A realidade é una ou múltipla?

#502

A realidade é una ou múltipla?

Olá.

Estou cursando um mestrado em filosofia (Universidade de Maiçor, Índia) e terminei o bacharelado em teologia (Universidade de Serampore). Fiquei confuso com as visões monistas hinduístas depois de ir a algumas aulas, e não sei a quem recorrer além do senhor.

O cristão seria um dualista? Para nós, criação e criador são totalmente diferentes, e o mesmo se dá com a existência do mal. Quando chegarmos aos portões de pérola, ainda seremos humanos, e não divinos. Para o hinduísta, porém, quando a pessoa é liberada, ela se torna uma com Deus. Assim, sua realidade última é Una. E nós? Nossa realidade última é Una, Dupla ou o quê?

Jajo

Índia

India

Que bom receber uma pergunta de um de nossos leitores na Índia! Você tocou numa das diferenças mais importantes entre a cosmovisão teísta, como encontrada no cristianismo, e a cosmovisão panteísta, como o hinduísmo advaita vedanta. (O intrigante é que existem antigas escolas de pensamento hinduísta que são teístas, desfazendo, assim, o contraste barato entre formas de pensamento “orientais” e “ocidentais”; de todo modo, a tradição majoritária é panteísta.)

Como você notou, o hinduísmo panteísta é monista, uma visão resumida na frase: “Tudo é Uno”. Distinções e diversidade, incluindo você próprio, não passam de ilusões. Em contraste, o cristianismo é pluralista, afirmando a realidade da diversidade de seres. Neste sentido, o cristianismo não é dualista, uma vez que afirma a existência de mais do que dois seres. É preciso cuidado aqui, uma vez que, em outro sentido, o cristianismo é dualista, afirmando a realidade tanto de corpo quanto de alma.

Mais uma vez, é preciso cuidado quando se fala de “realidade última”. Para o cristianismo, embora existam muitos seres, somente Deus é autoexistente e necessário. Todas as demais coisas são contingentes e dependem de Deus para existir. Então, neste sentido, existe uma única realidade última da qual todo o demais deriva. A distinção crucial entre existência necessária e contingente nos permite afirmar a pluralidade de seres sem sustentar que todos os seres são últimos.

Em contraste, para o hinduísmo, existe em última instância apenas uma realidade e, portanto, nenhuma distinção entre ser contingente e necessário.

Quanto a avaliar estas visões conflitantes da realidade, todos os argumentos teístas que defendo servem para mostrar a falsidade da visão panteísta da realidade e, consequentemente, do hinduísmo. O argumento moral, em particular, é refutação vigorosa do hinduísmo. Segundo o hinduísmo, a distinção entre bem e mal é apenas uma ilusão e, portanto, não há diferença entre bem e mal. Uma cosmovisão dessas não somente é inconcebível, mas a distinção entre bem e mal é mais clara do que quaisquer dos argumentos favoráveis ao monismo, de modo que a crença no hinduísmo se torna irracional.

William Lane Craig