Dawkins sobre a natureza não-aleatória da evolução

#457

Dawkins sobre a natureza não-aleatória da evolução

Querido Dr. Craig,

Recentemente notei que Richard Dawkins normalmente declara o Neo-Darwinismo como sendo não-aleatório. Dawkins recentemente repetiu esta frase durante uma entrevista em um programa de talk-show Escandinávio, Skavlan, ao ser perguntado: “Qual é o erro mais comum sobre a evolução?” Sua resposta foi: “Que é uma teoria [de chances] aleatória. Obviamente não pode ser uma teoria aleatória. Se fosse uma teoria de chances aleatórias ela não conseguiria explicar o por que dos animais e plantas serem tão lindamente [...] bem desenhados”. Ele prossegue e diz: “O que Darwin fez foi descobrir a única alternativa conhecida para a possibilidade aleatória, a qual é a seleção natural”. Alguns anos atrás, ele fez comentários semelhantes durante perguntas e respostas em um show de televisão australiano, onde disse: “Existe variação genética aleatória, sobrevivência não-aleatória e reprodução não-aleatória”. Ele prossegue dizendo que: “[...] isso é essencialmente não-aleatório”.

Pra mim é difícil entender como Dawkins (especialmente quando ele apresenta passo-a-passo o processo de mudança descrito pelo Neo-Darwinismo) pode afirmar que este é não-aleatório, e essencialmente não-aleatório, quando o primeiro passo para o processo é, o que ele mesmo admitiu, aleatório. Será que eu perdi algo aqui? Eu pensava que em qualquer sistema, não importa quão não-aleatório e subsequente seus passos sejam, se o primeiro passo é completamente aleatório (e dependente dos passos subsequentes, ainda que apenas transitoriamente), então o resultado será aleatório. Você consegue ver alguma razão para que a declaração de Dawkins sobre o Neo-Darwinismo seja essencialmente não-aleatório? Caso não veja, ele não deu um tiro no próprio pé durante a entrevista para o Skavlan ao usar não somente a palavra ‘D’ (desenho) mas também admitindo, ou até reinvindicando, que a beleza do desenho que vemos na vida não pode ser aleatoriamente gerada?

Agradeço por seu trabalho. Deus o abençoe,

Simon

Austrália

Australia

Acho que entendo, Simon, onde Dawkins quer chegar, ainda que ele não tenha se expressado tão bem. Quando ele corrije o mal entendido de que a teoria da evolução seja uma teoria “[de chances] aleatória”, a visão que ele busca criticar é a visão ingênua de que a evolução da complexidade biológica seja como um lançar (ou uma sequência de lançamentos) de dados. Provavelmente ele tem em mente comparações da evolução de complexidades biológicas com um tornado montando um Boeing 747 ou um chimpanzé recitando peças de Shakespeare. Se a evolução funciona desta forma, então se torna impossível explicar o por que das plantas e dos animais também serem tão adaptáveis ao ambiente ou, dizendo coloquialmente, porque são “tão lindamente [...] bem desenhados”. Aleatoriedade pura tornaria fantasticamente improvável com que as plantas e os animais que observamos chegassem a existir.

O ponto de Dawkins ao confessá-lo não traz nenhum conforto aos criacionistas porque a teoria da evolução não afirma que os animais e as plantas vieram a existir através de um processo de puro acaso. Pelo contrário, a teoria da evolução sustenta que as mutações aleatórias (“variações genéticas aleatórias”) devem ser suplementadas pela seleção natural (“sobrevivência não-aleatória e reprodução não-aleatória”), o qual elimina a prole dos organismos que não se adaptam adequadamente. Não é uma questão de puro acaso qual prole sobrevive e qual reproduz, seu ambiente contém fatores que irão determinar de forma previsível quais irão sobreviver. Esta é a razão pela qual Dawkins caracteria a seleção natural como “a única alternativa conhecida para a possibilidade aleatória”.

Dawkins chama a teoria da evolução de “essencialmente não-aleatória”, porque ela inclui essencialmente um elmento não-aleatório, chamado seleção natural. Quando você relata que “qualquer sistema, não importa quão não-aleatório e subsequente seus passos sejam, se o primeiro passo é completamente aleatório [...] então o resultado será aleatório”, você e Dawkins estão falando sobre duas coisas diferentes. Você concordaria que a teoria do processo evolutivo não se trata do puro acaso, e este é o ponto dele. Ele iria concordar que é totalmente ao acaso quais tipos de organismos eventualmente se desenvolvem deste processo pelo fato de que diferentes mutações possam ter ocorrido com igual probabilidade, sendo que este é o seu ponto. O verdadeiro ponto de discórdia é, ou deveria ser, a adequação explicativa sobre a mutação aleatória e a seleção natural para produzir a complexidade biológica em um tempo determinado.

Sua pergunta destaca a importância de definir claramente nossos termos ao discutirmos tais assuntos. O que é notável na declaração de Dawkins é sua associação de aleatoriedade com o acaso. Isso é grosseiramente enganoso. Como expliquei anteriormente (Pergunta # 253), quando os biólogos evolucionistas usam a palavra “aleatório” para caracterizar mutações genéticas, eles não querem dizer (pelo menos quando falam em um ambiente profissional, e não em um programa de televisão) acaso. O que eles querem dizer é que as variações genéticas acontecem independentemente do benefício para o organismo no qual ocorrem. Aleatoriedade, neste sentido, é completamente compatível com Deus sendo o causador das mutações que ocorrem tendo um fim em mente e, portanto, guiando o processo evolutivo para chegar até as plantas e animais que observamos, incluindo a nós mesmos, como a culminação deste processo. Quando Dawkins fala sobre “acaso aleatório” ele está misturando dois conceitos diferentes e assim turvando as águas. Ele não tem idéia se as mutações aleatórias que ocorrem, todas ocorrem por acaso. Esta é uma afirmação filosófica, não uma conclusão científica. É seu suposto naturalismo filosófico que o leva a crer que variações genéticas ocorrem completamente ao acaso, fazendo com que os produtos do desenvolvimento evolutivo sejam não premeditados.

William Lane Craig