Molinismo vs. Calvinismo: Preocupado com os Calvinistas

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Molinismo vs. Calvinismo: Preocupado com os Calvinistas

Ao comparar Molinismo versus o Calvinismo, pode-se observar, rapidamente, quantos líderes cristãos favorecem à visão reformada em sua teologia, acreditando que Deus é o agente primário causando todas as coisas. No entanto, a afirmação de que Deus é ativamente responsável por tudo o que acontece cria várias dificuldades teológicas, uma sendo a responsabilidade de Deus pelo mal que vemos em nosso mundo. Dr. Craig aqui enumera cinco problemas principais que o defensor do determinismo divino causal enfrenta, e porque no debate entre Molinismo e Calvinismo o conhecimento médio oferece uma solução para o mistério da predestinação de Deus e livre arbítrio do homem.

Dr. Craig,

Estou preocupado com o grande número de calvinistas que eu vejo que são líderes cristãos incrivelmente inteligentes e dignos de confiança. O que quero dizer é que, muitos parecem ser capazes de grande análise (muito mais do que eu), mas parecem manter sua cabeça na areia quando se trata do problema do mal. Se não fizerem isso, então eles tendem a fazer de Deus um ser autocontraditório. Por que você acha que isso acontece?

Também estou pessoalmente preocupado com a pequena quantidade de líderes que vejo defendendo o molinismo. Parece-me que ele responde a maioria das perguntas e cria menos problemas. Eu entendo que ele pode ser complexo, mas eu não acho que podemos nos simplesmente conformar com o problema do mal não sendo respondido. Eu não baseio o que eu acredito nas crenças dos outros, mas não podemos ignorar a influência que os outros têm em nossas vidas, ou o desejo de estar em acordo com os outros quando se trata desses pensamentos.

De qualquer forma, eu apreciaria suas ideias...como sempre aprecio.

Obrigado,

Gordon

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Molinismo vs Calvinismo

Eu penso que você tem razão, Gordon, que um grande número de líderes cristãos inteligentes e piedosos são Reformados, ou seguidores de João Calvino, em sua teologia. Atualmente estou participando de um livro de quatro pontos de vista sobre a providência divina, juntamente com um par de teólogos reformados. É evidente por suas contribuições que, apesar dos quebra-cabeças intelectuais levantados pela visão reformada, ambos a adotam porque estão convencidos de que ela representa mais fielmente o ensino das Escritura sobre o assunto, a Escritura sendo a única regra autorizada de fé.

Na verdade, eu não tenho nenhum problema com certas afirmações clássicas da visão reformada. Por exemplo, a Confissão de Westminster (Seção III) declara que:

Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas.

Agora, isto é precisamente o que crê o molinista! A Confissão afirma a pré-ordenação de Deus de tudo o que acontece assim como a liberdade e a contingência da vontade da criatura, de modo que Deus não é o autor do pecado. É uma tragédia que, na rejeição do conhecimento médio, os teólogos reformadores privam-se da explicação mais lúcida da coerência desta maravilhosa confissão.

Molinismo vs Calvinismo – Aceitando uma solução ou um mistério

Ao rejeitar uma doutrina da providência divina, baseada no conhecimento médio de Deus, os teólogos reformados são simples e autoconfessadamente deixados com um mistério. O grande teólogo reformado do século 17, Francis Turretin, defendia que uma análise cuidadosa da Escritura leva a duas conclusões indubitáveis, ambas as quais devem ser mantidas em tensão sem comprometer uma das duas:

que Deus, por um lado por sua providência, não só decretou, mas certamente assegura o evento de todas as coisas, sejam livres ou contingentes; por outro lado, no entanto, o homem é sempre livre de agir e muitos efeitos são contingentes. Embora eu não consiga entender como estes podem estar mutuamente ligados entre si, mas, (por conta da ignorância do modo) a coisa em si (o que é certo a partir de outra fonte, ou seja, a partir da Palavra) não seja questionada ou totalmente negada (Institutos de Teologia Elenctic, 1: 512).

Aqui Turretin afirma, sem dúvida, tanto a soberania de Deus quanto a liberdade humana e a contingência; ele só não sabe como colocá-las juntos. O Molinismo oferece uma solução. Ao rejeitar essa solução, o teólogo reformado fica com um mistério.

Não há nada de errado com mistério per se (a interpretação física correta da mecânica quântica é um mistério!); o problema é que alguns teólogos reformados, como meus dois colaboradores no livro dos quatro pontos de vista, tentam resolver o mistério, mantendo um determinismo causal, universal e divino, e uma visão compatibilista da liberdade humana. De acordo com essa visão, a maneira pela qual Deus soberanamente controla tudo o que acontece é fazendo com que aconteça, e a liberdade é reinterpretada para ser coerente com o ser causalmente determinado por fatores externos a si mesmo.

É esta visão, que afirma o determinismo universal e compatibilismo, que se depara com os problemas que você menciona. Fazer de Deus o autor do mal é apenas um dos problemas que esta visão neo-reformada encara. Pelo menos cinco vêm imediatamente à mente:

Molinismo vs Calvinismo – Cinco dificuldades com a visão Reformada

1. Determinismo universal, divino, causal não pode oferecer uma interpretação coerente da Escritura. Os teólogos reformados clássicos reconhecem isso. Eles reconhecem que a reconciliação de textos bíblicos que afirmam a liberdade humana e a contingência com textos bíblicos que afirmam a soberania divina são inescrutáveis. D.A. Carson identifica nove tipos de textos que afirmam a liberdade humana: (1) As pessoas enfrentando uma infinidade de exortações e comandos divinos, (2) as pessoas são ditas para obedecer, crer e escolher a Deus, (3) as pessoas pecam e se rebelam contra Deus, (4) os pecados das pessoas são julgados por Deus, (5) as pessoas são provadas por Deus, (6) as pessoas recebem recompensas divinas, (7) os eleitos são responsáveis por responder à iniciativa de Deus, (8) orações não são meras peças de exibição escritos por Deus e (9) Deus literalmente implora que os pecadores se arrependam e sejam salvos (Divine Sovereignty and Human Responsibility: Biblical Perspectives in Tension [A Soberania Divina e a Responsabilidade Humana.: Perspectivas Bíblicas em Tensão], pp 18-22). Essas passagens descartam um entendimento determinista da providência divina, o que impediria a liberdade humana. Deterministas conciliam o determinismo universal, divino, e causal com a liberdade humana reinterpretando a liberdade em termos compatibilistas. Compatibilismo requer o determinismo, por isso não há mistério aqui. O problema é que a adoção de compatibilismo alcança a reconciliação só à custa de negar o que vários textos bíblicos parecem claramente afirmar: a indeterminação e contingência genuína.

2. Determinismo universal causal não pode ser racionalmente afirmado. Há uma espécie de caráter vertiginoso e auto-destrutivo no determinismo. Pois se alguém passa a acreditar que o determinismo é verdadeiro, tem que acreditar que o motivo pelo qual ele veio a acreditar nisso é simplesmente porque ele estava determinado a fazê-lo. Ele não foi capaz de pesar os argumentos pró e contra e livremente fazer a sua decisão com base nisso. A diferença entre a pessoa que pesa os argumentos para o determinismo e o rejeita, e a pessoa que os pesa e aceita, é somente porque uma foi determinada por fatores causais fora de si mesmo para acreditar e outra para não acreditar. Quando você percebe que sua decisão de acreditar no determinismo foi determinada e que até mesmo sua presente realização desse fato agora é igualmente determinada, uma espécie de vertigem acontece, porque tudo o que você pensa, até mesmo este mesmo pensamento, está fora de seu controle. O determinismo poderia ser verdade; mas é muito difícil ver como isso poderia ser racionalmente afirmado, já que sua afirmação enfraquece a racionalidade de sua afirmação.

3. Determinismo universal, divino faz de Deus o autor do pecado e se opõe à responsabilidade humana. Em contraste com a visão Molinista, na visão determinista até mesmo o movimento da vontade humana é causado por Deus. Deus move as pessoas a escolher o mal, e elas não podem fazer diferente. Deus determina suas escolhas e os faz fazer errado. Se for mal fazer outras pessoas fazerem o mal, então nesta visão Deus não é apenas a causa do pecado e do mal, mas torna-se o mal em si mesmo, o que é absurdo. Da mesma forma, toda a responsabilidade humana pelo pecado foi removida. Pois as nossas escolhas não são realmente dependentes de nós: Deus nos leva a fazê-los. Nós não podemos ser responsáveis por nossas ações, pois nada que pensamos ou fazemos depende de nós.

4. Determinismo universal, divino anula a agência humana. Já que nossas escolhas não dependem de nós mas são causadas por Deus, os seres humanos não podem ser considerados verdadeiros agentes. Eles são meros instrumentos através dos quais Deus age para produzir algum efeito, como um homem usando uma vara para mover uma pedra. Claro, as causas secundárias mantêm todas as suas propriedades e poderes como causas intermediárias, como os teólogos reformados nos lembram, assim como um pedaço de pau conserva as suas propriedades e poderes que o tornam adequado para os fins de quem o usa. Pensadores reformados não precisam ser ocasionalistas como Nicholas Malebranche, que sustentava que Deus é a única causa que existe. Mas estas causas intermediárias não são agentes em si, mas meras causas instrumentais, pois eles não têm poder para iniciar ação. Por isso, é duvidoso que no determinismo divino realmente haja mais de um agente no mundo, que no caso seria Deus. Esta conclusão não entra em conflito com nosso conhecimento de nós mesmos como agentes, mas torna inexplicável por que Deus, então, trata-nos como agentes, mantendo-nos responsáveis por aquilo que Ele nos fez fazer e nos usou para fazer.

5. Determinismo universal, divino torna a realidade em uma farsa. Na visão determinista, todo o mundo se torna um espetáculo vão e vazio. Não há agentes livres em rebelião contra Deus, a quem Deus procura conquistar por meio do Seu amor, e ninguém que responde livremente a esse amor e livremente dá seu amor e louvor a Deus em troca. Todo o espetáculo é uma farsa, cujo único ator de verdade é o próprio Deus. Longe de glorificar a Deus, a visão determinista, estou convencido, denigre a Deus por se engajar em um uma charada falsa. É profundamente insultante para Deus pensar que Ele criaria seres que são em todos os aspectos causalmente determinado por Ele e, em seguida, tratá-los como se fossem agentes livres, punindo-os pelas ações erradas Ele os fez fazer ou amá-los como se fossem agentes respondendo livremente. Deus seria como uma criança que posiciona seus soldados de brinquedo e move-os através de seu mundo de brinquedo, fingindo que eles são pessoas reais, cujos movimentos não são de fato seus, e fingindo que eles merecem louvor ou culpa. Estou certo de que os deterministas Reformados, em contraste com teólogos reformados clássicos, se ofenderão com tal comparação. Mas por que ela é inadequada para a doutrina do determinismo universal, divino, causal é um mistério para mim.

Molinismo vs Calvinismo – Informando teólogos pode aumentar a aceitação do Molinismo

Então, por que tantos líderes cristãos inteligentes e fiéis são convencidos pelo Calvinismo? Eu acho que o tipo de Calvinismo representado pela declaração citada acima da Confissão de Westminster é um resumo fiel do ensino da Escritura e, portanto, deve ser acreditado. É só quando se vai além dela para tentar resolver o mistério, abraçando o determinismo e o compatibilismo que alguém se mete em problemas. Então, na medida em que esses líderes cristãos se contentam em permanecer com o mistério, eu acho que a posição deles é razoável. A grande maioria deles tem, provavelmente, pouco entendimento do Molinismo e por isso são apenas insuficientemente informados para tomar uma decisão. Alguns anos atrás eu falei no Seminário de Westminster, em San Diego, sobre o conhecimento médio, e no meio da seção de perguntas e respostas após minha palestra, um dos professores disse: "Eu estou envergonhado de dizer, Dr. Craig, que nós não somos nem mesmo capazes de discutir isso com você, porque nós simplesmente não estamos familiarizadas com o que você está falando." Ele estava envergonhado que, como um teólogo profissional, ele era tão ignorante desses debates. Por outro lado, alguns teólogos que pertencem à tradição reformada deslocaram-se para o Molinismo. Quando eu dei as palestras Stob no Calvin College and Seminary, fiquei chocado quando os teólogos no seminário me disseram que eles eram todos Molinistas! Eu cada vez mais encontro pessoas que estão se movendo na direção Molinista (tanto do Calvinismo quanto do Teísmo Aberto!)

Portanto, não seja muito duro com nossos irmãos Calvinistas. Ofereça-lhes algo melhor, e espero que eles o adotem.

William Lane Craig