são as melhores. Agora, se de repente os dados a ser explicados viessem a incluir o fato de que o cadáver de Jesus foi encontrado, a hipótese da ressurreição seria um fracasso total enquanto explicação para o fato e, consequentemente, não seria mais a melhor explicação!

Por isso, não existe nenhum problema neste caso. Podemos ficar tranquilos, aliás, se considerados os indícios, de que não precisamos nos preocupar que aquilo que você imaginou um dia acontecerá.



[1] Dale C. Allison, Jr., “The Resurrection of Jesus and Rational Apologetics”, Philosophia Christi 10 (2008): 315-338. Quando Allison diz “ou uma parte dele”, ele está se referindo aos ossos do falecido, que eram, na verdade, o objeto principal da ressurreição na crença judaica e, portanto, preservados em ossuários para o dia da ressurreição.

William Lane Craig